quarta-feira, 19 de dezembro de 2018

5

– E nunca mais escreveste nada,
diz ela enquanto eu ponho a mesa, enquanto eu dobro os guardanapos e ponho os talheres e os pratos na mesa,
– parece que desapareces quando deixas de escrever, que és uma sombra que ninguém sabe onde está, parece que não existes quando não escreves, que és apenas alguém que ninguém sabe bem o que lhe aconteceu, ou apenas o teu nome, o teu nome como ela costumava dizer, como é que era?.
e eu,
– não me lembro,
e ela,
– Migueeeeeel, era assim?, era assim que ela dizia?, era assim que ela olhava para ti, que ela te chamava?, era assim que a vias?, como alguém que chamava por ti?,
e eu enquanto dobro os guardanapos,
– estou farto disto, estou mesmo farto disto tudo, de tudo o que acontece, estou farto de escrever a minha vida antes que ela aconteça, estou farto de ampliar as coisas e depois vivê-las, estou farto de ser quem eu sou, estou farto desta personagem, que está muito pior e muito mais infeliz do que eu mas que vou ser eu daqui a um mês ou dois, ou um ano, só sei que depois o tempo passa e afinal estou exactamente onde me escrevi.
Eu olho para ela. Eu digo,
– vida de merda, ainda bem que vocês existem porque se vocês não existissem, não sei, porque é que as coisas têm de ser assim?, sempre a mesma coisa, sempre a mesma desilusão, sempre as mesmas coisas a acontecerem umas atrás das outras, eu não aprendo, não aprendo mesmo, não aprendo nada,
e ela depois de eu me calar,
e eu,
– hã?
e ela,
 – somos eu, tu, o Pedro e a tua mãe, porque é que estás a pôr cinco pratos?
E depois almoçamos, apenas os quatro. A minha mãe olha para ela e imagina o dia em que sou eu e não o Pedro a vir almoçar com uma mulher grávida de seis meses. E olho para o Pedro e penso no David e na Madalena, nos últimos amigos que tenho no mundo, e todos eles estão bem, todos eles estão
eu calo-me
eu digo em voz alta enquanto levanto o copo de vinho,
– um brinde ao amor,
e todos levantam o copo e todos sorriem e depois vamos ao teatro, eu traduzi a peça,  e na bilheteira dizem-me,
– cinco bilhetes, cinco convites,
e eu,
– não,
e eu outra vez,
– não,
e a tua voz na minha cabeça,
– Migueeeeeel.
E é isso. Às vezes penso em ti, às vezes, baralho-me e ponho um prato na mesa que não é para ti, ou então peço um bilhete que não é para ti porque tu estás noutro lado que não é aqui, agora, noutro lado qualquer que não é aqui.
Enfim… Há uns dias fiz anos, 41. Qua-ren-ta-e-um. Já não falava com o Bruno há não sei quanto tempo, ele disse-me,
– sou um amigo de merda, não digo nada durante o ano inteiro, como é que estás?
e eu,
– sabes como é, sabes como eu sou, sempre as escolhas erradas,
e ele,
– é isso que admiro em ti, são essas escolhas erradas que fazem de ti o,
e eu a ouvir-te,
– Migueeeeeel,
e o Bruno,
que tu és.
Mas eu estou farto. Estou farto disto tudo.

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