sexta-feira, 21 de setembro de 2018

ALL IS WELL

Ontem, por esta hora, estava a sonhar contigo. Agora estou sempre a sonhar contigo, quando me deito à noite na cama, quando adormeço à tarde no sofá, mesmo quando às vezes fecho os olhos só por dois segundos ao volante, sonho contigo. Ontem, por esta hora, estavas a dizer-me no meu sonho,
– não me fazes rir,
e eu não conseguia dizer nada – isso acontece-me nos sonhos, a maior parte das vezes fico quieto sem dizer nada, incapaz de falar, incapaz de dizer o que quero dizer, incapaz de me mexer  – apenas te via a afastares-te de mim, a andares de costas para mim, cada vez para mais longe, enquanto eu ficava quieto a ver-te ir embora, sem conseguir fazer-te rir, a tentar lembrar-me daquela anedota do surdo que era um DJ techno de sucesso porque sofria de Síndrome de Tourette.
À tarde vou comprar tabaco. Antes disso olhei para o saldo da minha conta no Multibanco e pensei,
– pelo menos ainda posso comprar tabaco, vou queixar-me de quê?,
enquanto atirava o talão para o meio da rua e uma senhora muito feia atrás de mim dizia,
– o senhor tem noção do que está a fazer?,
e eu,
– sim.
Na tabacaria compro o tabaco e olho para umas dezenas de “raspadinhas” cheias de prémios. Pergunto quanto custam e dizem-me que há uma enorme variedade, que quanto mais gastar mais posso receber,
– quero a mais cara,
o rapaz atrás do balcão dá-me a mais cara e eu pergunto porque se chamam “raspadinhas”,
– “raspadinhas”, porquê?,
pergunto eu,
– isto é quase um A4, porque é que não se chamam “raspadas” em vez de “raspadinhas”?
O rapaz atrás do balcão diz que não sabe, uma senhora alta ri-se enquanto murmura,
– raspadas ia parecer outra coisa,
e um velho de barba branca dá-me uma palmada nas costas e diz,
– estão aí um milhão de euros, meu amigo. Um milhão de euros. Já ajudava, hã?,
e eu,
– ajudava bastante,
e ele,
– é acreditar em mim, o senhor acredita em mim? Se calhar não acredita e por isso quando chegar a casa e pegar numa moeda e começar a raspar e a raspar em vez de um milhão de euros vai sair-lhe nada, zero. Mas se acreditar, se acreditar em mim,  é capaz de ganhar um milhão de euros, um milhão de euros ajudavam, não acha?, é uma questão de acreditar.
Em casa, mais tarde, ao princípio da noite, raspei a merda da “raspadinha” e nada, nem um euro. Fiquei a olhar para aquilo, como se fosse um colete salva-vidas que se afastasse de mim e pensei,
– fuck that,
(muitas vezes penso em inglês).
Vou mudar de assunto agora. Vou dizer que andamos aqui à procura de uma redenção.  Vou dizer que eu ando aqui à procura de uma redenção. Vou dizer que não sei se quero salvar-te do buraco onde estás ou se me quero salvar do buraco onde estou. Cada vez gosto menos das pessoas. Cada dia que passa tenho mais dificuldade em falar com as pessoas, em estar com elas, em falar com elas. Deixei-me disso. E estou bem assim. Desde que te tenha ao meu lado não preciso de mais ninguém.
– És um romântico,
dizes tu,
e eu,
– sabes que sim,
e tu,
– se ao menos não tivéssemos passado, se ao menos não tivéssemos passado podíamos ser felizes, podíamos estar os dois, agora, a ser felizes, a viver a vida tal como ela é, apenas no presente, apenas este momento em que eu estendo a mão para ti e tu me dás a mão, apenas este momento em que eu fecho os olhos e me inclino na tua direcção e tu me beijas.
À noite, sozinho, agora, raspo a “raspadinha” e não me sai nada. Zero.
– E eu que pensei que o velho de barba branca era Deus,
penso eu,
– e que por acaso Ele se tinha lembrado de mim.
Vou dormir. Sonho contigo. Sonho que me dizes,
– não me fazes rir,
e está tudo a correr tão mal que, realmente, não há qualquer vontade de rir.  

