sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

FIM

Queria falar contigo agora, dizer-te qualquer coisa, queria que me ouvisses, que ouvisses o que tenho a dizer. Não queria mandar-te uma mensagem nem telefonar-te e por isso não te vou mandar uma mensagem nem te vou telefonar. Queria apenas estar contigo, à tua frente, a olhar para os teus olhos, e dizer,
– não sei o que hei-de dizer, acho que já disse tudo, e como acho que já disse tudo, se calhar o melhor é mesmo calar-me. Parece que disse sempre as coisas erradas, que o que eu disse nunca foi o que eu quis dizer ou que eu disse uma coisa e tu percebeste outra, acho que isso foi o pior, ou ainda é o pior, porque, de certa maneira, isso ainda continua, eu a dizer-te A e tu a perceberes B, eu a falar de amor e tu a falares de ódio, eu a falar no futuro e tu a falares no passado, eu a dizer, olá, e tu a dizeres, adeus.
E era isso que eu te queria dizer, e se estivesses aqui à minha frente, comigo a olhar para os teus olhos ficaria tudo igual. Mas queria dizer-te isto porque
não sei
há sempre aquela esperança, aquela estúpida esperança de que tudo vai correr bem, quando nada vai correr bem, porque se não correu bem até aqui, por que raio de razão é que haveria de correr daqui para a frente?
Mas a vida é assim, e, seja como for, continua, continua a continuar, a vida continua a continuar e nós continuamos também, mesmo que a dizer cada vez menos coisas, mesmo que até as deixemos de dizer.
E a minha vida, neste momento
não sei
acho que depois de tudo o que aconteceu não me posso queixar.
Os meus amigos, que povoaram estes textos nos últimos anos estão bem, acho que muitos deles até estão melhor agora do que estavam, por isso não acho que alguém me vá culpar de nada.
E é isso.
Cada vez mais passo os dias em silêncio. E acho que está bem assim, acho que é isso que deve ser, como se tivesse duas vidas, numa dou aulas e de duas em duas horas não paro de falar, e depois começa a outra vida, a que eu vivo, a vida real, onde estou calado porque não tenho mesmo nada para dizer. E é isso. Toda a gente está bem, ou pelo menos toda a gente está melhor do que estava, ninguém se magoou, ninguém morreu.
E é isso, mas não é bem assim.
A verdade é que tudo isto só me trouxe desconforto, isto, a escrita, escrever.
E podia dizer muita coisa, mas não quero dizer mais nada, quero apenas acabar.
E é assim que acaba, comigo, aos 41 anos, sem ti, calado.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

FAR FROM ME

– Tens escrito?,
pergunta ela, e ela sabe que não, ela sabe que eu não tenho escrito, que eu não escrevo, que eu já nem sequer tento, que até desisti disto, disto, das crónicas, que nem sequer é escrever, mas que já nem isto consigo escrever, que o meu vazio é tão grande que já nem sequer o tento preencher com palavras
(como fiz, como tentei fazer para não te ires embora)
que já me deixei disso, que desisti de escrever como quem desiste de cozinhar porque a mesa está sempre vazia, mas mesmo assim ela pergunta,
– tens escrito?,
como quem faz apenas uma pergunta casual, como se ela não soubesse o porquê,
– nada,
digo eu,
– mesmo nada,
digo eu.
Ela olha para mim e depois desvia o olhar, talvez esteja a olhar para o quadro à frente dela, uma mulher nua de costas, ou talvez esteja apenas a olhar para outra coisa qualquer, para o papel de parede, que é vermelho, ou então para algum rapaz noutra mesa ou para o barman, não sei, ela olha para outra coisa qualquer que não sou eu e diz,
– o que é que te falta?,
sempre sem olhar para mim.
Eu digo,
– provavelmente, tu,
e ela diz enquanto se ri,
– estou farta de ser a má da fita.
E eu não me ri, eu nem sequer sorri, também já me deixei disso. Acho que às vezes temos de deixar as coisas para trás, como rir, sorrir ou escrever, acho que às vezes temos de nos deixar de certos hábitos, de deixar de acreditar neles para conseguir não fingir, para conseguir continuar a viver num mundo em que me dizes,
– estou farta de ser a má da fita,
quando eu nunca fui o herói.
No outro dia, ao balcão de um bar, contaram-me uma história, no princípio não estava muito interessado em ouvi-la, normalmente apenas não estou interessado no que os outros têm para me dizer e descarto-os com um,
– sim, amigo, já me contou isso,
ou,
– eu lamento muito , mas tenho mesmo de me ir embora,
mas esta história era antiga e passava-se noutro continente e por isso em vez de dizer,
– o que é isto?, estou a ouvir qualquer coisa, não está a ouvir qualquer coisa?, é lá fora, parece um gatinho, aflito, a miar, tenho de ir ver o que se passa,
calei-me e deixei que o homem, o cavalheiro – digo “cavalheiro” porque me parecia um cavalheiro, bem posto, educado –  me contasse a história do sogro que, em África, numa antiga colónia, depois de dois anos casado e de ter tido a primeira filha decidiu ir apresentar a esposa e a neta ao pai que vivia a 700 km de distância, para um mês depois, de carroça, chegar à porta de casa do pai e descobrir que ele tinha morrido no dia anterior.
De certa maneira lembrei-me de ti.
Depois tu disseste,
– és uma anedota
– és igual a todos os homens
– és um fraco
– e eu a pensar que eras diferente
– como é que foste capaz?
– tenho nojo de ti
– esquece-me
– a fazeres-te de coitadinho
– não quero saber
– agora és um príncipe encantado?
– que lindo
– mas que bem
– devia era nem ter dito nada
e eu olho para ti, não estou a olhar para o quadro à minha frente, nem para o papel de parede que nem sei de que cor é, não sei a cor do papel de parede nem se o bar está cheio ou vazio, não sei quem está sentado ao nosso lado ou quem serve as bebidas à mesa, sei que tu estás à minha frente e que estás cada vez mais longe de mim.
 Eu digo,
– talvez isso já  tenha sido verdade, talvez eu já tenha sido isso tudo, talvez até eu mereça o que me está acontecer, o que me estás a fazer,
mas,
– pela primeira vez,
disse eu,
– eu não sou o mau da fita,
e depois ainda a olhar para ti,
– e tu não acreditas em mim, por isso, por muito que me custe, por muito que me doa, por muito que não consiga, vou voltar a escrever só para ver se pelo menos acreditas em mim,
– está bem, Miguel,
disseste tu enquanto adormecias.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

