pergunta ela, e ela sabe
que não, ela sabe que eu não tenho escrito, que eu não escrevo, que eu já nem
sequer tento, que até desisti disto, disto, das crónicas, que nem sequer é
escrever, mas que já nem isto consigo escrever, que o meu vazio é tão grande
que já nem sequer o tento preencher com palavras
(como fiz, como tentei
fazer para não te ires embora)
que já me deixei disso,
que desisti de escrever como quem desiste de cozinhar porque a mesa está sempre
vazia, mas mesmo assim ela pergunta,
– tens escrito?,
como quem faz apenas uma
pergunta casual, como se ela não soubesse o porquê,
– nada,
digo eu,
– mesmo nada,
digo eu.
Ela olha para mim e depois
desvia o olhar, talvez esteja a olhar para o quadro à frente dela, uma mulher nua
de costas, ou talvez esteja apenas a olhar para outra coisa qualquer, para o
papel de parede, que é vermelho, ou então para algum rapaz noutra mesa ou para
o barman, não sei, ela olha para outra coisa qualquer que não sou eu e
diz,
– o que é que te falta?,
sempre sem olhar para mim.
Eu digo,
– provavelmente, tu,
e ela diz enquanto se ri,
– estou farta de ser a má
da fita.
E eu não me ri, eu nem
sequer sorri, também já me deixei disso. Acho que às vezes temos de deixar as
coisas para trás, como rir, sorrir ou escrever, acho que às vezes temos de nos
deixar de certos hábitos, de deixar de acreditar neles para conseguir não
fingir, para conseguir continuar a viver num mundo em que me dizes,
– estou farta de ser a má
da fita,
quando eu nunca fui o herói.
No outro dia, ao balcão de
um bar, contaram-me uma história, no princípio não estava muito interessado em
ouvi-la, normalmente apenas não estou interessado no que os outros têm para me dizer
e descarto-os com um,
– sim, amigo, já me contou
isso,
ou,
– eu lamento muito , mas
tenho mesmo de me ir embora,
mas esta história era
antiga e passava-se noutro continente e por isso em vez de dizer,
– o que é isto?, estou a
ouvir qualquer coisa, não está a ouvir qualquer coisa?, é lá fora, parece um
gatinho, aflito, a miar, tenho de ir ver o que se passa,
calei-me e deixei que o
homem, o cavalheiro – digo “cavalheiro” porque me parecia um cavalheiro, bem
posto, educado – me contasse a história do
sogro que, em África, numa antiga colónia, depois de dois anos casado e de ter
tido a primeira filha decidiu ir apresentar a esposa e a neta ao pai que vivia
a 700 km de distância, para um mês depois, de carroça, chegar à porta de casa do
pai e descobrir que ele tinha morrido no dia anterior.
De certa maneira
lembrei-me de ti.
Depois tu disseste,
– és uma anedota
– és igual a todos os
homens
– és um fraco
– e eu a pensar que eras
diferente
– como é que foste capaz?
– tenho nojo de ti
– esquece-me
– a fazeres-te de
coitadinho
– não quero saber
– agora és um príncipe
encantado?
– que lindo
– mas que bem
– devia era nem ter dito
nada
e eu olho para ti, não
estou a olhar para o quadro à minha frente, nem para o papel de parede que nem
sei de que cor é, não sei a cor do papel de parede nem se o bar está cheio ou vazio,
não sei quem está sentado ao nosso lado ou quem serve as bebidas à mesa, sei
que tu estás à minha frente e que estás cada vez mais longe de mim.
Eu digo,
– talvez isso já tenha sido verdade, talvez eu já tenha sido
isso tudo, talvez até eu mereça o que me está acontecer, o que me estás a
fazer,
mas,
– pela primeira vez,
disse eu,
– eu não sou o mau da fita,
e depois ainda a olhar para
ti,
– e tu não acreditas em
mim, por isso, por muito que me custe, por muito que me doa, por muito que não
consiga, vou voltar a escrever só para ver se pelo menos acreditas em mim,
– está bem, Miguel,
disseste tu enquanto
adormecias.