quarta-feira, 19 de dezembro de 2018

5

– E nunca mais escreveste nada,
diz ela enquanto eu ponho a mesa, enquanto eu dobro os guardanapos e ponho os talheres e os pratos na mesa,
– parece que desapareces quando deixas de escrever, que és uma sombra que ninguém sabe onde está, parece que não existes quando não escreves, que és apenas alguém que ninguém sabe bem o que lhe aconteceu, ou apenas o teu nome, o teu nome como ela costumava dizer, como é que era?.
e eu,
– não me lembro,
e ela,
– Migueeeeeel, era assim?, era assim que ela dizia?, era assim que ela olhava para ti, que ela te chamava?, era assim que a vias?, como alguém que chamava por ti?,
e eu enquanto dobro os guardanapos,
– estou farto disto, estou mesmo farto disto tudo, de tudo o que acontece, estou farto de escrever a minha vida antes que ela aconteça, estou farto de ampliar as coisas e depois vivê-las, estou farto de ser quem eu sou, estou farto desta personagem, que está muito pior e muito mais infeliz do que eu mas que vou ser eu daqui a um mês ou dois, ou um ano, só sei que depois o tempo passa e afinal estou exactamente onde me escrevi.
Eu olho para ela. Eu digo,
– vida de merda, ainda bem que vocês existem porque se vocês não existissem, não sei, porque é que as coisas têm de ser assim?, sempre a mesma coisa, sempre a mesma desilusão, sempre as mesmas coisas a acontecerem umas atrás das outras, eu não aprendo, não aprendo mesmo, não aprendo nada,
e ela depois de eu me calar,
e eu,
– hã?
e ela,
 – somos eu, tu, o Pedro e a tua mãe, porque é que estás a pôr cinco pratos?
E depois almoçamos, apenas os quatro. A minha mãe olha para ela e imagina o dia em que sou eu e não o Pedro a vir almoçar com uma mulher grávida de seis meses. E olho para o Pedro e penso no David e na Madalena, nos últimos amigos que tenho no mundo, e todos eles estão bem, todos eles estão
eu calo-me
eu digo em voz alta enquanto levanto o copo de vinho,
– um brinde ao amor,
e todos levantam o copo e todos sorriem e depois vamos ao teatro, eu traduzi a peça,  e na bilheteira dizem-me,
– cinco bilhetes, cinco convites,
e eu,
– não,
e eu outra vez,
– não,
e a tua voz na minha cabeça,
– Migueeeeeel.
E é isso. Às vezes penso em ti, às vezes, baralho-me e ponho um prato na mesa que não é para ti, ou então peço um bilhete que não é para ti porque tu estás noutro lado que não é aqui, agora, noutro lado qualquer que não é aqui.
Enfim… Há uns dias fiz anos, 41. Qua-ren-ta-e-um. Já não falava com o Bruno há não sei quanto tempo, ele disse-me,
– sou um amigo de merda, não digo nada durante o ano inteiro, como é que estás?
e eu,
– sabes como é, sabes como eu sou, sempre as escolhas erradas,
e ele,
– é isso que admiro em ti, são essas escolhas erradas que fazem de ti o,
e eu a ouvir-te,
– Migueeeeeel,
e o Bruno,
que tu és.
Mas eu estou farto. Estou farto disto tudo.

sábado, 1 de dezembro de 2018

CRONOS

Quando eu era novo, quando eu era muito novo, talvez com quatro ou cinco anos – não sei, talvez antes dessa altura isso também acontecesse, mas para me lembrar das coisas já devia ter quatro ou cinco anos, talvez mais, o tempo passa e perdemos a noção real de quanto tempo passou, do que se passou, quando é que se passou – passava parte do Verão com os meus pais, acho que no Algarve, talvez uma semana, talvez um fim-de-semana, e grande parte desse tempo, pelo menos do que me lembro, mas tenho a certeza que isso não é verdade, era passado a construir castelos de areia com o meu pai. Quando a maré baixava e, não sei, tenho a ideia que a maré estava sempre baixa, começávamos a construir o castelo de areia, com torreões, fossos, e a areia meia molhada que segurávamos numa mão fechada e que deixávamos cair para o castelo que ia ficando com um estilo quase manuelino enquanto as gotas de água e areia misturadas se iam acumulando para formar janelas, portas e a imponência de um castelo que era ao mesmo tempo um palácio e uma fortaleza. Depois a maré começava a subir e de cada vez que se aproximava começávamos a construir um fosso maior que protegesse as muralhas do castelo, até que uma onda maior invadia o fosso, as muralhas e os torreões e tudo desabasse num momento, enquanto o meu pai dizia,
– ah,
e eu amaldiçoava o mar e amaldiçoava o mundo que não deixava que castelos com fossos, muralhas e torreões se mantivessem de pé por mais do que umas horas. E depois era tarde, o sol quase que se estava a pôr e era altura de ir embora. Amanhã havia mais castelos com fossos, muralhas e torreões. E no dia a seguir começava tudo outra vez e acabava tudo da mesma maneira.
Isto foi há muito tempo.
É engraçado lembrar-me disto e lembrar-me de ti. É engraçado porque não sei se és o castelo ou se és o meu pai a dizer,
– ah,
como se não soubesses o que ia acontecer, como se não soubesses que tudo ia desabar, que uma onda maior ia destruir tudo, e que eu sou só um miúdo que deixou de ir à praia porque os castelos caem, caem mesmo, e há um dia em que não há como reconstruí-los, há um dia em que tudo à volta é uma onda que engole tudo, que devora tudo, e não há ninguém que nos pegue na mão e diga,
– é tarde, o sol está a pôr-se, está na altura de ir embora, amanhã tentamos outra vez.
Ao jantar, hoje, passaram-se muitos anos.
O meu pai está velho, estamos todos velhos, todos parecemos mais jovens do que somos mas todos somos mais velhos do que parecemos. O meu pai está muito velho, está muito amargo, se o pusessem agora à beira-mar, na maré baixa, seria incapaz de construir um castelo com um fosso, muralhas e torreões, seria incapaz de construir o que quer que fosse, não seria capaz de me enganar e dizer,
– ah,
numa surpresa fingida que me convencia
(onde é que estava a minha mãe?, sentada na toalha, metros acima, a olhar para nós?)
que ele não sabia que a maré ia subir e que uma onda ia destruir o castelo,
– é tarde, o sol está a pôr-se, está na altura de ir embora, amanhã tentamos outra vez.
Sim, o tempo passa, ele está velho e eu estou velho. Envelhecemos. E hoje, ao jantar, quando estou quase a chegar à idade que ele tinha quando eu nasci, e isso é estranho, isso é muito estranho, não peguei na mão da minha irmã debaixo da mesa nem olhei para o meu sobrinho à minha frente ou para a minha sobrinha à minha frente, apenas pensei,
– tenho medo,
e calei-me como todos nos calamos quando temos medo. E enrolei outro cigarro. E levantei-me da mesa e fui até ao telemóvel ver se tinhas dito alguma coisa, se tinhas sentido o meu medo, se me tinhas mandado uma mensagem a dizer,
– estou aqui, tu sabes que estou aqui, vou estar sempre aqui, ao teu lado,
mas não tinhas dito nada.
Depois ele disse, o meu pai disse,
– e tu?, quando é que vais resolver a tua vida?,
 hoje ao jantar,
– há quanto tempo não dormes?, quando é que vais resolver a tua vida?,
perguntou ele outra vez,
– há coisas que tens de perceber, e uma delas é que para cada problema há uma solução, só tens de saber como, só tens de saber como chegar ao resultado final e, para isso, às vezes, tens
– alguns problemas não têm solução, pai,
disse eu,
(houve um silêncio)
– tu sabes disso,
disse eu,
– como o problema de ser o Miguel Graça,
disse ele, o meu pai.
E eu disse,
– sim,
enquanto tu vais desaparecendo como os castelos de areia que são levados pelas ondas, incapaz de sobreviver, incapaz de me salvar.