THE MOST BEAUTIFUL WOMAN IN TOWN

– Estás bem?,
pergunta ela,
e mesmo sabendo a resposta continua a perguntar,
– estás bem?,
às vezes todos os dias, às vezes de dois em dois, às vezes uma vez por semana.
Não sei por que razão ela faz isso, ela continua a fazer isso, a perguntar-me,
– estás bem?,
como se não soubesse a resposta ou como se tivesse a esperança que eu dissesse,
– eu?, nem imaginas, tenho estado como ninguém, os dias passam com a leveza de uma folha que cai do topo de uma árvore, todo eu sou harmonia, todo eu flutuo pelo ar que são os dias e repouso no chão que é a existência, sou todo eu a quintessência da humanidade, quando acordo, quando me deito e quando o tempo passa entre essas duas fronteiras, que são os limites entre a realidade e o sonho, toda uma perfeição, todo um nirvana que eu abraço desde o primeiro ao último momento.
Mas eu não digo isso. Eu olho para ti, mesmo sem olhar, e digo,
– estou como estou,
e tu dizes,
– está bem, Miguel.
E depois vais dormir, às vezes dizes,
– adeus,
outras vezes apenas dizes,
– está bem, Miguel,
e vais dormir sem dizer mais nada.
Quando olho para trás, para tudo o que eu fiz, para tudo o que eu fiz às outras pessoas, às vezes acho que mereço isto, que mereço o que está a acontecer, que és apenas um instrumento divino para me castigar, uma hybris ou um pathos ou uma hamartia ou qualquer coisa grega que ainda me dê uma hipótese de redenção. Não sei. Olho para isto tudo, para tudo à minha volta e houve muita gente que me disse isso, quando eu contava histórias, quando eu dizia,
 
nem sei o que dizia, era apenas triste, o que eu dizia era apenas triste, e as pessoas mais próximas riam-se e abanavam a cabeça e olhavam para mim com um sorriso e diziam,
– ainda hás-de morder essas palavras,
ou
– um dia vais encontrar alguém que te vai fazer o mesmo, e tu vais ficar como estás agora, vais ficar assim, sem saber o que fazer porque não há nada a fazer, e ela vai rir-se de ti e vai perguntar se estás bem só porque tem pena de ti, só porque de vez em quando se lembra, com alguns poucos problemas de consciência, que talvez seja, em parte, responsável por estares assim.
O tempo passa. As coisas acabam por acontecer.
Daqui a exactamente 20 dias vou deixar esta casa e vou passar a viver com o meu pai. As coisas mudam, às vezes sabemos quando elas vão acontecer, outras vezes ficamos à espera que elas aconteçam, e outras vezes elas nunca acontecem. E é isso. A maior parte das vezes as coisas não acontecem, somos só nós, sozinhos, a tentar qualquer coisa que não sejas tu a dizer,
– estás bem?,
quando está tudo ao contrário, quando nada pode estar bem, quando a única resposta é, como o Bukowsky,
– estás a provocar-me uma tristeza enorme,
que mesmo assim não diz metade, não diz menos de metade do que sinto.
E é isso.
Talvez sejas a mulher mais bonita da cidade, mas talvez sejas também a mais cruel.



sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

THE LAST MAN ON EARTH

Na morte dos outros vemos a nossa própria morte, não é a nossa morte individual, não somos nós fechados num caixão ou a empurrarem-nos para o fogo enquanto as pessoas, os vivos, se afastam e voltam para casa e continuam com a vida, não, na morte dos outros vemos a nossa própria morte, a nossa mortalidade, a perda de toda a dignidade quando se deixa de respirar, quando a cabeça cai para o lado e deixamos de existir, e depois, nós, os vivos, começamos a pensar no ridículo disto tudo, no absurdo disto tudo, no quanto sofremos, no quanto nos transformamos, no quanto perdemos, no quanto deixamos de ser, na quantidade de vezes que nos dizem,
– vai correr tudo bem,
quando sabemos que isso é mentira.
Na morte dos outros vemos também amigos que não víamos há muito tempo, há demasiado tempo porque são nossos amigos. E eles estão lá, na morte, mesmo que já não estejam na vida.
Quando somos novos, tudo é hoje e agora, e todos os dias há qualquer coisa para fazer,
– onde é que vamos hoje?,
ou,
– vamos beber um café?,
depois o tempo começa a passar e a rotina de todos os dias transforma-se na rotina do fim-de-semana, e depois sem se saber muito bem como passa-se para um encontro uma vez por mês, e depois vêm os jantares, de Natal ou de aniversário, e depois, de repente, encontramo-nos nos funerais, vemo-nos nos funerais e combinamos voltar a encontrar-nos todos os dias, ou pelo menos todos os aniversários, mesmo sabendo que isso é mentira, porque muita coisa aconteceu, porque a vida aconteceu.
Na consoada, perto da meia-noite, estou com a minha tia na cozinha, os dois de pé. Ela é irmã do meu pai e em tempos, quando eu era ainda criança tomou conta de mim em muitas ocasiões. Hoje estamos os dois a fumar cigarros na cozinha porque o cancro está na sala e não queremos alimentá-lo. E eu não lhe digo nada, e ela não sabe de nada, mas mesmo assim ela diz-me,
– sabes, filho, a vida é muita injusta, é mesmo muito injusta, as coisas acontecem e não há nada que possamos fazer. As coisas são muito injustas, a vida é muito injusta. As pessoas são más, as pessoas são muito más, fazemos coisas uns aos outros que não devíamos fazer. Tu sabes. A tia já te disse, é mesmo assim, há pessoas que não conseguem amar e há outras que não conseguem ser amadas, e depois há pessoas que não sabem amar nem ser amadas, e é só isso,
e eu,
– eu sei,
e ela,
– pelo menos voltaste a escrever, estás a escrever agora, já não escreves há quanto tempo?, disseste que não ias voltar a escrever, mas afinal estás a escrever, vês?, e agora vais começar do zero e isso é bom, é bom para ti,
– é?,
perguntei eu,
– a tia acha que sim, que isto tudo vai ser bom para ti, que tudo se há-de compor, é como se dizia no meu tempo,
– não há mal que não dê em fartura,
e rimo-nos.
Depois o Natal acabou. Abrimos os presentes, e depois fomos para casa porque ninguém tinha muita vontade de falar.
O tempo passou.
Pouco antes do final do ano telefonei ao Pedro, ao David e à Madalena para lhes dizer que gostava deles e que esperava que 2019 lhes corresse bem, só disse a segunda parte.
À meia-noite, enquanto o fogo-de-artifício reflecte na janela, eu digo,
– espero que as coisas melhorem,
e a minha irmã diz,
– tu bem mereces isso, Mike,
e
não sei
às vezes sinto-me tão distante de mim próprio que parece que só me vou encontrar no meu funeral.



quarta-feira, 19 de dezembro de 2018

5

– E nunca mais escreveste nada,
diz ela enquanto eu ponho a mesa, enquanto eu dobro os guardanapos e ponho os talheres e os pratos na mesa,
– parece que desapareces quando deixas de escrever, que és uma sombra que ninguém sabe onde está, parece que não existes quando não escreves, que és apenas alguém que ninguém sabe bem o que lhe aconteceu, ou apenas o teu nome, o teu nome como ela costumava dizer, como é que era?.
e eu,
– não me lembro,
e ela,
– Migueeeeeel, era assim?, era assim que ela dizia?, era assim que ela olhava para ti, que ela te chamava?, era assim que a vias?, como alguém que chamava por ti?,
e eu enquanto dobro os guardanapos,
– estou farto disto, estou mesmo farto disto tudo, de tudo o que acontece, estou farto de escrever a minha vida antes que ela aconteça, estou farto de ampliar as coisas e depois vivê-las, estou farto de ser quem eu sou, estou farto desta personagem, que está muito pior e muito mais infeliz do que eu mas que vou ser eu daqui a um mês ou dois, ou um ano, só sei que depois o tempo passa e afinal estou exactamente onde me escrevi.
Eu olho para ela. Eu digo,
– vida de merda, ainda bem que vocês existem porque se vocês não existissem, não sei, porque é que as coisas têm de ser assim?, sempre a mesma coisa, sempre a mesma desilusão, sempre as mesmas coisas a acontecerem umas atrás das outras, eu não aprendo, não aprendo mesmo, não aprendo nada,
e ela depois de eu me calar,
e eu,
– hã?
e ela,
 – somos eu, tu, o Pedro e a tua mãe, porque é que estás a pôr cinco pratos?
E depois almoçamos, apenas os quatro. A minha mãe olha para ela e imagina o dia em que sou eu e não o Pedro a vir almoçar com uma mulher grávida de seis meses. E olho para o Pedro e penso no David e na Madalena, nos últimos amigos que tenho no mundo, e todos eles estão bem, todos eles estão
eu calo-me
eu digo em voz alta enquanto levanto o copo de vinho,
– um brinde ao amor,
e todos levantam o copo e todos sorriem e depois vamos ao teatro, eu traduzi a peça,  e na bilheteira dizem-me,
– cinco bilhetes, cinco convites,
e eu,
– não,
e eu outra vez,
– não,
e a tua voz na minha cabeça,
– Migueeeeeel.
E é isso. Às vezes penso em ti, às vezes, baralho-me e ponho um prato na mesa que não é para ti, ou então peço um bilhete que não é para ti porque tu estás noutro lado que não é aqui, agora, noutro lado qualquer que não é aqui.
Enfim… Há uns dias fiz anos, 41. Qua-ren-ta-e-um. Já não falava com o Bruno há não sei quanto tempo, ele disse-me,
– sou um amigo de merda, não digo nada durante o ano inteiro, como é que estás?
e eu,
– sabes como é, sabes como eu sou, sempre as escolhas erradas,
e ele,
– é isso que admiro em ti, são essas escolhas erradas que fazem de ti o,
e eu a ouvir-te,
– Migueeeeeel,
e o Bruno,
que tu és.
Mas eu estou farto. Estou farto disto tudo.