segunda-feira, 10 de setembro de 2018

3

– E não partiu,
digo eu a olhar para a janela porque desta vez não há nenhuma varanda,
– apenas o arrancou, atirou-o contra o chão e depois pôs-lhe um pé em cima, nada de especial, nada que não me tenham feito, nada a que eu não esteja habituado, nada que não me tivessem dito que ia acontecer. E também não é nada que eu não tenha feito, a vida é assim. Às vezes somos os verdugos outras vezes estamos no patíbulo,
– a maior parte das pessoas não vai perceber isso,
diz o Pedro,
– e achas que percebem o resto?,
pergunto eu.
Eles olham para mim. Estamos a beber vinho branco. Estamos os três sentados, há uma mesa à nossa frente, há um cinzeiro e há três copos de vinho branco.
Eu digo,
– está tudo bem, não se preocupem, não têm de se preocupar, o estranho seria o contrário, o estranho seria eu estar aqui, a olhar para vocês os dois a dizer que tudo me corre bem, que tudo é perfeito, que a minha vida é incrível, que ganhei a lotaria, que
(e calo-me, não completo a frase porque)
– e depois ia escrever sobre quê? Como é que eu ia acabar a próxima peça? Como é que ia escrever esta crónica mesmo odiando cada vez mais as crónicas?
E como ninguém se ri, como nem sequer me começo a rir como costumo fazer com as minhas própria piadas, eu digo,
– a sério, está tudo bem, está mesmo tudo bem.
O David diz,
– não precisavas de estar sozinho,
ele olha para mim e diz,
– sabes que não tinhas de estar sozinho,
e eu digo,
– não queria ver ninguém, acho que continuo sem querer ver ninguém, e isso é complicado porque começo as aulas daqui a nada, uma semana ou menos, e começo ensaios daqui a uns dias também, e realmente não quero ver ninguém, não quero falar com ninguém, e não é fácil dar aulas e não querer ver ninguém, nem é fácil começar ensaios e não querer falar com ninguém. Mas é assim, as coisas são assim, Também não vos queria ver e estou aqui, também não queria estar a dizer estas coisas e estou a dizê-las, obrigo-me a isso.
O Pedro diz,
– às vezes precisamos de estar sozinhos,
e eu digo,
– sim.
Isto foi há uns dias.
Fui ver o Manel. Cheguei duas horas depois da hora que combinámos porque
não sei
mal cheguei ela olhou para mim e disse,
– estás tão bem, estás com óptimo aspecto,
e eu a sorrir,
– a sério?, obrigado,
e ela,
– não, estava a gozar, o que é que te aconteceu?, o que é que se passa?, temos uma novidade para ti,
e eu,
– uma novidade, como assim?,
e ela a olhar para o Pedro,
e eu,
– a sério?,
e a Sofia,
– aquela crónica do Manel foi a melhor coisa que escreveste na vida.
Entretanto o Manel está à minha frente, deitado num berço a olhar para o lado. Eu pergunto-lhe,
– e então, puto, que estás a achar deste mundo?,
e ele começa logo a chorar,
– isto são cólicas,
diz o David,
e eu digo apenas,
– pois,
porque não quero falar da merda à frente de uma criança que nem 15 dias tem. É estranho. Quero pegar nele mas sei que se pegar nele vou começar a chorar. E por isso não pego nele e volto para a sala e começo a dizer que precisamos de ir fumar um cigarro, que precisamos de ir os três para outro lado e deixá-las a falar de coisas, de coisas que lhes dizem respeito, que só dizem respeito às mulheres.
E vamos.
Mas ela, que tem 21 anos, quando estamos quase a ir, pega na minha mão e diz,
– vai ficar tudo bem.

domingo, 2 de setembro de 2018

BULLETPROOF

Não me lembro do dia em que perdi tudo, a alegria, a vontade de viver. Não foi um dia, não deve ter sido um dia, mas um conjunto de coisas que aconteceram e que foram acontecendo, ou talvez um conjunto de ideias que se foram formando na minha cabeça e que ou aconteceram ou não aconteceram. Seja como for, a partir do momento em que perdi toda a alegria e a vontade de viver, quando passei a achar que o meu objectivo para o dia a seguir era apenas acordar, estranhamente, passei a dormir bem, a viver bem, a comer bem, a falar bem com as pessoas e a fazer planos que conseguia concretizar, uma peça daqui a um ano, uma viagem daqui a seis meses. Se calhar as coisas são mais fáceis quando apenas lidamos com a infelicidade, quando aceitamos que vamos estar assim o resto da vida, sem ninguém que nos pergunte,
– então, como correu o teu dia?,
ou que adormeça ao nosso lado no sofá porque ambos estamos cansados. Se calhar tudo é melhor quando não esperamos o que quer que seja, quando a expectativa é a de conseguir adormecer e de conseguir acordar.
Porque quando as coisas mudam, quando tudo isso muda, quando,
– sei lá,
digo eu ao balcão de um bar,
– não sei, apenas aconteceu, tenho de explicar o quê?, o que é que há para explicar?, as coisas acontecem, as coisas são assim, porque é que tenho de as explicar?, não há como as explicar, elas apenas acontecem e eu sou assim, não sou capaz de ser de outra maneira, ou não sinto nada ou sinto tudo, e eu agora estou a sentir tudo e não é fácil sentir tudo, e não é fácil sentir tudo e sentir que estás a fugir de mim,
digo eu. Depois olho para o lado, para ti, e lembro-me que já te foste embora, que estou sozinho, que não há ninguém ao meu lado.
E é isso. As pessoas dizem para eu ir ter com os meus amigos,
– vai ter com os teus amigos,
mas eu não gosto de falar e já sei o que eles vão dizer, e não quero voltar para casa e encontrá-la tão vazia como a deixei. Prefiro ficar em casa e por isso fico em casa. Fico em casa sem saber o que devo fazer e por isso faço só faço aquilo que sei fazer, mas a dobrar, a triplicar e por isso às vezes tenho medo, tenho medo já não conseguir ser infeliz, de já nem sequer conseguir ser infeliz.
Mas os amigos preocupam-se e à tarde a Madalena telefonou-me, ela disse,
– às vezes acho que as pessoas te tratam como se fosses à prova de bala e tu não és à prova de bala,
e talvez por isso à noite, quando me viu, a minha irmã se agarrou a mim e disse,
– o que é que aconteceu?,
enquanto me abraça e me dá um beijo na testa,
– o que é que aconteceu?,
diz ela,
e como eu não quero começar a chorar, como eu não quero começar a chorar à frente dos meus sobrinhos, como eu já sou um homem crescido e não quero começar a chorar à frente da minha sobrinha nem à frente do meu sobrinho, apenas fecho os olhos e digo,
– nada,
mesmo que dentro dos olhos fechados só te veja a ti.