segunda-feira, 26 de novembro de 2018

DORIAN GRAY

Olho para si e cada vez que o vejo parece que está pior. Por fora está óptimo, mas eu olho para si e vejo-o por dentro, vejo bem o que aí está, o que está aí dentro. O meu amigo parece que sofre de tristeza profunda e que todos os dias está pior, se houvesse uma doença para si ia chamar-se assim, tristeza profunda. Se um dia fosse ao médico, se um dia fosse ao hospital porque já não aguentava mais estar assim e um dia, em casa, talvez sentado no sofá depois de muitas horas quieto a olhar em frente pensasse,
– não aguento mais isto,
e no hospital lhe indicassem um médico que o visse, que olhasse para si e o auscultasse e lhe pedisse para dizer,
– ah,
enquanto abria a boca, de certeza que ia ouvir o médico dizer,
– tristeza profunda,
quando lhe transmitisse o diagnóstico, e depois talvez alguma cura milagrosa que esses charlatães – charlatães ou charlatões?, bem, também não interessa – esses curandeiros com o curso tirado à pressa, que nem distinguem uma unha encravada de um pé partido se não tiverem a especialidade certa, têm a mania de prescrever às pessoas enquanto dizem,
– um em jejum, outro depois do almoço e outro a meio do jantar, não beba, não fume e nada de café,
como se eles quisessem controlar a minha vida, como se quisessem dizer aquilo que faço ou que ainda posso fazer, sabe o que é que eu lhes digo?, sabe o que é que eu digo a esses xamãs deste tempo moderno?, digo-lhes assim,
– vá, bardamerda, senhor doutor, meta os comprimidos nu cu que eu já percebi que o senhor gosta é de supositórios,
e digo mesmo, isto não é conversa, não sou eu aqui, a esta hora, a dizer isto porque sim, não, isto é tão verdade quanto a sua tristeza profunda. Mas o meu amigo tem cara de que não vai ao médico desde que nasceu – não estou a dizer que está com mau aspecto, muito pelo contrário, o meu amigo está com óptimo aspecto – de cada vez que o vejo parece mais jovem, ou se calhar somos nós todos que estamos a envelhecer mais depressa, mas por dentro parece mais velho do que eu, por dentro parece que morreu, que já não diz nada, que já não tem nada para dizer. Ouça, vou fazer-lhe uma pergunta, posso fazer-lhe uma pergunta?, eu vou fazer-lhe uma pergunta, que idade é que acha eu tenho? Fico a olhar para si, num Domingo à noite aqui fechado quando há tanta coisa que podia estar a fazer, tanta coisa que devia estar a fazer e penso mesmo nisto, que idade é que me dá?. Olhe para mim, está a olhar?, veja bem, eu tenho setenta e dois anos, setenta e dois. Acredita nisso? Normalmente dão-me oitenta, mas já me deram noventa e cinco e até já me disseram que eu pareço uma múmia, que eu me esqueci de morrer, e sabe quem é que me disse isso?, a minha última mulher. É uma história engraçada. Sabe, as coisas nunca são aquilo que nós achamos que elas são. Às vezes uma coisa má é uma coisa boa, e às vezes uma coisa boa é uma coisa má. A minha última mulher – eu nem consigo dizer o nome dela – sabe onde a conheci?, no casino, aqui ao lado no Casino do Estoril, isto foi há muitos anos, há mais de trinta, o meu amigo na altura nem devia ter nascido, e houve uma noite em que eu fui lá, ao casino, perdido de bêbado porque ainda estava a sofrer, a sofrer mesmo, pela minha terceira mulher, que me deixou porque eu era um bêbado e andava muito nas putas, eu era assim, éramos todos assim, eram outros tempos, e ela chorava e eu dizia,
– Francisquinha, não chores,
quando chegava a casa a cheirar a putas e a whisky – ia dizer, a cona e a whisky, veja lá como eu estou – e lhe fazia uma festa na cara e dizia,
– Francisquinha, não chores, eu estou aqui,
mas mesmo assim ela foi-se embora um dia, levou os filhos com ela e deixou-me sozinho sem saber para onde ir, e houve um dia em que vim aqui, vim aqui parar, aqui mesmo onde estamos agora, eu estava sentado neste banco onde estou agora sentado, lembro-me perfeitamente, ao balcão deste bar, sem saber para onde ir, sem saber o que fazer a não ser pedir mais whisky, e acabei por ir para o casino onde perdi quinhentos contos, quinhentos contos era dinheiro na altura, ainda é, mas na altura era muito dinheiro, e eu pensei que a minha vida ia acabar nesse dia, que tudo estava perdido, que não havia mais nada a fazer a não ser pegar no carro e ir até à Boca do Inferno, na altura fazia-se muito isso, era moda, não sei, mas à saída do casino ela pegou-me no braço, vinda não sei de onde, e eu olhei para ela e percebi que estava perdido quando ela disse,
– onde é que vai?, paga-me um copo?, perdi tudo,
e voltámos para aqui, para este mesmo balcão de um bar, e bebemos um copo e um mês depois pedi-lhe em casamento. E ela disse,
– sim.
E eu fui o homem mais feliz do mundo durante muito tempo – ainda estivemos juntos vinte anos, mais de vinte anos. E, na altura, quando contava esta história às pessoas, com ela ao meu lado, dizia sempre,
– perdi quinhentos contos mas ganhei o jackpot,
sim, era isso que eu dizia,
– perdi quinhentos contos mas ganhei o jackpot.
Depois aconteceu qualquer coisa. Alguma coisa que não sei o que foi. Talvez tenha sido eu. Talvez tenha sido qualquer coisa que não compreendo. E agora olho para mim, a viver num hotel, e não há nada mais triste do que viver num hotel. Garanto-lhe isso, meu amigo, que não há nada mais triste do que acabar os dias sozinho num quarto de hotel a lembrar-me que quando ela se foi embora me disse,
– o teu problema é que te esqueceste de morrer, porque é que não pegas no carro e vais dar um passeio até à Boca do Inferno?,
e eu sem sequer saber o que é que eu tinha feito,
– era um favor que fazias a toda a gente, era um favor que me fazias,
se calhar era só existir. Ela levou o meu Alfa Romeo que eu adorava e metade do dinheiro e eu fiquei sozinho com o meu cão, velho como eu, os dois sozinhos e ela, vim a saber mais tarde, juntou-se com um desses fulanos da pândega que põem música em discotecas.
Por isso, tudo o que é bom acaba por ser mau, e tudo o que é mau, acaba por ser bom. Quando olho para trás, só penso que aqueles quinhentos contos que perdi podiam ter sido uma bênção, mas não, foram a minha maldição, percebe o que estou a dizer?. O meu amigo tem de perceber que essa tristeza profunda não o vai levar a lado nenhum, que isso é passageiro, que talvez seja até o princípio da felicidade, que se calhar tem tudo à sua frente, é jovem, é educado, sei que é um homem culto, falaram-me sobre si no outro dia, que escreve umas coisas, e como eu tenho um computador em casa fui ver aquilo que escreve. E tenho de agradecer-lhe aquilo que escreveu sobre mim, achei muito simpático, com alguma elegância, não é nenhum Eça e está longe de um Garrett, mas gostei, só lhe peço uma coisa, que não volte a escrever sobre mim, escreva sobre si, escreva sobre ela, mas não escreva sobre mim. Eu sou só um homem a quem fizeram mal a vida inteira, só isso.