sábado, 1 de dezembro de 2018

CRONOS

Quando eu era novo, quando eu era muito novo, talvez com quatro ou cinco anos – não sei, talvez antes dessa altura isso também acontecesse, mas para me lembrar das coisas já devia ter quatro ou cinco anos, talvez mais, o tempo passa e perdemos a noção real de quanto tempo passou, do que se passou, quando é que se passou – passava parte do Verão com os meus pais, acho que no Algarve, talvez uma semana, talvez um fim-de-semana, e grande parte desse tempo, pelo menos do que me lembro, mas tenho a certeza que isso não é verdade, era passado a construir castelos de areia com o meu pai. Quando a maré baixava e, não sei, tenho a ideia que a maré estava sempre baixa, começávamos a construir o castelo de areia, com torreões, fossos, e a areia meia molhada que segurávamos numa mão fechada e que deixávamos cair para o castelo que ia ficando com um estilo quase manuelino enquanto as gotas de água e areia misturadas se iam acumulando para formar janelas, portas e a imponência de um castelo que era ao mesmo tempo um palácio e uma fortaleza. Depois a maré começava a subir e de cada vez que se aproximava começávamos a construir um fosso maior que protegesse as muralhas do castelo, até que uma onda maior invadia o fosso, as muralhas e os torreões e tudo desabasse num momento, enquanto o meu pai dizia,
– ah,
e eu amaldiçoava o mar e amaldiçoava o mundo que não deixava que castelos com fossos, muralhas e torreões se mantivessem de pé por mais do que umas horas. E depois era tarde, o sol quase que se estava a pôr e era altura de ir embora. Amanhã havia mais castelos com fossos, muralhas e torreões. E no dia a seguir começava tudo outra vez e acabava tudo da mesma maneira.
Isto foi há muito tempo.
É engraçado lembrar-me disto e lembrar-me de ti. É engraçado porque não sei se és o castelo ou se és o meu pai a dizer,
– ah,
como se não soubesses o que ia acontecer, como se não soubesses que tudo ia desabar, que uma onda maior ia destruir tudo, e que eu sou só um miúdo que deixou de ir à praia porque os castelos caem, caem mesmo, e há um dia em que não há como reconstruí-los, há um dia em que tudo à volta é uma onda que engole tudo, que devora tudo, e não há ninguém que nos pegue na mão e diga,
– é tarde, o sol está a pôr-se, está na altura de ir embora, amanhã tentamos outra vez.
Ao jantar, hoje, passaram-se muitos anos.
O meu pai está velho, estamos todos velhos, todos parecemos mais jovens do que somos mas todos somos mais velhos do que parecemos. O meu pai está muito velho, está muito amargo, se o pusessem agora à beira-mar, na maré baixa, seria incapaz de construir um castelo com um fosso, muralhas e torreões, seria incapaz de construir o que quer que fosse, não seria capaz de me enganar e dizer,
– ah,
numa surpresa fingida que me convencia
(onde é que estava a minha mãe?, sentada na toalha, metros acima, a olhar para nós?)
que ele não sabia que a maré ia subir e que uma onda ia destruir o castelo,
– é tarde, o sol está a pôr-se, está na altura de ir embora, amanhã tentamos outra vez.
Sim, o tempo passa, ele está velho e eu estou velho. Envelhecemos. E hoje, ao jantar, quando estou quase a chegar à idade que ele tinha quando eu nasci, e isso é estranho, isso é muito estranho, não peguei na mão da minha irmã debaixo da mesa nem olhei para o meu sobrinho à minha frente ou para a minha sobrinha à minha frente, apenas pensei,
– tenho medo,
e calei-me como todos nos calamos quando temos medo. E enrolei outro cigarro. E levantei-me da mesa e fui até ao telemóvel ver se tinhas dito alguma coisa, se tinhas sentido o meu medo, se me tinhas mandado uma mensagem a dizer,
– estou aqui, tu sabes que estou aqui, vou estar sempre aqui, ao teu lado,
mas não tinhas dito nada.
Depois ele disse, o meu pai disse,
– e tu?, quando é que vais resolver a tua vida?,
 hoje ao jantar,
– há quanto tempo não dormes?, quando é que vais resolver a tua vida?,
perguntou ele outra vez,
– há coisas que tens de perceber, e uma delas é que para cada problema há uma solução, só tens de saber como, só tens de saber como chegar ao resultado final e, para isso, às vezes, tens
– alguns problemas não têm solução, pai,
disse eu,
(houve um silêncio)
– tu sabes disso,
disse eu,
– como o problema de ser o Miguel Graça,
disse ele, o meu pai.
E eu disse,
– sim,
enquanto tu vais desaparecendo como os castelos de areia que são levados pelas ondas, incapaz de sobreviver, incapaz de me salvar.

