segunda-feira, 26 de novembro de 2018

DORIAN GRAY

Olho para si e cada vez que o vejo parece que está pior. Por fora está óptimo, mas eu olho para si e vejo-o por dentro, vejo bem o que aí está, o que está aí dentro. O meu amigo parece que sofre de tristeza profunda e que todos os dias está pior, se houvesse uma doença para si ia chamar-se assim, tristeza profunda. Se um dia fosse ao médico, se um dia fosse ao hospital porque já não aguentava mais estar assim e um dia, em casa, talvez sentado no sofá depois de muitas horas quieto a olhar em frente pensasse,
– não aguento mais isto,
e no hospital lhe indicassem um médico que o visse, que olhasse para si e o auscultasse e lhe pedisse para dizer,
– ah,
enquanto abria a boca, de certeza que ia ouvir o médico dizer,
– tristeza profunda,
quando lhe transmitisse o diagnóstico, e depois talvez alguma cura milagrosa que esses charlatães – charlatães ou charlatões?, bem, também não interessa – esses curandeiros com o curso tirado à pressa, que nem distinguem uma unha encravada de um pé partido se não tiverem a especialidade certa, têm a mania de prescrever às pessoas enquanto dizem,
– um em jejum, outro depois do almoço e outro a meio do jantar, não beba, não fume e nada de café,
como se eles quisessem controlar a minha vida, como se quisessem dizer aquilo que faço ou que ainda posso fazer, sabe o que é que eu lhes digo?, sabe o que é que eu digo a esses xamãs deste tempo moderno?, digo-lhes assim,
– vá, bardamerda, senhor doutor, meta os comprimidos nu cu que eu já percebi que o senhor gosta é de supositórios,
e digo mesmo, isto não é conversa, não sou eu aqui, a esta hora, a dizer isto porque sim, não, isto é tão verdade quanto a sua tristeza profunda. Mas o meu amigo tem cara de que não vai ao médico desde que nasceu – não estou a dizer que está com mau aspecto, muito pelo contrário, o meu amigo está com óptimo aspecto – de cada vez que o vejo parece mais jovem, ou se calhar somos nós todos que estamos a envelhecer mais depressa, mas por dentro parece mais velho do que eu, por dentro parece que morreu, que já não diz nada, que já não tem nada para dizer. Ouça, vou fazer-lhe uma pergunta, posso fazer-lhe uma pergunta?, eu vou fazer-lhe uma pergunta, que idade é que acha eu tenho? Fico a olhar para si, num Domingo à noite aqui fechado quando há tanta coisa que podia estar a fazer, tanta coisa que devia estar a fazer e penso mesmo nisto, que idade é que me dá?. Olhe para mim, está a olhar?, veja bem, eu tenho setenta e dois anos, setenta e dois. Acredita nisso? Normalmente dão-me oitenta, mas já me deram noventa e cinco e até já me disseram que eu pareço uma múmia, que eu me esqueci de morrer, e sabe quem é que me disse isso?, a minha última mulher. É uma história engraçada. Sabe, as coisas nunca são aquilo que nós achamos que elas são. Às vezes uma coisa má é uma coisa boa, e às vezes uma coisa boa é uma coisa má. A minha última mulher – eu nem consigo dizer o nome dela – sabe onde a conheci?, no casino, aqui ao lado no Casino do Estoril, isto foi há muitos anos, há mais de trinta, o meu amigo na altura nem devia ter nascido, e houve uma noite em que eu fui lá, ao casino, perdido de bêbado porque ainda estava a sofrer, a sofrer mesmo, pela minha terceira mulher, que me deixou porque eu era um bêbado e andava muito nas putas, eu era assim, éramos todos assim, eram outros tempos, e ela chorava e eu dizia,
– Francisquinha, não chores,
quando chegava a casa a cheirar a putas e a whisky – ia dizer, a cona e a whisky, veja lá como eu estou – e lhe fazia uma festa na cara e dizia,
– Francisquinha, não chores, eu estou aqui,
mas mesmo assim ela foi-se embora um dia, levou os filhos com ela e deixou-me sozinho sem saber para onde ir, e houve um dia em que vim aqui, vim aqui parar, aqui mesmo onde estamos agora, eu estava sentado neste banco onde estou agora sentado, lembro-me perfeitamente, ao balcão deste bar, sem saber para onde ir, sem saber o que fazer a não ser pedir mais whisky, e acabei por ir para o casino onde perdi quinhentos contos, quinhentos contos era dinheiro na altura, ainda é, mas na altura era muito dinheiro, e eu pensei que a minha vida ia acabar nesse dia, que tudo estava perdido, que não havia mais nada a fazer a não ser pegar no carro e ir até à Boca do Inferno, na altura fazia-se muito isso, era moda, não sei, mas à saída do casino ela pegou-me no braço, vinda não sei de onde, e eu olhei para ela e percebi que estava perdido quando ela disse,
– onde é que vai?, paga-me um copo?, perdi tudo,
e voltámos para aqui, para este mesmo balcão de um bar, e bebemos um copo e um mês depois pedi-lhe em casamento. E ela disse,
– sim.
E eu fui o homem mais feliz do mundo durante muito tempo – ainda estivemos juntos vinte anos, mais de vinte anos. E, na altura, quando contava esta história às pessoas, com ela ao meu lado, dizia sempre,
– perdi quinhentos contos mas ganhei o jackpot,
sim, era isso que eu dizia,
– perdi quinhentos contos mas ganhei o jackpot.
Depois aconteceu qualquer coisa. Alguma coisa que não sei o que foi. Talvez tenha sido eu. Talvez tenha sido qualquer coisa que não compreendo. E agora olho para mim, a viver num hotel, e não há nada mais triste do que viver num hotel. Garanto-lhe isso, meu amigo, que não há nada mais triste do que acabar os dias sozinho num quarto de hotel a lembrar-me que quando ela se foi embora me disse,
– o teu problema é que te esqueceste de morrer, porque é que não pegas no carro e vais dar um passeio até à Boca do Inferno?,
e eu sem sequer saber o que é que eu tinha feito,
– era um favor que fazias a toda a gente, era um favor que me fazias,
se calhar era só existir. Ela levou o meu Alfa Romeo que eu adorava e metade do dinheiro e eu fiquei sozinho com o meu cão, velho como eu, os dois sozinhos e ela, vim a saber mais tarde, juntou-se com um desses fulanos da pândega que põem música em discotecas.
Por isso, tudo o que é bom acaba por ser mau, e tudo o que é mau, acaba por ser bom. Quando olho para trás, só penso que aqueles quinhentos contos que perdi podiam ter sido uma bênção, mas não, foram a minha maldição, percebe o que estou a dizer?. O meu amigo tem de perceber que essa tristeza profunda não o vai levar a lado nenhum, que isso é passageiro, que talvez seja até o princípio da felicidade, que se calhar tem tudo à sua frente, é jovem, é educado, sei que é um homem culto, falaram-me sobre si no outro dia, que escreve umas coisas, e como eu tenho um computador em casa fui ver aquilo que escreve. E tenho de agradecer-lhe aquilo que escreveu sobre mim, achei muito simpático, com alguma elegância, não é nenhum Eça e está longe de um Garrett, mas gostei, só lhe peço uma coisa, que não volte a escrever sobre mim, escreva sobre si, escreva sobre ela, mas não escreva sobre mim. Eu sou só um homem a quem fizeram mal a vida inteira, só isso.

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