segunda-feira, 19 de novembro de 2018

4

E é isso, o tempo passa. E ela agora está quase com uma barriga de seis meses porque, de repente, já se passaram quase três desde que ela me disse,
– vais ser tio outra vez,
enquanto estávamos todos em casa do David.
Eu digo-lhe,
– estás tão bonita,
quando a vejo a sair de casa, com o Pedro ao lado, a abrir-lhe a porta
e damos abraços
somos pessoas de abraços, eu não, eu não sou uma pessoa de abraços, mas ao lado deles consigo ser, consigo olhar para eles e sorrir e pensar,
– ainda bem que tudo lhes correu bem.
O David está em Braga ou em Bragança, ninguém sabe ao certo, uma cidade qualquer que começa com B, talvez Beja, a fazer teatro infantil porque precisa de ganhar dinheiro para ter dinheiro ao fim do mês. O Pedro mandou embora os locatários e fala-me entusiasmado do escritório que está a montar num dos quartos vagos,
– agora tenho um escritório,
diz ele enquanto se agarra a ela e ela se ri para ele e depois se ri para mim,
– e tu,
pergunta ela,
– como estás tu?,
e eu olho para cima, para a Lua, e digo,
– no mesmo sítio, estou no mesmo sítio.
Vamos a um bar em Lisboa, eu fui buscá-los de carro a casa, damos abraços e vamos a um bar em Lisboa, não vinha a Lisboa há não sei quanto tempo, cada vez detesto mais Lisboa e quando começo a pensar que daqui a nada vou voltar a viver aqui começo a pensar que mais vale
mas ela diz,
– parece que rejuvenesceste dez anos, olha para ti, estás óptimo,
agora toda a gente acha que estou com óptimo aspecto, ela, a minha irmã, a minha sobrinha, as amigas da minha sobrinha,
– o tio tem de sair connosco,
que são as únicas pessoas que me tratam por “tio”, porque os meus sobrinhos continuam a tratar-me por,
– Miguel,
e a achar que eu sou uma espécie de irmão mais velho, o desmiolado da família,
parece que todas se juntaram em segredo e combinaram dizer,
– estás óptimo,
num espécie de plano maquiavélico para me levarem a acreditar que estou óptimo, quando na verdade,
– sinto-me péssimo,
digo eu,
– sinto-me como nunca me senti, por dentro estou como nunca estive, já me senti um cadáver deitado numa morgue, já me senti um morto que continuava a andar pela rua, já me senti como alguém a quem o coração deixou de bater e continuava a viver a vida que todos vivemos, mas nunca me senti assim, nunca estive assim, como se me tivessem arrancado a alma e eu fosse só um corpo que vai dar aulas, que vai almoçar e ao supermercado e isso tudo, e depois chega a casa e faz o jantar e a seguir ao jantar vai beber um copo, um café e um copo, e depois volta para casa e antes de adormecer fica muito tempo a olhar em redor a pensar,
– foi isto que te aconteceu,
enquanto o passado começa a ganhar forma e eu continuo a desaparecer.
– É uma boa frase,
digo eu,
– é a única coisa que tenho,
digo eu,
– sim,
digo eu.
Estamos num bar em Lisboa, e está muita gente no bar, é uma festa. Isto foi há uns dias, estamos a pedir mais um copo de vinho, o vinho não presta mas estamos a pedir mais um, eu estou a ficar cansado, eu quero ir para casa, quero sair dali, quero ir-me embora, e enquanto estamos ali, enquanto estamos ali à espera de mais uma bebida, ela pega na minha mão e diz,
– olha para mim, já viste como estou?,
e eu olho para ela com uma barriga de quase seis meses,
– já viste como a nossa vida mudou?, achas estranho estar aqui?, achas estranho tudo ter mudado menos tu?,
diz ela,
– olha para ti,
diz ela,
– o tempo passa,
diz ela,
– quando é que vais mudar?

quinta-feira, 15 de novembro de 2018

QUARTO CRESCENTE

Acho que a última coisa que te ouvi dizer (não é verdade, mas é assim que gosto de me lembrar das coisas) foi,
– vai ficar tudo bem,
e eu olhei para ti e perguntei,
– quando?,
e já não me lembro se disseste,
– não sei,
(claro que me lembro) ou se apenas abriste a porta do carro e te foste embora, nem sequer me estavas a segurar na mão, lembrei-me agora disso, que nem sequer estavas a segurar na minha mão.
O tempo passa e as coisas continuam na mesma, ou continuam a piorar, olho para a frente para o tempo à minha frente e penso que daqui a dois ou três meses vou estar sentado a esta mesma hora, nesta mesma cadeira, como o mesmo ecrã à minha frente a escrever qualquer coisa como,
– quem me dera estar como eu estava há dois ou três meses, na altura nem sabia mas estava muito melhor do que estou agora,
mas o pior é que sei e por isso tento aproveitar os dias, tento sair à rua, falar com as pessoas, rir-me do que os outros dizem, mas acabo sempre sozinho encostado a qualquer coisa, uma parede de um prédio, um candeeiro de rua, o umbral de uma porta que dá para um jardim, enquanto acendo um cigarro, olho para cima e digo depois de te ver,
porque na verdade não digo nada, apenas fico a olhar para ti, à espera que tu fales comigo. E se calhar não dizes nada porque também estás à espera que seja eu a falar contigo. Depois acendo um cigarro, e depois, como eu não gosto de silêncios, atiro o cigarro para o meio da rua e vou para casa.
Às vezes acho que estou a perder a cabeça, que não estou bem, que há qualquer coisa de errado a crescer dentro de mim. Há bocado, por exemplo, à porta do meu prédio, olhei para os números do código de entrada e não me conseguia lembrar de nada, de nada mesmo. Era um vazio total. Nem sequer uma vaga recordação. Nem o primeiro número, nem quantos eram, e enquanto tentava sequências aleatórias que resultavam sempre num,
– bzzzzzt,
em que a porta se matinha fechada, só pensava,
– mas o que é que eu vou fazer à minha vida?, vou ficar aqui sem conseguir entrar?, será que nunca mais vou conseguir lembrar-me de como posso entrar em casa?, será que vou ficar para sempre na rua, a dormir ao relento ou sentado no carro porque pelo menos não perdi a chave do carro?,
enquanto procurava a chave do carro e a encontrava no bolso e pensava,
– pelo menos tenho a chave do carro, mesmo que não saiba onde ele está, mas não pode estar longe, é uma questão de o encontrar.
Depois pensei que se calhar estava num sonho e que nos sonhos as coisas não têm de fazer sentido, e por isso depois de vinte tentativas a carregar em números ao calhas e no enter a ouvir sempre o mesmo,
– bzzzzzt,
decidi tocar à minha porta, tocar para mim mesmo na esperança que eu estivesse em casa e me abrisse a porta, ao mesmo tempo que chegou à porta do prédio um homem que disse,
– boa noite,
e eu,
– boa noite, esqueci-me do código, veja lá que estupidez, estou aqui há uns dez minutos e não consigo entrar em casa, não me consigo lembrar mesmo, há um vazio na minha cabeça, não sei o que se passa, é como se me tivessem tirado uma parte do cérebro e estou aqui, com frio, à espera de uma solução para um problema que não sei resolver, até toquei à campainha de minha casa na esperança que esteja lá alguém, já viu que estupidez?, deve ser da noite, desta hora da noite ou do cansaço disto tudo,
– pois,
disse o homem enquanto carregava nos botões e uma voz feminina dizia,
– quem é?,
e eu,
– sou eu,
e a porta se abria ao mesmo tempo que o homem carregava no enter, e eu sem saber se eras tu que estavas em minha casa, se eu tinha tocado para o andar errado ou se o homem apenas tinha aberto a porta,
– e sabe ao menos onde vive?,
perguntou ele enquanto olhava para mim,
– sim,
disse eu,
– eu sei onde vivo.
Partilhámos o elevador em silêncio.  Ele saiu antes de mim, eu vivo no último andar, não disse nada ao sair, mesmo depois de eu ter dito,
– obrigado.
Depois abri a porta do elevador e antes de abrir a de casa pensei que talvez estivesse noutro universo, noutro universo em que me abrisses tu a porta em vez de ser eu a abri-la, e me perguntasses,
– porque é que só chegaste a esta hora, já viste que horas são?,
e tivéssemos uma discussão por causa disso.
Mas não, abri a porta e a casa estava vazia, estava escura e em silêncio, não havia nenhuma voz feminina que me perguntasse,
– quem é?,
à minha espera, e eu lembrei-me, lembrei-me de ti a dizeres,
– as coisas vão melhorar,
e eu a olhar para cima, para ti, a atirar o cigarro para a rua e a perguntar,
– quando?