segunda-feira, 26 de novembro de 2018

DORIAN GRAY

Olho para si e cada vez que o vejo parece que está pior. Por fora está óptimo, mas eu olho para si e vejo-o por dentro, vejo bem o que aí está, o que está aí dentro. O meu amigo parece que sofre de tristeza profunda e que todos os dias está pior, se houvesse uma doença para si ia chamar-se assim, tristeza profunda. Se um dia fosse ao médico, se um dia fosse ao hospital porque já não aguentava mais estar assim e um dia, em casa, talvez sentado no sofá depois de muitas horas quieto a olhar em frente pensasse,
– não aguento mais isto,
e no hospital lhe indicassem um médico que o visse, que olhasse para si e o auscultasse e lhe pedisse para dizer,
– ah,
enquanto abria a boca, de certeza que ia ouvir o médico dizer,
– tristeza profunda,
quando lhe transmitisse o diagnóstico, e depois talvez alguma cura milagrosa que esses charlatães – charlatães ou charlatões?, bem, também não interessa – esses curandeiros com o curso tirado à pressa, que nem distinguem uma unha encravada de um pé partido se não tiverem a especialidade certa, têm a mania de prescrever às pessoas enquanto dizem,
– um em jejum, outro depois do almoço e outro a meio do jantar, não beba, não fume e nada de café,
como se eles quisessem controlar a minha vida, como se quisessem dizer aquilo que faço ou que ainda posso fazer, sabe o que é que eu lhes digo?, sabe o que é que eu digo a esses xamãs deste tempo moderno?, digo-lhes assim,
– vá, bardamerda, senhor doutor, meta os comprimidos nu cu que eu já percebi que o senhor gosta é de supositórios,
e digo mesmo, isto não é conversa, não sou eu aqui, a esta hora, a dizer isto porque sim, não, isto é tão verdade quanto a sua tristeza profunda. Mas o meu amigo tem cara de que não vai ao médico desde que nasceu – não estou a dizer que está com mau aspecto, muito pelo contrário, o meu amigo está com óptimo aspecto – de cada vez que o vejo parece mais jovem, ou se calhar somos nós todos que estamos a envelhecer mais depressa, mas por dentro parece mais velho do que eu, por dentro parece que morreu, que já não diz nada, que já não tem nada para dizer. Ouça, vou fazer-lhe uma pergunta, posso fazer-lhe uma pergunta?, eu vou fazer-lhe uma pergunta, que idade é que acha eu tenho? Fico a olhar para si, num Domingo à noite aqui fechado quando há tanta coisa que podia estar a fazer, tanta coisa que devia estar a fazer e penso mesmo nisto, que idade é que me dá?. Olhe para mim, está a olhar?, veja bem, eu tenho setenta e dois anos, setenta e dois. Acredita nisso? Normalmente dão-me oitenta, mas já me deram noventa e cinco e até já me disseram que eu pareço uma múmia, que eu me esqueci de morrer, e sabe quem é que me disse isso?, a minha última mulher. É uma história engraçada. Sabe, as coisas nunca são aquilo que nós achamos que elas são. Às vezes uma coisa má é uma coisa boa, e às vezes uma coisa boa é uma coisa má. A minha última mulher – eu nem consigo dizer o nome dela – sabe onde a conheci?, no casino, aqui ao lado no Casino do Estoril, isto foi há muitos anos, há mais de trinta, o meu amigo na altura nem devia ter nascido, e houve uma noite em que eu fui lá, ao casino, perdido de bêbado porque ainda estava a sofrer, a sofrer mesmo, pela minha terceira mulher, que me deixou porque eu era um bêbado e andava muito nas putas, eu era assim, éramos todos assim, eram outros tempos, e ela chorava e eu dizia,
– Francisquinha, não chores,
quando chegava a casa a cheirar a putas e a whisky – ia dizer, a cona e a whisky, veja lá como eu estou – e lhe fazia uma festa na cara e dizia,
– Francisquinha, não chores, eu estou aqui,
mas mesmo assim ela foi-se embora um dia, levou os filhos com ela e deixou-me sozinho sem saber para onde ir, e houve um dia em que vim aqui, vim aqui parar, aqui mesmo onde estamos agora, eu estava sentado neste banco onde estou agora sentado, lembro-me perfeitamente, ao balcão deste bar, sem saber para onde ir, sem saber o que fazer a não ser pedir mais whisky, e acabei por ir para o casino onde perdi quinhentos contos, quinhentos contos era dinheiro na altura, ainda é, mas na altura era muito dinheiro, e eu pensei que a minha vida ia acabar nesse dia, que tudo estava perdido, que não havia mais nada a fazer a não ser pegar no carro e ir até à Boca do Inferno, na altura fazia-se muito isso, era moda, não sei, mas à saída do casino ela pegou-me no braço, vinda não sei de onde, e eu olhei para ela e percebi que estava perdido quando ela disse,
– onde é que vai?, paga-me um copo?, perdi tudo,
e voltámos para aqui, para este mesmo balcão de um bar, e bebemos um copo e um mês depois pedi-lhe em casamento. E ela disse,
– sim.
E eu fui o homem mais feliz do mundo durante muito tempo – ainda estivemos juntos vinte anos, mais de vinte anos. E, na altura, quando contava esta história às pessoas, com ela ao meu lado, dizia sempre,
– perdi quinhentos contos mas ganhei o jackpot,
sim, era isso que eu dizia,
– perdi quinhentos contos mas ganhei o jackpot.
Depois aconteceu qualquer coisa. Alguma coisa que não sei o que foi. Talvez tenha sido eu. Talvez tenha sido qualquer coisa que não compreendo. E agora olho para mim, a viver num hotel, e não há nada mais triste do que viver num hotel. Garanto-lhe isso, meu amigo, que não há nada mais triste do que acabar os dias sozinho num quarto de hotel a lembrar-me que quando ela se foi embora me disse,
– o teu problema é que te esqueceste de morrer, porque é que não pegas no carro e vais dar um passeio até à Boca do Inferno?,
e eu sem sequer saber o que é que eu tinha feito,
– era um favor que fazias a toda a gente, era um favor que me fazias,
se calhar era só existir. Ela levou o meu Alfa Romeo que eu adorava e metade do dinheiro e eu fiquei sozinho com o meu cão, velho como eu, os dois sozinhos e ela, vim a saber mais tarde, juntou-se com um desses fulanos da pândega que põem música em discotecas.
Por isso, tudo o que é bom acaba por ser mau, e tudo o que é mau, acaba por ser bom. Quando olho para trás, só penso que aqueles quinhentos contos que perdi podiam ter sido uma bênção, mas não, foram a minha maldição, percebe o que estou a dizer?. O meu amigo tem de perceber que essa tristeza profunda não o vai levar a lado nenhum, que isso é passageiro, que talvez seja até o princípio da felicidade, que se calhar tem tudo à sua frente, é jovem, é educado, sei que é um homem culto, falaram-me sobre si no outro dia, que escreve umas coisas, e como eu tenho um computador em casa fui ver aquilo que escreve. E tenho de agradecer-lhe aquilo que escreveu sobre mim, achei muito simpático, com alguma elegância, não é nenhum Eça e está longe de um Garrett, mas gostei, só lhe peço uma coisa, que não volte a escrever sobre mim, escreva sobre si, escreva sobre ela, mas não escreva sobre mim. Eu sou só um homem a quem fizeram mal a vida inteira, só isso.

