sábado, 27 de outubro de 2018

UM MAPA QUE VAI DAR A LUGAR NENHUM

– E agora? O que é que vais fazer agora? O que é que vais fazer agora?
Vejo-te a ir embora, a olhares para mim enquanto te vais embora, a olhares para trás, para mim, enquanto te vais embora, e de alguma maneira, eu tento sorrir enquanto te vejo a ir embora e na minha cabeça pergunto-me outra vez depois de desapareceres,
– E agora? O que é que vais fazer agora? O que é que vais fazer agora?,
porque eu não sei mesmo o que fazer, não sei mesmo como continuar.
Isto foi de manhã. Tu a ires embora foi de manhã. À tarde mantive-me vivo e à noite a minha irmã disse-me depois do jantar,
– não tens uma única asneira na tua última peça, reparaste?, chama-se crescer,
e é engraçado a minha irmã dizer isso porque nunca me senti velho até tu dizeres,
– és velho,
e eu para ti,
– porque é que estás a dizer isso?,
e tu para mim,
– porque és velho, desculpa dizer-te isto, mas é a verdade, és velho,
e eu sei que não sou velho, eu sei que hoje ninguém é velho aos 40 anos, mas, mesmo assim, se calhar, muita coisa mudou desde que te foste embora, porque na verdade não te foste embora hoje de manhã, na verdade foste-te embora há não sei quanto tempo, e eu apenas fingi este tempo todo que não te tinhas ido embora, ou, pelo menos, que ias voltar, e se calhar envelheci, se calhar envelheci desde que te foste embora.
Se calhar aconteceu de uma vez muita coisa que já tinha acontecido e que eu não tinha percebido que tinha acontecido, se calhar comecei a entrar no elevador e a olhar-me ao espelho e a dizer,
– estão a nascer-te demasiados cabelos brancos, como é que não tinhas reparado nisso?, já não são só dois ou três que arrancas às vezes quando à noite entras no elevador e te vês ao espelho porque não há mais nada para onde olhar. Não. Desta vez vieram mesmo para ficar. Desta vez elas chamam-te velho e vão-se embora porque estás sentado em casa, porque já te custa sair à noite, porque já não te consegues rir do que não tem piada, nem ir ter com pessoas que não conheces, nem conhecer pessoas que não queres conhecer. Desta vez só querias ser feliz, só querias ser feliz demasiado depressa porque estás farto de ser infeliz. E foi esse o teu erro, querer ser feliz demasiado depressa, tens de dar tempo ao tempo, tens de deixar que o quotidiano se instale, que as pessoas se habituem a uma determinada rotina, a uma determinada dependência. Queres tudo demasiado depressa, Miguel, e depois assustas as pessoas e elas vão-se embora, elas vão-se embora e ficas sozinho,
disse eu a mim próprio em voz alta no elevador, a olhar para o espelho, a ver os meus cabelos brancos a crescer, eu a vê-lo a crescer sem os conseguir arrancar enquanto te ouço a dizer,
– és velho.
Entro em casa, acendo a luz e
desculpa
não consigo não pensar em ti, não me lembrar de ti.
Acendo a luz e acho que não tenho de pedir desculpa por me lembrar de ti, acho que não tenho de pedir desculpa por me lembrar de ti e de mim, de me lembrar de nós. Acho que não tenho de pedir desculpa por me lembrar de ter sido feliz e de tu teres sido feliz.
Mas, pronto, que se foda, não é isso?.
Entro em casa e sento-me no sofá e vejo-te ao meu lado, e vejo os teus sinais, os sinais do teu corpo, ou o teu corpo como constelações enquanto dizes,
– escreve sobre os meus sinais, sobre os sinais do meu corpo.
E a escrever que o teu corpo é como uma galáxia cheia de constelações, ou então um mapa que eu não consigo decifrar, um mapa cheio de segredos que
enquanto a minha irmã, depois de abrir a porta olha para mim e diz,
– o que é que aconteceu?, que cara é essa?, quem é que morreu?,
e eu digo,
– eu, fui eu que morri outra vez, mas não tem mal, sabes como sou, eu morro e está tudo bem, escrevi uma peça e está tudo bem, valeu a pena, valeu a pena morrer outra vez, queria ser feliz, que estupidez, não é?, mas escrevi uma peça, que é muito melhor do que ser feliz, escrevi uma peça e descobri que sou velho, que estou a começar a ter cabelos brancos e que nunca mais me vou entregar a alguém,
– disseste-me que desta vez era a sério, que desta vez era mesmo a sério,
disse a minha irmã,
– enganei-me,
disse eu.