quinta-feira, 8 de novembro de 2018

A NOITE PASSA ATÉ SER MANHÃ ENQUANTO TU NÃO DESAPARECES

Foi porque eu disse,
– eu amo-te,
foi só por causa disso?.
Foi esse momento em que eu olhei para ti e disse,
– eu amo-te,
e tu te assustaste e disseste,
– o quê?,
e eu,
– nada, não disse nada,
e tu,
– eu ouvi o que disseste, porque é que disseste isso?, não devias ter dito isso, devias ter ficado calado, não devias ter aberto a boca para dizer isso, não estava preparada para ouvir isso, não estava mesmo preparada para ouvir isso e agora que o ouvi gostava que não o tivesses dito.
Foi isso?
Foi aí que tudo acabou?, quando eu disse que te amava. Como se o amor fosse uma coisa má, como se amar alguém fosse uma catástrofe.
Foi isso? Porque se foi isso eu posso só gostar de ti, ou gostar muito de ti, ou adorar-te, é só uma questão de semântica.
Mas não é só isso, e eu penso,
– estou agora acordado e tu estás a dormir, somos como dois contrários que se querem encontrar, porque quem está a dormir quer acordar, e quem está acordado quer adormecer.
Eu paro. Eu paro de mentir, eu paro de escrever. Eu olho para o lado. Já não marco o tempo na parede, já me deixei disso. Há apenas uma citação de Strindberg que diz,
– Detesto a humanidade e não consigo estar sozinho. E por isso, é só isso, noites longas, pessoas más, álcool a mais, desespero. Acima de tudo, paralisia.
ao lado de um trevo de quatro folhas que me foi dado há uns anos enquanto me diziam,
– agora vais ter toda a sorte do mundo,
colados na parede. Acho que é uma forma de eu dizer a mim próprio que a sorte vai estar sempre contra mim.
Isto sou eu, a esta hora, a dizer mentiras a mim próprio. Devia ser verdadeiro, devíamos ser todos verdadeiros, como há bocado, sentado ao balcão de um bar, quando um homem com quem simpatizo mas que toda a gente detesta se virou para mim a meio de uma discussão e disse,
– o senhor que é lá dos teatros diga-nos lá se eu não tenho razão, o que é uma tragédia?
Eu estava a jogar o meu jogo no telemóvel, a minha vida agora é assim, dou aulas dois dias por semana e depois jogo o meu jogo no telemóvel e bebo demais, às vezes estou com pessoas, falo com elas, mas é raro, a maior parte das vezes apenas jogo o meu jogo no telemóvel e bebo demais. Eu paro outra vez. Pergunto-me,
– tens a certeza que queres escrever isso?,
e depois continuo,
– bem, Aristóteles,
mas o homem interrompe-me,
– quero lá saber  do Aristóteles, bardamerda para o Aristóteles, falo-lhe de tragédia e ele vem-me com o Aristóteles,
não sei que idade ele tem, dizem-me que parece mais velho do que é, talvez sessenta e tal, setenta anos. Utiliza a palavra,
– bardamerda,
quando quer mesmo ofender alguém,
– vá bardamerda,
ou
– você é um bardamerda,
são frases que este homem diz com frequência ao balcão de um bar, talvez seja por isso que ninguém gosta dele.
– Eu estou a falar da vida, da vida real,
diz ele,
– quero lá saber do Aristóteles, quero lá saber da filosofia, quero lá saber de palavras escritas num papel. O senhor sabe quantas vezes eu fui casado?,
e eu olho para ele depois de desligar o meu jogo,
– não,
digo eu,
– quatro,
diz ele,
– fui casado quatro vezes com quatro mulheres que amei e sabe o que é que elas me deram, sabe?
– não,
digo eu,
– abandono e desilusão,
diz ele,
– foi isso que elas me deram, abandono e desilusão, e por isso estou sozinho, vendi a minha casa, felizmente tenho dinheiro, o meu cão morreu e por isso vendi a minha casa, vendi a minha casa quando o meu cão morreu porque agora já não preciso de espaço, já não preciso de espaço para o meu cão correr mesmo que ele já não corresse porque estava velho como eu, estou a viver num hotel porque assim, pelo menos, não tenho de fazer a cama, nem tenho nada colado na parede, qualquer coisa que eu diga que é meu, vivo num quarto e limpam-me o quarto e dão-me o pequeno-almoço se eu acordar cedo, mas a maior parte das vezes não acordo cedo, e não há nada meu naquele quarto, sou só eu e o quarto, eu e as paredes do quarto e eu a pensar que a tragédia, caro senhor, é isto, é um homem sozinho num quarto de hotel a pensar no abandono e na desilusão, a pensar que a tragédia, a verdadeira tragédia, é dar a felicidade a quem é infeliz e depois retirarem-lhe a felicidade só porque sim, só porque lhes apeteceu, como nos meus quatro casamentos, e depois acabamos a viver num hotel, acabamos sozinhos a viver num hotel, não concorda?, não me venha com o Aristóteles, olho para si ao balcão de um bar a jogar o seu jogo no telemóvel e penso em mim deitado na cama no meu quarto de hotel com a tragédia da minha vida deitada ao meu lado, com esta ideia idiota de que podemos encontrar alguém, alguém que não nos abandone nem nos desiluda, alguém que não nos traga a felicidade para depois a retirar,
– sim,
digo eu,
– tenho de ir,
digo eu,
– boa noite,
digo eu.  