segunda-feira, 19 de novembro de 2018

4

E é isso, o tempo passa. E ela agora está quase com uma barriga de seis meses porque, de repente, já se passaram quase três desde que ela me disse,
– vais ser tio outra vez,
enquanto estávamos todos em casa do David.
Eu digo-lhe,
– estás tão bonita,
quando a vejo a sair de casa, com o Pedro ao lado, a abrir-lhe a porta
e damos abraços
somos pessoas de abraços, eu não, eu não sou uma pessoa de abraços, mas ao lado deles consigo ser, consigo olhar para eles e sorrir e pensar,
– ainda bem que tudo lhes correu bem.
O David está em Braga ou em Bragança, ninguém sabe ao certo, uma cidade qualquer que começa com B, talvez Beja, a fazer teatro infantil porque precisa de ganhar dinheiro para ter dinheiro ao fim do mês. O Pedro mandou embora os locatários e fala-me entusiasmado do escritório que está a montar num dos quartos vagos,
– agora tenho um escritório,
diz ele enquanto se agarra a ela e ela se ri para ele e depois se ri para mim,
– e tu,
pergunta ela,
– como estás tu?,
e eu olho para cima, para a Lua, e digo,
– no mesmo sítio, estou no mesmo sítio.
Vamos a um bar em Lisboa, eu fui buscá-los de carro a casa, damos abraços e vamos a um bar em Lisboa, não vinha a Lisboa há não sei quanto tempo, cada vez detesto mais Lisboa e quando começo a pensar que daqui a nada vou voltar a viver aqui começo a pensar que mais vale
mas ela diz,
– parece que rejuvenesceste dez anos, olha para ti, estás óptimo,
agora toda a gente acha que estou com óptimo aspecto, ela, a minha irmã, a minha sobrinha, as amigas da minha sobrinha,
– o tio tem de sair connosco,
que são as únicas pessoas que me tratam por “tio”, porque os meus sobrinhos continuam a tratar-me por,
– Miguel,
e a achar que eu sou uma espécie de irmão mais velho, o desmiolado da família,
parece que todas se juntaram em segredo e combinaram dizer,
– estás óptimo,
num espécie de plano maquiavélico para me levarem a acreditar que estou óptimo, quando na verdade,
– sinto-me péssimo,
digo eu,
– sinto-me como nunca me senti, por dentro estou como nunca estive, já me senti um cadáver deitado numa morgue, já me senti um morto que continuava a andar pela rua, já me senti como alguém a quem o coração deixou de bater e continuava a viver a vida que todos vivemos, mas nunca me senti assim, nunca estive assim, como se me tivessem arrancado a alma e eu fosse só um corpo que vai dar aulas, que vai almoçar e ao supermercado e isso tudo, e depois chega a casa e faz o jantar e a seguir ao jantar vai beber um copo, um café e um copo, e depois volta para casa e antes de adormecer fica muito tempo a olhar em redor a pensar,
– foi isto que te aconteceu,
enquanto o passado começa a ganhar forma e eu continuo a desaparecer.
– É uma boa frase,
digo eu,
– é a única coisa que tenho,
digo eu,
– sim,
digo eu.
Estamos num bar em Lisboa, e está muita gente no bar, é uma festa. Isto foi há uns dias, estamos a pedir mais um copo de vinho, o vinho não presta mas estamos a pedir mais um, eu estou a ficar cansado, eu quero ir para casa, quero sair dali, quero ir-me embora, e enquanto estamos ali, enquanto estamos ali à espera de mais uma bebida, ela pega na minha mão e diz,
– olha para mim, já viste como estou?,
e eu olho para ela com uma barriga de quase seis meses,
– já viste como a nossa vida mudou?, achas estranho estar aqui?, achas estranho tudo ter mudado menos tu?,
diz ela,
– olha para ti,
diz ela,
– o tempo passa,
diz ela,
– quando é que vais mudar?

