– não aguento mais isto,
e no hospital lhe
indicassem um médico que o visse, que olhasse para si e o auscultasse e lhe
pedisse para dizer,
– ah,
enquanto abria a boca, de
certeza que ia ouvir o médico dizer,
– tristeza profunda,
quando lhe transmitisse o
diagnóstico, e depois talvez alguma cura milagrosa que esses charlatães –
charlatães ou charlatões?, bem, também não interessa – esses curandeiros com o
curso tirado à pressa, que nem distinguem uma unha encravada de um pé partido
se não tiverem a especialidade certa, têm a mania de prescrever às pessoas
enquanto dizem,
– um em jejum, outro
depois do almoço e outro a meio do jantar, não beba, não fume e nada de café,
como se eles quisessem controlar
a minha vida, como se quisessem dizer aquilo que faço ou que ainda posso fazer,
sabe o que é que eu lhes digo?, sabe o que é que eu digo a esses xamãs deste
tempo moderno?, digo-lhes assim,
– vá, bardamerda, senhor
doutor, meta os comprimidos nu cu que eu já percebi que o senhor gosta é de
supositórios,
e digo mesmo, isto não é
conversa, não sou eu aqui, a esta hora, a dizer isto porque sim, não, isto é tão
verdade quanto a sua tristeza profunda. Mas o meu amigo tem cara de que não vai
ao médico desde que nasceu – não estou a dizer que está com mau aspecto, muito
pelo contrário, o meu amigo está com óptimo aspecto – de cada vez que o vejo
parece mais jovem, ou se calhar somos nós todos que estamos a envelhecer mais
depressa, mas por dentro parece mais velho do que eu, por dentro parece que
morreu, que já não diz nada, que já não tem nada para dizer. Ouça, vou
fazer-lhe uma pergunta, posso fazer-lhe uma pergunta?, eu vou fazer-lhe uma
pergunta, que idade é que acha eu tenho? Fico a olhar para si, num Domingo à
noite aqui fechado quando há tanta coisa que podia estar a fazer, tanta coisa
que devia estar a fazer e penso mesmo nisto, que idade é que me dá?. Olhe para
mim, está a olhar?, veja bem, eu tenho setenta e dois anos, setenta e dois. Acredita
nisso? Normalmente dão-me oitenta, mas já me deram noventa e cinco e até já me
disseram que eu pareço uma múmia, que eu me esqueci de morrer, e sabe quem é
que me disse isso?, a minha última mulher. É uma história engraçada. Sabe, as
coisas nunca são aquilo que nós achamos que elas são. Às vezes uma coisa má é
uma coisa boa, e às vezes uma coisa boa é uma coisa má. A minha última mulher –
eu nem consigo dizer o nome dela – sabe onde a conheci?, no casino, aqui ao
lado no Casino do Estoril, isto foi há muitos anos, há mais de trinta, o meu
amigo na altura nem devia ter nascido, e houve uma noite em que eu fui lá, ao
casino, perdido de bêbado porque ainda estava a sofrer, a sofrer mesmo, pela
minha terceira mulher, que me deixou porque eu era um bêbado e andava muito nas
putas, eu era assim, éramos todos assim, eram outros tempos, e ela chorava e eu
dizia,
– Francisquinha, não
chores,
quando chegava a casa a
cheirar a putas e a whisky – ia dizer, a cona e a whisky, veja lá como eu estou
– e lhe fazia uma festa na cara e dizia,
– Francisquinha, não
chores, eu estou aqui,
mas mesmo assim ela foi-se
embora um dia, levou os filhos com ela e deixou-me sozinho sem saber para onde
ir, e houve um dia em que vim aqui, vim aqui parar, aqui mesmo onde estamos
agora, eu estava sentado neste banco onde estou agora sentado, lembro-me
perfeitamente, ao balcão deste bar, sem saber para onde ir, sem saber o que
fazer a não ser pedir mais whisky, e acabei por ir para o casino onde perdi
quinhentos contos, quinhentos contos era dinheiro na altura, ainda é, mas na
altura era muito dinheiro, e eu pensei que a minha vida ia acabar nesse dia,
que tudo estava perdido, que não havia mais nada a fazer a não ser pegar no
carro e ir até à Boca do Inferno, na altura fazia-se muito isso, era moda, não
sei, mas à saída do casino ela pegou-me no braço, vinda não sei de onde, e eu
olhei para ela e percebi que estava perdido quando ela disse,
– onde é que vai?, paga-me
um copo?, perdi tudo,
e voltámos para aqui, para
este mesmo balcão de um bar, e bebemos um copo e um mês depois pedi-lhe em
casamento. E ela disse,
– sim.
E eu fui o homem mais
feliz do mundo durante muito tempo – ainda estivemos juntos vinte anos, mais de
vinte anos. E, na altura, quando contava esta história às pessoas, com ela ao
meu lado, dizia sempre,
– perdi quinhentos contos
mas ganhei o jackpot,
sim, era isso que eu
dizia,
– perdi quinhentos contos
mas ganhei o jackpot.
Depois aconteceu qualquer
coisa. Alguma coisa que não sei o que foi. Talvez tenha sido eu. Talvez tenha
sido qualquer coisa que não compreendo. E agora olho para mim, a viver num
hotel, e não há nada mais triste do que viver num hotel. Garanto-lhe isso, meu
amigo, que não há nada mais triste do que acabar os dias sozinho num quarto de
hotel a lembrar-me que quando ela se foi embora me disse,
– o teu problema é que te
esqueceste de morrer, porque é que não pegas no carro e vais dar um passeio até
à Boca do Inferno?,
e eu sem sequer saber o
que é que eu tinha feito,
– era um favor que fazias
a toda a gente, era um favor que me fazias,
se calhar era só existir. Ela
levou o meu Alfa Romeo que eu adorava e metade do dinheiro e eu fiquei sozinho
com o meu cão, velho como eu, os dois sozinhos e ela, vim a saber mais tarde,
juntou-se com um desses fulanos da pândega que põem música em discotecas.
Por isso, tudo o que é bom
acaba por ser mau, e tudo o que é mau, acaba por ser bom. Quando olho para trás,
só penso que aqueles quinhentos contos que perdi podiam ter sido uma bênção,
mas não, foram a minha maldição, percebe o que estou a dizer?. O meu amigo tem
de perceber que essa tristeza profunda não o vai levar a lado nenhum, que isso é
passageiro, que talvez seja até o princípio da felicidade, que se calhar tem
tudo à sua frente, é jovem, é educado, sei que é um homem culto, falaram-me
sobre si no outro dia, que escreve umas coisas, e como eu tenho um computador
em casa fui ver aquilo que escreve. E tenho de agradecer-lhe aquilo que
escreveu sobre mim, achei muito simpático, com alguma elegância, não é nenhum
Eça e está longe de um Garrett, mas gostei, só lhe peço uma coisa, que não
volte a escrever sobre mim, escreva sobre si, escreva sobre ela, mas não
escreva sobre mim. Eu sou só um homem a quem fizeram mal a vida inteira, só
isso.