quinta-feira, 1 de novembro de 2018

ESTOCOLMO

Pelo menos está frio outra vez e pelo menos voltou a chover outra vez. Nem tudo é mau. Voltou a estar frio e voltou a chover e por isso agora em vez de me perder em explicações, quando me perguntam,
– o que é que se passa?,
ou
– o que é que tens?,
posso dizer apenas,
– nada, este tempo deita-me abaixo, é este tempo que me deixa com este ar de suicídio. Um tipo olha para cima, para as nuvens, na varanda, para a chuva a cair, num oitavo andar, e o vento e tudo cinzento, tudo cinzento-escuro para onde quer que se olhe, e tem vontade de se atirar dali para baixo ou então de ir dar um passeio ao lado da linha do comboio,
e as pessoas,
– ah, pois, comigo é a mesma coisa, que saudades do Verão,
e eu,
– sim, que saudades do Verão.
Acho que devia viver num país nórdico onde não houvesse sol, ou onde houvesse pouco sol, assim não tinha de dar explicações a ninguém, bastava dizer,
– é este tempo,
e deixava de ouvir dizer as pessoas a dizer,
– este está sempre com ar infeliz,
ou,
– a vida são dois dias.
E nem sequer tem a ver contigo, tem a ver comigo. Não me preocupa nem entristece onde estás ou com quem estás porque, seja como for, não estás aqui nem estás comigo. Preocupa-me e entristece-me onde estou e com quem estou, ou com quem não estou. Preocupa-me e entristece-me chegar a casa e pousar a carteira, a chave do carro, o tabaco e os óculos. Preocupa-me e entristece-me fazer isso, essa única rotina que me resta, a de pousar as coisas no sítio certo, para não as perder, para não perder a carteira, a chave do carro, o tabaco e os óculos, que são as únicas coisas que ainda não perdi.
Devia mudar-me para um país nórdico, com menos sol, onde eu pudesse apenas dizer,
– é o tempo,
em vez de ter de explicar que estou bem, que só quero que me deixem em paz, que só quero estar sossegado, a pensar no que quer que a minha cabeça queira pensar, um país onde eu pudesse dizer,
– este frio dá cabo de mim,
em vez de ter de explicar que te foste embora, que não vais voltar, que sinto a tua falta e que gostava que uma vez houvesse uma coisa que me corresse bem, uma coisa importante, que fizesse a diferença, que mudasse a minha vida, que fizesse com que eu chegasse a casa e pousasse a carteira, a chave do carro, o tabaco e os óculos onde calhasse, porque mesmo que os perdesse isso não faria diferença nenhuma. E por isso devia mudar-me para um país nórdico, para a Suécia, onde está sempre frio mesmo quando está calor.
Estive uma vez na Suécia, era miúdo, e acho que gostei. Lembro-me que estava frio e não parou de chover durante uma semana. E é isso, gostava de ir para a Suécia, ou para qualquer lado onde não haja sol. Se calhar lembrei-me disso porque hoje à tarde, enquanto chovia lá fora, estava deitado no sofá a ver uma série, uma série sueca, e eu deitado no sofá a ver uma série sueca não sou eu deitado no sofá a ver uma série sueca, sou eu a pensar em como é que de repente estou sozinho deitado num sofá a ver uma série sueca, sou eu a pensar na minha vida toda e em como é que tudo acabou assim, comigo a olhar para a televisão e a ver uma mulher sueca a dizer ao marido sueco,
– desculpa, já não te amo,
e ele a olhar para ela um segundo e depois a ir-se embora, a virar as costas e a ir-se embora, sem gritos, sem dor, sem argumentos, ele apenas a ir-se embora e eu a pensar,
– devia ter nascido na Suécia, devia ser sueco.
Entretanto, alguém chega e pergunta o que é que se passa comigo, que estou com ar de quem vai morrer daqui a nada,
– não,
diz outro alguém,
– é só o tempo, ele está assim por causa do tempo, tem saudades do sol,
e eu digo,
– não, tenho saudades da Lua.  

sábado, 27 de outubro de 2018

UM MAPA QUE VAI DAR A LUGAR NENHUM

– E agora? O que é que vais fazer agora? O que é que vais fazer agora?
Vejo-te a ir embora, a olhares para mim enquanto te vais embora, a olhares para trás, para mim, enquanto te vais embora, e de alguma maneira, eu tento sorrir enquanto te vejo a ir embora e na minha cabeça pergunto-me outra vez depois de desapareceres,
– E agora? O que é que vais fazer agora? O que é que vais fazer agora?,
porque eu não sei mesmo o que fazer, não sei mesmo como continuar.
Isto foi de manhã. Tu a ires embora foi de manhã. À tarde mantive-me vivo e à noite a minha irmã disse-me depois do jantar,
– não tens uma única asneira na tua última peça, reparaste?, chama-se crescer,
e é engraçado a minha irmã dizer isso porque nunca me senti velho até tu dizeres,
– és velho,
e eu para ti,
– porque é que estás a dizer isso?,
e tu para mim,
– porque és velho, desculpa dizer-te isto, mas é a verdade, és velho,
e eu sei que não sou velho, eu sei que hoje ninguém é velho aos 40 anos, mas, mesmo assim, se calhar, muita coisa mudou desde que te foste embora, porque na verdade não te foste embora hoje de manhã, na verdade foste-te embora há não sei quanto tempo, e eu apenas fingi este tempo todo que não te tinhas ido embora, ou, pelo menos, que ias voltar, e se calhar envelheci, se calhar envelheci desde que te foste embora.
Se calhar aconteceu de uma vez muita coisa que já tinha acontecido e que eu não tinha percebido que tinha acontecido, se calhar comecei a entrar no elevador e a olhar-me ao espelho e a dizer,
– estão a nascer-te demasiados cabelos brancos, como é que não tinhas reparado nisso?, já não são só dois ou três que arrancas às vezes quando à noite entras no elevador e te vês ao espelho porque não há mais nada para onde olhar. Não. Desta vez vieram mesmo para ficar. Desta vez elas chamam-te velho e vão-se embora porque estás sentado em casa, porque já te custa sair à noite, porque já não te consegues rir do que não tem piada, nem ir ter com pessoas que não conheces, nem conhecer pessoas que não queres conhecer. Desta vez só querias ser feliz, só querias ser feliz demasiado depressa porque estás farto de ser infeliz. E foi esse o teu erro, querer ser feliz demasiado depressa, tens de dar tempo ao tempo, tens de deixar que o quotidiano se instale, que as pessoas se habituem a uma determinada rotina, a uma determinada dependência. Queres tudo demasiado depressa, Miguel, e depois assustas as pessoas e elas vão-se embora, elas vão-se embora e ficas sozinho,
disse eu a mim próprio em voz alta no elevador, a olhar para o espelho, a ver os meus cabelos brancos a crescer, eu a vê-lo a crescer sem os conseguir arrancar enquanto te ouço a dizer,
– és velho.
Entro em casa, acendo a luz e
desculpa
não consigo não pensar em ti, não me lembrar de ti.
Acendo a luz e acho que não tenho de pedir desculpa por me lembrar de ti, acho que não tenho de pedir desculpa por me lembrar de ti e de mim, de me lembrar de nós. Acho que não tenho de pedir desculpa por me lembrar de ter sido feliz e de tu teres sido feliz.
Mas, pronto, que se foda, não é isso?.
Entro em casa e sento-me no sofá e vejo-te ao meu lado, e vejo os teus sinais, os sinais do teu corpo, ou o teu corpo como constelações enquanto dizes,
– escreve sobre os meus sinais, sobre os sinais do meu corpo.
E a escrever que o teu corpo é como uma galáxia cheia de constelações, ou então um mapa que eu não consigo decifrar, um mapa cheio de segredos que
enquanto a minha irmã, depois de abrir a porta olha para mim e diz,
– o que é que aconteceu?, que cara é essa?, quem é que morreu?,
e eu digo,
– eu, fui eu que morri outra vez, mas não tem mal, sabes como sou, eu morro e está tudo bem, escrevi uma peça e está tudo bem, valeu a pena, valeu a pena morrer outra vez, queria ser feliz, que estupidez, não é?, mas escrevi uma peça, que é muito melhor do que ser feliz, escrevi uma peça e descobri que sou velho, que estou a começar a ter cabelos brancos e que nunca mais me vou entregar a alguém,
– disseste-me que desta vez era a sério, que desta vez era mesmo a sério,
disse a minha irmã,
– enganei-me,
disse eu.