quinta-feira, 15 de novembro de 2018

QUARTO CRESCENTE

Acho que a última coisa que te ouvi dizer (não é verdade, mas é assim que gosto de me lembrar das coisas) foi,
– vai ficar tudo bem,
e eu olhei para ti e perguntei,
– quando?,
e já não me lembro se disseste,
– não sei,
(claro que me lembro) ou se apenas abriste a porta do carro e te foste embora, nem sequer me estavas a segurar na mão, lembrei-me agora disso, que nem sequer estavas a segurar na minha mão.
O tempo passa e as coisas continuam na mesma, ou continuam a piorar, olho para a frente para o tempo à minha frente e penso que daqui a dois ou três meses vou estar sentado a esta mesma hora, nesta mesma cadeira, como o mesmo ecrã à minha frente a escrever qualquer coisa como,
– quem me dera estar como eu estava há dois ou três meses, na altura nem sabia mas estava muito melhor do que estou agora,
mas o pior é que sei e por isso tento aproveitar os dias, tento sair à rua, falar com as pessoas, rir-me do que os outros dizem, mas acabo sempre sozinho encostado a qualquer coisa, uma parede de um prédio, um candeeiro de rua, o umbral de uma porta que dá para um jardim, enquanto acendo um cigarro, olho para cima e digo depois de te ver,
porque na verdade não digo nada, apenas fico a olhar para ti, à espera que tu fales comigo. E se calhar não dizes nada porque também estás à espera que seja eu a falar contigo. Depois acendo um cigarro, e depois, como eu não gosto de silêncios, atiro o cigarro para o meio da rua e vou para casa.
Às vezes acho que estou a perder a cabeça, que não estou bem, que há qualquer coisa de errado a crescer dentro de mim. Há bocado, por exemplo, à porta do meu prédio, olhei para os números do código de entrada e não me conseguia lembrar de nada, de nada mesmo. Era um vazio total. Nem sequer uma vaga recordação. Nem o primeiro número, nem quantos eram, e enquanto tentava sequências aleatórias que resultavam sempre num,
– bzzzzzt,
em que a porta se matinha fechada, só pensava,
– mas o que é que eu vou fazer à minha vida?, vou ficar aqui sem conseguir entrar?, será que nunca mais vou conseguir lembrar-me de como posso entrar em casa?, será que vou ficar para sempre na rua, a dormir ao relento ou sentado no carro porque pelo menos não perdi a chave do carro?,
enquanto procurava a chave do carro e a encontrava no bolso e pensava,
– pelo menos tenho a chave do carro, mesmo que não saiba onde ele está, mas não pode estar longe, é uma questão de o encontrar.
Depois pensei que se calhar estava num sonho e que nos sonhos as coisas não têm de fazer sentido, e por isso depois de vinte tentativas a carregar em números ao calhas e no enter a ouvir sempre o mesmo,
– bzzzzzt,
decidi tocar à minha porta, tocar para mim mesmo na esperança que eu estivesse em casa e me abrisse a porta, ao mesmo tempo que chegou à porta do prédio um homem que disse,
– boa noite,
e eu,
– boa noite, esqueci-me do código, veja lá que estupidez, estou aqui há uns dez minutos e não consigo entrar em casa, não me consigo lembrar mesmo, há um vazio na minha cabeça, não sei o que se passa, é como se me tivessem tirado uma parte do cérebro e estou aqui, com frio, à espera de uma solução para um problema que não sei resolver, até toquei à campainha de minha casa na esperança que esteja lá alguém, já viu que estupidez?, deve ser da noite, desta hora da noite ou do cansaço disto tudo,
– pois,
disse o homem enquanto carregava nos botões e uma voz feminina dizia,
– quem é?,
e eu,
– sou eu,
e a porta se abria ao mesmo tempo que o homem carregava no enter, e eu sem saber se eras tu que estavas em minha casa, se eu tinha tocado para o andar errado ou se o homem apenas tinha aberto a porta,
– e sabe ao menos onde vive?,
perguntou ele enquanto olhava para mim,
– sim,
disse eu,
– eu sei onde vivo.
Partilhámos o elevador em silêncio.  Ele saiu antes de mim, eu vivo no último andar, não disse nada ao sair, mesmo depois de eu ter dito,
– obrigado.
Depois abri a porta do elevador e antes de abrir a de casa pensei que talvez estivesse noutro universo, noutro universo em que me abrisses tu a porta em vez de ser eu a abri-la, e me perguntasses,
– porque é que só chegaste a esta hora, já viste que horas são?,
e tivéssemos uma discussão por causa disso.
Mas não, abri a porta e a casa estava vazia, estava escura e em silêncio, não havia nenhuma voz feminina que me perguntasse,
– quem é?,
à minha espera, e eu lembrei-me, lembrei-me de ti a dizeres,
– as coisas vão melhorar,
e eu a olhar para cima, para ti, a atirar o cigarro para a rua e a perguntar,
– quando?