quinta-feira, 4 de outubro de 2018

A NOITE ESCURECE QUANDO AS ESTRELAS SE APAGAM

Meu amor,
quantos são os dias que nos separam? Há quanto tempo não te vejo, não te toco? Há quanto tempo não te dou a mão ou passeamos ao lado um do outro sem olharmos para trás? Há quanto tempo não somos felizes? Há quanto tempo não nos sentamos ao lado um do outro?, contigo a dizeres,
– Migueeeeeeeeel,
com as tuas pernas sobre as minhas enquanto te encostas no sofá e eu acendo um cigarro e olho para ti e tu dizes,
– vou adormecer,
e eu te dou a mão e um beijo e digo,
– eu estou aqui, não me vou embora, não me vou embora para lado algum.
À noite é mais difícil. Agora que deixei de beber é mais difícil. Fico acordado muitas horas, deitado na cama, sozinho, a olhar para a parede que não vejo porque a luz está apagada, a imaginar que se acender a luz tu vais materializar-te ao meu lado. De maneira que é isso que faço, acendo a luz e apago a luz à espera que apareças, à espera que numa das vezes em que a luz se acenda te veja ao meu lado, outra vez, a dizeres,
– Migueeeeeeeeel, tenho sono,
ou,
– Migueeeeeeeeel, deita-te ao meu lado.
É estranho esses dias terem desaparecido, é estranho terem sido tão poucos, e é estranho acordar de manhã e não ter nada que fazer, não ter alguém a quem eu diga,
– bom dia,
ou alguém a quem fazer o pequeno-almoço,
(nunca te fiz o pequeno-almoço)
ou apenas,
– tenho de ir dar aulas e não me apetece, não me apetece porque quero ficar aqui, ao teu lado, que se fodam as aulas, que se foda a vida, só quero ficar aqui, abraçado a ti.
Os dias passam devagar. À noite é mais difícil, principalmente quando chego a casa. Lembro-me demasiado de ti e não tenho como escapar disso, da memória, da tua imagem ali sentada, ou ali de pé, ou aqui abraçada a mim a dizer,
– tens de dançar,
e eu,
– eu não danço,
e tu a olhares para mim,
e eu,
– a não ser que seja contigo.
Estou a escrever uma peça para ti mas ainda não escrevi nada. Encomendaram-me há uns três meses um texto para teatro,
– dois actores, um homem e uma mulher, sobre o Amor, faz como quiseres, escreve o que quiseres.
Tenho pensado nisso, no Amor, tenho pensado na distância, no que nos separa uns dos outros, no que me separa de ti.
O Lobão disse às seis da tarde,
– o ensaio é às oito e meia, bebemos café aqui, antes?,
e eu,
– sim, vou precisar de um café,
(eu e o Lobão voltámos a ser amigos)
e eu ,
 vou precisar de um café, estou a beber desde as onze da manhã, estou a beber desde que acordei,
e o Lobão olha para mim e diz,
– estás todo fodido,
que é o que a Madalena me diz ao ouvido antes de começarmos o ensaio, ela diz assim,
– estás todo fodido, Mike, olha para ti, achas que isso é normal?, achas que estás bem?.
Eu paro,
eu olho em frente, para a minha catástrofe, para ti, mas mesmo assim eu digo,
– meu amor.