quinta-feira, 4 de outubro de 2018

A NOITE ESCURECE QUANDO AS ESTRELAS SE APAGAM

Meu amor,
quantos são os dias que nos separam? Há quanto tempo não te vejo, não te toco? Há quanto tempo não te dou a mão ou passeamos ao lado um do outro sem olharmos para trás? Há quanto tempo não somos felizes? Há quanto tempo não nos sentamos ao lado um do outro?, contigo a dizeres,
– Migueeeeeeeeel,
com as tuas pernas sobre as minhas enquanto te encostas no sofá e eu acendo um cigarro e olho para ti e tu dizes,
– vou adormecer,
e eu te dou a mão e um beijo e digo,
– eu estou aqui, não me vou embora, não me vou embora para lado algum.
À noite é mais difícil. Agora que deixei de beber é mais difícil. Fico acordado muitas horas, deitado na cama, sozinho, a olhar para a parede que não vejo porque a luz está apagada, a imaginar que se acender a luz tu vais materializar-te ao meu lado. De maneira que é isso que faço, acendo a luz e apago a luz à espera que apareças, à espera que numa das vezes em que a luz se acenda te veja ao meu lado, outra vez, a dizeres,
– Migueeeeeeeeel, tenho sono,
ou,
– Migueeeeeeeeel, deita-te ao meu lado.
É estranho esses dias terem desaparecido, é estranho terem sido tão poucos, e é estranho acordar de manhã e não ter nada que fazer, não ter alguém a quem eu diga,
– bom dia,
ou alguém a quem fazer o pequeno-almoço,
(nunca te fiz o pequeno-almoço)
ou apenas,
– tenho de ir dar aulas e não me apetece, não me apetece porque quero ficar aqui, ao teu lado, que se fodam as aulas, que se foda a vida, só quero ficar aqui, abraçado a ti.
Os dias passam devagar. À noite é mais difícil, principalmente quando chego a casa. Lembro-me demasiado de ti e não tenho como escapar disso, da memória, da tua imagem ali sentada, ou ali de pé, ou aqui abraçada a mim a dizer,
– tens de dançar,
e eu,
– eu não danço,
e tu a olhares para mim,
e eu,
– a não ser que seja contigo.
Estou a escrever uma peça para ti mas ainda não escrevi nada. Encomendaram-me há uns três meses um texto para teatro,
– dois actores, um homem e uma mulher, sobre o Amor, faz como quiseres, escreve o que quiseres.
Tenho pensado nisso, no Amor, tenho pensado na distância, no que nos separa uns dos outros, no que me separa de ti.
O Lobão disse às seis da tarde,
– o ensaio é às oito e meia, bebemos café aqui, antes?,
e eu,
– sim, vou precisar de um café,
(eu e o Lobão voltámos a ser amigos)
e eu ,
 vou precisar de um café, estou a beber desde as onze da manhã, estou a beber desde que acordei,
e o Lobão olha para mim e diz,
– estás todo fodido,
que é o que a Madalena me diz ao ouvido antes de começarmos o ensaio, ela diz assim,
– estás todo fodido, Mike, olha para ti, achas que isso é normal?, achas que estás bem?.
Eu paro,
eu olho em frente, para a minha catástrofe, para ti, mas mesmo assim eu digo,
– meu amor.

sexta-feira, 21 de setembro de 2018

ALL IS WELL

Ontem, por esta hora, estava a sonhar contigo. Agora estou sempre a sonhar contigo, quando me deito à noite na cama, quando adormeço à tarde no sofá, mesmo quando às vezes fecho os olhos só por dois segundos ao volante, sonho contigo. Ontem, por esta hora, estavas a dizer-me no meu sonho,
– não me fazes rir,
e eu não conseguia dizer nada – isso acontece-me nos sonhos, a maior parte das vezes fico quieto sem dizer nada, incapaz de falar, incapaz de dizer o que quero dizer, incapaz de me mexer  – apenas te via a afastares-te de mim, a andares de costas para mim, cada vez para mais longe, enquanto eu ficava quieto a ver-te ir embora, sem conseguir fazer-te rir, a tentar lembrar-me daquela anedota do surdo que era um DJ techno de sucesso porque sofria de Síndrome de Tourette.
À tarde vou comprar tabaco. Antes disso olhei para o saldo da minha conta no Multibanco e pensei,
– pelo menos ainda posso comprar tabaco, vou queixar-me de quê?,
enquanto atirava o talão para o meio da rua e uma senhora muito feia atrás de mim dizia,
– o senhor tem noção do que está a fazer?,
e eu,
– sim.
Na tabacaria compro o tabaco e olho para umas dezenas de “raspadinhas” cheias de prémios. Pergunto quanto custam e dizem-me que há uma enorme variedade, que quanto mais gastar mais posso receber,
– quero a mais cara,
o rapaz atrás do balcão dá-me a mais cara e eu pergunto porque se chamam “raspadinhas”,
– “raspadinhas”, porquê?,
pergunto eu,
– isto é quase um A4, porque é que não se chamam “raspadas” em vez de “raspadinhas”?
O rapaz atrás do balcão diz que não sabe, uma senhora alta ri-se enquanto murmura,
– raspadas ia parecer outra coisa,
e um velho de barba branca dá-me uma palmada nas costas e diz,
– estão aí um milhão de euros, meu amigo. Um milhão de euros. Já ajudava, hã?,
e eu,
– ajudava bastante,
e ele,
– é acreditar em mim, o senhor acredita em mim? Se calhar não acredita e por isso quando chegar a casa e pegar numa moeda e começar a raspar e a raspar em vez de um milhão de euros vai sair-lhe nada, zero. Mas se acreditar, se acreditar em mim,  é capaz de ganhar um milhão de euros, um milhão de euros ajudavam, não acha?, é uma questão de acreditar.
Em casa, mais tarde, ao princípio da noite, raspei a merda da “raspadinha” e nada, nem um euro. Fiquei a olhar para aquilo, como se fosse um colete salva-vidas que se afastasse de mim e pensei,
– fuck that,
(muitas vezes penso em inglês).
Vou mudar de assunto agora. Vou dizer que andamos aqui à procura de uma redenção.  Vou dizer que eu ando aqui à procura de uma redenção. Vou dizer que não sei se quero salvar-te do buraco onde estás ou se me quero salvar do buraco onde estou. Cada vez gosto menos das pessoas. Cada dia que passa tenho mais dificuldade em falar com as pessoas, em estar com elas, em falar com elas. Deixei-me disso. E estou bem assim. Desde que te tenha ao meu lado não preciso de mais ninguém.
– És um romântico,
dizes tu,
e eu,
– sabes que sim,
e tu,
– se ao menos não tivéssemos passado, se ao menos não tivéssemos passado podíamos ser felizes, podíamos estar os dois, agora, a ser felizes, a viver a vida tal como ela é, apenas no presente, apenas este momento em que eu estendo a mão para ti e tu me dás a mão, apenas este momento em que eu fecho os olhos e me inclino na tua direcção e tu me beijas.
À noite, sozinho, agora, raspo a “raspadinha” e não me sai nada. Zero.
– E eu que pensei que o velho de barba branca era Deus,
penso eu,
– e que por acaso Ele se tinha lembrado de mim.
Vou dormir. Sonho contigo. Sonho que me dizes,
– não me fazes rir,
e está tudo a correr tão mal que, realmente, não há qualquer vontade de rir.  