quinta-feira, 8 de novembro de 2018

A NOITE PASSA ATÉ SER MANHÃ ENQUANTO TU NÃO DESAPARECES

Foi porque eu disse,
– eu amo-te,
foi só por causa disso?.
Foi esse momento em que eu olhei para ti e disse,
– eu amo-te,
e tu te assustaste e disseste,
– o quê?,
e eu,
– nada, não disse nada,
e tu,
– eu ouvi o que disseste, porque é que disseste isso?, não devias ter dito isso, devias ter ficado calado, não devias ter aberto a boca para dizer isso, não estava preparada para ouvir isso, não estava mesmo preparada para ouvir isso e agora que o ouvi gostava que não o tivesses dito.
Foi isso?
Foi aí que tudo acabou?, quando eu disse que te amava. Como se o amor fosse uma coisa má, como se amar alguém fosse uma catástrofe.
Foi isso? Porque se foi isso eu posso só gostar de ti, ou gostar muito de ti, ou adorar-te, é só uma questão de semântica.
Mas não é só isso, e eu penso,
– estou agora acordado e tu estás a dormir, somos como dois contrários que se querem encontrar, porque quem está a dormir quer acordar, e quem está acordado quer adormecer.
Eu paro. Eu paro de mentir, eu paro de escrever. Eu olho para o lado. Já não marco o tempo na parede, já me deixei disso. Há apenas uma citação de Strindberg que diz,
– Detesto a humanidade e não consigo estar sozinho. E por isso, é só isso, noites longas, pessoas más, álcool a mais, desespero. Acima de tudo, paralisia.
ao lado de um trevo de quatro folhas que me foi dado há uns anos enquanto me diziam,
– agora vais ter toda a sorte do mundo,
colados na parede. Acho que é uma forma de eu dizer a mim próprio que a sorte vai estar sempre contra mim.
Isto sou eu, a esta hora, a dizer mentiras a mim próprio. Devia ser verdadeiro, devíamos ser todos verdadeiros, como há bocado, sentado ao balcão de um bar, quando um homem com quem simpatizo mas que toda a gente detesta se virou para mim a meio de uma discussão e disse,
– o senhor que é lá dos teatros diga-nos lá se eu não tenho razão, o que é uma tragédia?
Eu estava a jogar o meu jogo no telemóvel, a minha vida agora é assim, dou aulas dois dias por semana e depois jogo o meu jogo no telemóvel e bebo demais, às vezes estou com pessoas, falo com elas, mas é raro, a maior parte das vezes apenas jogo o meu jogo no telemóvel e bebo demais. Eu paro outra vez. Pergunto-me,
– tens a certeza que queres escrever isso?,
e depois continuo,
– bem, Aristóteles,
mas o homem interrompe-me,
– quero lá saber  do Aristóteles, bardamerda para o Aristóteles, falo-lhe de tragédia e ele vem-me com o Aristóteles,
não sei que idade ele tem, dizem-me que parece mais velho do que é, talvez sessenta e tal, setenta anos. Utiliza a palavra,
– bardamerda,
quando quer mesmo ofender alguém,
– vá bardamerda,
ou
– você é um bardamerda,
são frases que este homem diz com frequência ao balcão de um bar, talvez seja por isso que ninguém gosta dele.
– Eu estou a falar da vida, da vida real,
diz ele,
– quero lá saber do Aristóteles, quero lá saber da filosofia, quero lá saber de palavras escritas num papel. O senhor sabe quantas vezes eu fui casado?,
e eu olho para ele depois de desligar o meu jogo,
– não,
digo eu,
– quatro,
diz ele,
– fui casado quatro vezes com quatro mulheres que amei e sabe o que é que elas me deram, sabe?
– não,
digo eu,
– abandono e desilusão,
diz ele,
– foi isso que elas me deram, abandono e desilusão, e por isso estou sozinho, vendi a minha casa, felizmente tenho dinheiro, o meu cão morreu e por isso vendi a minha casa, vendi a minha casa quando o meu cão morreu porque agora já não preciso de espaço, já não preciso de espaço para o meu cão correr mesmo que ele já não corresse porque estava velho como eu, estou a viver num hotel porque assim, pelo menos, não tenho de fazer a cama, nem tenho nada colado na parede, qualquer coisa que eu diga que é meu, vivo num quarto e limpam-me o quarto e dão-me o pequeno-almoço se eu acordar cedo, mas a maior parte das vezes não acordo cedo, e não há nada meu naquele quarto, sou só eu e o quarto, eu e as paredes do quarto e eu a pensar que a tragédia, caro senhor, é isto, é um homem sozinho num quarto de hotel a pensar no abandono e na desilusão, a pensar que a tragédia, a verdadeira tragédia, é dar a felicidade a quem é infeliz e depois retirarem-lhe a felicidade só porque sim, só porque lhes apeteceu, como nos meus quatro casamentos, e depois acabamos a viver num hotel, acabamos sozinhos a viver num hotel, não concorda?, não me venha com o Aristóteles, olho para si ao balcão de um bar a jogar o seu jogo no telemóvel e penso em mim deitado na cama no meu quarto de hotel com a tragédia da minha vida deitada ao meu lado, com esta ideia idiota de que podemos encontrar alguém, alguém que não nos abandone nem nos desiluda, alguém que não nos traga a felicidade para depois a retirar,
– sim,
digo eu,
– tenho de ir,
digo eu,
– boa noite,
digo eu.