quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

FAR FROM ME

– Tens escrito?,
pergunta ela, e ela sabe que não, ela sabe que eu não tenho escrito, que eu não escrevo, que eu já nem sequer tento, que até desisti disto, disto, das crónicas, que nem sequer é escrever, mas que já nem isto consigo escrever, que o meu vazio é tão grande que já nem sequer o tento preencher com palavras
(como fiz, como tentei fazer para não te ires embora)
que já me deixei disso, que desisti de escrever como quem desiste de cozinhar porque a mesa está sempre vazia, mas mesmo assim ela pergunta,
– tens escrito?,
como quem faz apenas uma pergunta casual, como se ela não soubesse o porquê,
– nada,
digo eu,
– mesmo nada,
digo eu.
Ela olha para mim e depois desvia o olhar, talvez esteja a olhar para o quadro à frente dela, uma mulher nua de costas, ou talvez esteja apenas a olhar para outra coisa qualquer, para o papel de parede, que é vermelho, ou então para algum rapaz noutra mesa ou para o barman, não sei, ela olha para outra coisa qualquer que não sou eu e diz,
– o que é que te falta?,
sempre sem olhar para mim.
Eu digo,
– provavelmente, tu,
e ela diz enquanto se ri,
– estou farta de ser a má da fita.
E eu não me ri, eu nem sequer sorri, também já me deixei disso. Acho que às vezes temos de deixar as coisas para trás, como rir, sorrir ou escrever, acho que às vezes temos de nos deixar de certos hábitos, de deixar de acreditar neles para conseguir não fingir, para conseguir continuar a viver num mundo em que me dizes,
– estou farta de ser a má da fita,
quando eu nunca fui o herói.
No outro dia, ao balcão de um bar, contaram-me uma história, no princípio não estava muito interessado em ouvi-la, normalmente apenas não estou interessado no que os outros têm para me dizer e descarto-os com um,
– sim, amigo, já me contou isso,
ou,
– eu lamento muito , mas tenho mesmo de me ir embora,
mas esta história era antiga e passava-se noutro continente e por isso em vez de dizer,
– o que é isto?, estou a ouvir qualquer coisa, não está a ouvir qualquer coisa?, é lá fora, parece um gatinho, aflito, a miar, tenho de ir ver o que se passa,
calei-me e deixei que o homem, o cavalheiro – digo “cavalheiro” porque me parecia um cavalheiro, bem posto, educado –  me contasse a história do sogro que, em África, numa antiga colónia, depois de dois anos casado e de ter tido a primeira filha decidiu ir apresentar a esposa e a neta ao pai que vivia a 700 km de distância, para um mês depois, de carroça, chegar à porta de casa do pai e descobrir que ele tinha morrido no dia anterior.
De certa maneira lembrei-me de ti.
Depois tu disseste,
– és uma anedota
– és igual a todos os homens
– és um fraco
– e eu a pensar que eras diferente
– como é que foste capaz?
– tenho nojo de ti
– esquece-me
– a fazeres-te de coitadinho
– não quero saber
– agora és um príncipe encantado?
– que lindo
– mas que bem
– devia era nem ter dito nada
e eu olho para ti, não estou a olhar para o quadro à minha frente, nem para o papel de parede que nem sei de que cor é, não sei a cor do papel de parede nem se o bar está cheio ou vazio, não sei quem está sentado ao nosso lado ou quem serve as bebidas à mesa, sei que tu estás à minha frente e que estás cada vez mais longe de mim.
 Eu digo,
– talvez isso já  tenha sido verdade, talvez eu já tenha sido isso tudo, talvez até eu mereça o que me está acontecer, o que me estás a fazer,
mas,
– pela primeira vez,
disse eu,
– eu não sou o mau da fita,
e depois ainda a olhar para ti,
– e tu não acreditas em mim, por isso, por muito que me custe, por muito que me doa, por muito que não consiga, vou voltar a escrever só para ver se pelo menos acreditas em mim,
– está bem, Miguel,
disseste tu enquanto adormecias.

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