segunda-feira, 10 de setembro de 2018

3

– E não partiu,
digo eu a olhar para a janela porque desta vez não há nenhuma varanda,
– apenas o arrancou, atirou-o contra o chão e depois pôs-lhe um pé em cima, nada de especial, nada que não me tenham feito, nada a que eu não esteja habituado, nada que não me tivessem dito que ia acontecer. E também não é nada que eu não tenha feito, a vida é assim. Às vezes somos os verdugos outras vezes estamos no patíbulo,
– a maior parte das pessoas não vai perceber isso,
diz o Pedro,
– e achas que percebem o resto?,
pergunto eu.
Eles olham para mim. Estamos a beber vinho branco. Estamos os três sentados, há uma mesa à nossa frente, há um cinzeiro e há três copos de vinho branco.
Eu digo,
– está tudo bem, não se preocupem, não têm de se preocupar, o estranho seria o contrário, o estranho seria eu estar aqui, a olhar para vocês os dois a dizer que tudo me corre bem, que tudo é perfeito, que a minha vida é incrível, que ganhei a lotaria, que
(e calo-me, não completo a frase porque)
– e depois ia escrever sobre quê? Como é que eu ia acabar a próxima peça? Como é que ia escrever esta crónica mesmo odiando cada vez mais as crónicas?
E como ninguém se ri, como nem sequer me começo a rir como costumo fazer com as minhas própria piadas, eu digo,
– a sério, está tudo bem, está mesmo tudo bem.
O David diz,
– não precisavas de estar sozinho,
ele olha para mim e diz,
– sabes que não tinhas de estar sozinho,
e eu digo,
– não queria ver ninguém, acho que continuo sem querer ver ninguém, e isso é complicado porque começo as aulas daqui a nada, uma semana ou menos, e começo ensaios daqui a uns dias também, e realmente não quero ver ninguém, não quero falar com ninguém, e não é fácil dar aulas e não querer ver ninguém, nem é fácil começar ensaios e não querer falar com ninguém. Mas é assim, as coisas são assim, Também não vos queria ver e estou aqui, também não queria estar a dizer estas coisas e estou a dizê-las, obrigo-me a isso.
O Pedro diz,
– às vezes precisamos de estar sozinhos,
e eu digo,
– sim.
Isto foi há uns dias.
Fui ver o Manel. Cheguei duas horas depois da hora que combinámos porque
não sei
mal cheguei ela olhou para mim e disse,
– estás tão bem, estás com óptimo aspecto,
e eu a sorrir,
– a sério?, obrigado,
e ela,
– não, estava a gozar, o que é que te aconteceu?, o que é que se passa?, temos uma novidade para ti,
e eu,
– uma novidade, como assim?,
e ela a olhar para o Pedro,
e eu,
– a sério?,
e a Sofia,
– aquela crónica do Manel foi a melhor coisa que escreveste na vida.
Entretanto o Manel está à minha frente, deitado num berço a olhar para o lado. Eu pergunto-lhe,
– e então, puto, que estás a achar deste mundo?,
e ele começa logo a chorar,
– isto são cólicas,
diz o David,
e eu digo apenas,
– pois,
porque não quero falar da merda à frente de uma criança que nem 15 dias tem. É estranho. Quero pegar nele mas sei que se pegar nele vou começar a chorar. E por isso não pego nele e volto para a sala e começo a dizer que precisamos de ir fumar um cigarro, que precisamos de ir os três para outro lado e deixá-las a falar de coisas, de coisas que lhes dizem respeito, que só dizem respeito às mulheres.
E vamos.
Mas ela, que tem 21 anos, quando estamos quase a ir, pega na minha mão e diz,
– vai ficar tudo bem.

domingo, 2 de setembro de 2018

BULLETPROOF

Não me lembro do dia em que perdi tudo, a alegria, a vontade de viver. Não foi um dia, não deve ter sido um dia, mas um conjunto de coisas que aconteceram e que foram acontecendo, ou talvez um conjunto de ideias que se foram formando na minha cabeça e que ou aconteceram ou não aconteceram. Seja como for, a partir do momento em que perdi toda a alegria e a vontade de viver, quando passei a achar que o meu objectivo para o dia a seguir era apenas acordar, estranhamente, passei a dormir bem, a viver bem, a comer bem, a falar bem com as pessoas e a fazer planos que conseguia concretizar, uma peça daqui a um ano, uma viagem daqui a seis meses. Se calhar as coisas são mais fáceis quando apenas lidamos com a infelicidade, quando aceitamos que vamos estar assim o resto da vida, sem ninguém que nos pergunte,
– então, como correu o teu dia?,
ou que adormeça ao nosso lado no sofá porque ambos estamos cansados. Se calhar tudo é melhor quando não esperamos o que quer que seja, quando a expectativa é a de conseguir adormecer e de conseguir acordar.
Porque quando as coisas mudam, quando tudo isso muda, quando,
– sei lá,
digo eu ao balcão de um bar,
– não sei, apenas aconteceu, tenho de explicar o quê?, o que é que há para explicar?, as coisas acontecem, as coisas são assim, porque é que tenho de as explicar?, não há como as explicar, elas apenas acontecem e eu sou assim, não sou capaz de ser de outra maneira, ou não sinto nada ou sinto tudo, e eu agora estou a sentir tudo e não é fácil sentir tudo, e não é fácil sentir tudo e sentir que estás a fugir de mim,
digo eu. Depois olho para o lado, para ti, e lembro-me que já te foste embora, que estou sozinho, que não há ninguém ao meu lado.
E é isso. As pessoas dizem para eu ir ter com os meus amigos,
– vai ter com os teus amigos,
mas eu não gosto de falar e já sei o que eles vão dizer, e não quero voltar para casa e encontrá-la tão vazia como a deixei. Prefiro ficar em casa e por isso fico em casa. Fico em casa sem saber o que devo fazer e por isso faço só faço aquilo que sei fazer, mas a dobrar, a triplicar e por isso às vezes tenho medo, tenho medo já não conseguir ser infeliz, de já nem sequer conseguir ser infeliz.
Mas os amigos preocupam-se e à tarde a Madalena telefonou-me, ela disse,
– às vezes acho que as pessoas te tratam como se fosses à prova de bala e tu não és à prova de bala,
e talvez por isso à noite, quando me viu, a minha irmã se agarrou a mim e disse,
– o que é que aconteceu?,
enquanto me abraça e me dá um beijo na testa,
– o que é que aconteceu?,
diz ela,
e como eu não quero começar a chorar, como eu não quero começar a chorar à frente dos meus sobrinhos, como eu já sou um homem crescido e não quero começar a chorar à frente da minha sobrinha nem à frente do meu sobrinho, apenas fecho os olhos e digo,
– nada,
mesmo que dentro dos olhos fechados só te veja a ti.  

