digo eu a olhar para a
janela porque desta vez não há nenhuma varanda,
– apenas o arrancou,
atirou-o contra o chão e depois pôs-lhe um pé em cima, nada de especial, nada
que não me tenham feito, nada a que eu não esteja habituado, nada que não me
tivessem dito que ia acontecer. E também não é nada que eu não tenha feito, a
vida é assim. Às vezes somos os verdugos outras vezes estamos no patíbulo,
– a maior parte das
pessoas não vai perceber isso,
diz o Pedro,
– e achas que percebem o
resto?,
pergunto eu.
Eles olham para mim.
Estamos a beber vinho branco. Estamos os três sentados, há uma mesa à nossa
frente, há um cinzeiro e há três copos de vinho branco.
Eu digo,
– está tudo bem, não se
preocupem, não têm de se preocupar, o estranho seria o contrário, o estranho
seria eu estar aqui, a olhar para vocês os dois a dizer que tudo me corre bem, que
tudo é perfeito, que a minha vida é incrível, que ganhei a lotaria, que
(e calo-me, não completo a
frase porque)
– e depois ia escrever
sobre quê? Como é que eu ia acabar a próxima peça? Como é que ia escrever esta
crónica mesmo odiando cada vez mais as crónicas?
E como ninguém se ri, como
nem sequer me começo a rir como costumo fazer com as minhas própria piadas, eu digo,
– a sério, está tudo bem,
está mesmo tudo bem.
O David diz,
– não precisavas de estar
sozinho,
ele olha para mim e diz,
– sabes que não tinhas de
estar sozinho,
e eu digo,
– não queria ver ninguém,
acho que continuo sem querer ver ninguém, e isso é complicado porque começo as
aulas daqui a nada, uma semana ou menos, e começo ensaios daqui a uns dias também,
e realmente não quero ver ninguém, não quero falar com ninguém, e não é fácil
dar aulas e não querer ver ninguém, nem é fácil começar ensaios e não querer
falar com ninguém. Mas é assim, as coisas são assim, Também não vos queria ver
e estou aqui, também não queria estar a dizer estas coisas e estou a dizê-las, obrigo-me
a isso.
O Pedro diz,
– às vezes precisamos de
estar sozinhos,
e eu digo,
– sim.
Isto foi há uns dias.
Fui ver o Manel. Cheguei
duas horas depois da hora que combinámos porque
não sei
mal cheguei ela olhou para
mim e disse,
– estás tão bem, estás com
óptimo aspecto,
e eu a sorrir,
– a sério?, obrigado,
e ela,
– não, estava a gozar, o
que é que te aconteceu?, o que é que se passa?, temos uma novidade para ti,
e eu,
– uma novidade, como
assim?,
e ela a olhar para o Pedro,
e eu,
– a sério?,
e a Sofia,
– aquela crónica do Manel
foi a melhor coisa que escreveste na vida.
Entretanto o Manel está à
minha frente, deitado num berço a olhar para o lado. Eu pergunto-lhe,
– e então, puto, que estás
a achar deste mundo?,
e ele começa logo a
chorar,
– isto são cólicas,
diz o David,
e eu digo apenas,
– pois,
porque não quero falar da
merda à frente de uma criança que nem 15 dias tem. É estranho. Quero pegar nele
mas sei que se pegar nele vou começar a chorar. E por isso não pego nele e volto
para a sala e começo a dizer que precisamos de ir fumar um cigarro, que
precisamos de ir os três para outro lado e deixá-las a falar de coisas, de coisas que lhes dizem respeito, que só
dizem respeito às mulheres.
E vamos.
Mas ela, que tem 21 anos, quando estamos quase a ir, pega na minha mão e diz,
Mas ela, que tem 21 anos, quando estamos quase a ir, pega na minha mão e diz,
– vai ficar tudo bem.
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