terça-feira, 28 de agosto de 2018

QUINTO ANDAR, DIREITO

Só houve duas vezes na minha vida em que me ajoelhei e pedi ajuda a Deus. Em nenhuma delas Ele me respondeu, em nenhuma delas me senti preenchido, reconfortado, cheio de qualquer coisa, se calhar em ambas me senti ainda mais vazio do que me sentia, mas só numa delas, que é agora, isto, no dia a seguir, Lhe escrevi o nome com maiúscula.
É engraçado porque eu estou a olhar para cima e tu estás a olhar para baixo. Já passa da meia-noite e eu não te consigo ver, há um candeeiro que te ofusca, vejo só uma silhueta, pouco mais do que isso. Estamos a cinco andares de distância, eu cá em baixo e tu lá em cima, eu pergunto-te se me consegues ver e tu responde ao telefone,
– sabes que eu sem lentes não consigo ver nada.
E eu fico a olhar para cima, os olhos postos em ti, sem saber se isto é uma metáfora, uma piada ou apenas qualquer coisa que vivemos há muitos anos, numa outra vida, quando pessoas como eu se punham a olhar para cima para pessoas como tu, e elas, as pessoas como tu, diziam,
– escreve,
e eles, as pessoas como eu, iam para casa e escreviam sobre elas, e escreviam sobre o amor.
Se calhar não mudou muita coisa, se calhar continua tudo na mesma,
– se calhar a história do mundo são só duas pessoas apaixonadas, é só um grande amor,
penso eu enquanto olho para cima, para ti, e pergunto-te ao telefone,
– no que é que estás a pensar?,
e tu dizes,
– não sei, estou a pensar em ti, estou a pensar em mim, estou a pensar em nós os dois. Estou a pensar em tudo o que passou, estou a pensar em ti aí em baixo e em mim aqui em cima, achas que é uma coincidência?, achas que já vivemos isso?  Disseste-me isso uma vez. Não acreditei em ti. Disseste que achavas que já me conhecias, que me conhecias de outra vida, disseste que achavas que o meu nome não é o meu nome, que eu tinha outro nome, já te lembraste disso?, já te lembraste desse nome?, já te lembraste de mim? Não sei. É difícil acreditar em ti. Percebes que é difícil acreditar em ti? Percebes que me sinto vazia, que a minha vida até agora não foi fácil, que a maior parte das vezes quero morrer? Percebes isso? Não sei. Não sei se tenho mais medo que fiques ou que vás embora. Porque não sei. Eu quero que fiques, eu quero mesmo que fiques. Mas também quero que vás embora, quero mesmo. Desculpa. Isto não é justo. Não é justo para ti, não é justo para mim. Isto só não é justo. Vivemos e vivemos  e parece que fazemos tudo mal, que tudo nos sai ao contrário, e estou aqui, a falar contigo, e nem sequer posso descer, nem sequer posso ir ter contigo e dizer-te estas coisas, e eu não acho que isso seja justo, nem para ti nem para mim, não acho que seja justo eu estar a dizer estas coisas e eu estar aqui e tu estares aí e não podermos estar os dois, não podermos estar os dois como devíamos estar, porque eu não quero falar disto a cinco andares de distância, eu não quero dizer estas coisas sem conseguir ver-te, pareces uma mancha que se confunde com o asfalto, não quero isso. Quero-te ao meu lado, não sei, desculpa, talvez não te queira ao meu lado. Só não te quero a esta distância, só não te quero tão longe.
Depois ela calou-se. Eu não disse nada. Ela disse,
– estás a ouvir-me?, ainda estás a ouvir-me?,
e eu disse,
– sim, estou aqui.
Depois ela disse que eu devia ir para casa, que falávamos depois. Eu disse que devia começar a cantar, ao menos gritar o nome dela, mas ela disse que não, que não podia fazer isso e por isso não cantei nem gritei o nome dela.
E eu fui para casa.
Antes de me deitar, ao espelho, olho para mim e acho que estou gordo, acho que estou velho. Olho para o espelho e olho para mim. Penso no que me pode salvar. Penso em Deus a intervir na minha vida, penso no disparate que isso é, na mentira, no porquê?, mas,
mesmo assim
ajoelho-me
e digo
– tem misericórdia de mim,
enquanto olho para cima,
são só cinco andares.

quarta-feira, 22 de agosto de 2018

ELE

– Eu disse-te que estavas a sonhar, anormal de merda, estavas à espera de quê?,
diz o António, que é um gato.
Eu não tenho muito mais a fazer que não seja olhar para o António, que é um gato, e ouvi-lo dizer,
– eu disse-te para acordares, não acreditaste em mim porquê?, porque sou um gato?, olha para ti, não percebeste o quê, o que um mongolóide tinha percebido em dois minutos?, eu quando olhei para ela percebi logo que havia qualquer coisa que não estava bem, que havia qualquer coisa que estava mal, hahaha, até perguntei se ela era cega para estar com um trambolho como tu, não foi?, o que é que disse?,
e eu a lembrar-me do António, que é um gato, a dizer,
– desculpa, invisual,
enquanto ela lhe fazia festas na barriga e dizia,
– que lindo,
no dia em que foi lá a casa, e eu,
– o quê?
e o António, que é um gato, enquanto ela lhe fazia festas na barriga,
– foda-se, ela é um avião, o que é que está a fazer com um cabeça de caralho como tu?, ui, faz isso, baby,
e ela para mim,
– o quê, o quê?,
e eu,
– nada,
enquanto dava um pontapé no António, que é um gato, e dizia,
– ele tem pulgas,
e o António, que é um gato, fugia para a cozinha e dizia,
– vai-te foder, paneleiro, logo à noite arranco-te os olhos a meio do sono,
e eu,
– nem sequer tens unhas!,
e ela,
– estou a tentar parar de roê-las, porque é que estás a ser assim?,
e eu,
– desculpa.
Isto foi há uma semana.
Uma semana pode ser muito tempo.
A minha irmã foi para Tróia e por isso eu fiquei uma semana em casa dela, a tomar conta do António, que é um gato, que por alguma razão, não sei quando, começou a falar. Ele começou a falar e eu nem me dei ao trabalho de tentar perceber porque é que isso aconteceu, porque é que um gato começou a falar comigo enquanto a minha irmã decidiu ir para Tróia,
– se calhar é porque tens tanta sede,
diz o António, que é um gato, deitado na mesa à minha frente,
– vais morrer de sede, tu?,
e eu,
– não tens nada para fazer?, acho que vi um rato a passear na varanda, deixei a janela aberta,
e o António que é um gato,
– já dormi, já comi e já caguei, quando é que me vais limpar a merda da areia?, deixei-te lá uma poia, pode ser que te faça lembrar de alguma coisa, não sei se estás a perceber do que eu estou a falar,
e eu a estender o indicador em frente do focinho dele,
– tu tem cuidado,
digo eu,
– é bom que tenhas cuidado e que mordas a língua, outra dessas, faço-te em cabidela e dou-te ao cão do vizinho,
e o António, que é um gato, a levantar-se na mesa, a passear na mesa, a olhar para a mim e a rir-se na mesa,
– não serves para nada, nem para dar sangue.
Isto foi ontem.
Um dia pode ser muito tempo.
Hoje, quando cheguei a casa da minha irmã, o António, que é um gato, disse quando abri a porta e olhou para mim,
– o que é que se passa, palhaço?, estás com pior aspecto do que é costume,
e eu,
– há dias assim, António, há dias em que tudo nos sai ao contrário, em que nada faz sentido, há dias em que não nos sobra nada, há dias em que mesmo quando chegamos a casa nos sentimos tão sozinhos que quase parecemos ter enlouquecido,
isto foi agora mesmo, na minha varanda, ainda com a chave de casa na mão, a olhar para ela,
– devo ter deixado a porta aberta,
penso,
enquanto tu dormes, o sol se ergue e o António diz ao lado da minha irmã que não está em Tróia,
– desta vez fodeste tudo, fodeste mesmo tudo, estás satisfeito?, 
e eu,
– não sei, acho que estou a enlouquecer,
e o António, 
– porque é que achas que estás a falar com um gato?