segunda-feira, 26 de novembro de 2018

DORIAN GRAY

Olho para si e cada vez que o vejo parece que está pior. Por fora está óptimo, mas eu olho para si e vejo-o por dentro, vejo bem o que aí está, o que está aí dentro. O meu amigo parece que sofre de tristeza profunda e que todos os dias está pior, se houvesse uma doença para si ia chamar-se assim, tristeza profunda. Se um dia fosse ao médico, se um dia fosse ao hospital porque já não aguentava mais estar assim e um dia, em casa, talvez sentado no sofá depois de muitas horas quieto a olhar em frente pensasse,
– não aguento mais isto,
e no hospital lhe indicassem um médico que o visse, que olhasse para si e o auscultasse e lhe pedisse para dizer,
– ah,
enquanto abria a boca, de certeza que ia ouvir o médico dizer,
– tristeza profunda,
quando lhe transmitisse o diagnóstico, e depois talvez alguma cura milagrosa que esses charlatães – charlatães ou charlatões?, bem, também não interessa – esses curandeiros com o curso tirado à pressa, que nem distinguem uma unha encravada de um pé partido se não tiverem a especialidade certa, têm a mania de prescrever às pessoas enquanto dizem,
– um em jejum, outro depois do almoço e outro a meio do jantar, não beba, não fume e nada de café,
como se eles quisessem controlar a minha vida, como se quisessem dizer aquilo que faço ou que ainda posso fazer, sabe o que é que eu lhes digo?, sabe o que é que eu digo a esses xamãs deste tempo moderno?, digo-lhes assim,
– vá, bardamerda, senhor doutor, meta os comprimidos nu cu que eu já percebi que o senhor gosta é de supositórios,
e digo mesmo, isto não é conversa, não sou eu aqui, a esta hora, a dizer isto porque sim, não, isto é tão verdade quanto a sua tristeza profunda. Mas o meu amigo tem cara de que não vai ao médico desde que nasceu – não estou a dizer que está com mau aspecto, muito pelo contrário, o meu amigo está com óptimo aspecto – de cada vez que o vejo parece mais jovem, ou se calhar somos nós todos que estamos a envelhecer mais depressa, mas por dentro parece mais velho do que eu, por dentro parece que morreu, que já não diz nada, que já não tem nada para dizer. Ouça, vou fazer-lhe uma pergunta, posso fazer-lhe uma pergunta?, eu vou fazer-lhe uma pergunta, que idade é que acha eu tenho? Fico a olhar para si, num Domingo à noite aqui fechado quando há tanta coisa que podia estar a fazer, tanta coisa que devia estar a fazer e penso mesmo nisto, que idade é que me dá?. Olhe para mim, está a olhar?, veja bem, eu tenho setenta e dois anos, setenta e dois. Acredita nisso? Normalmente dão-me oitenta, mas já me deram noventa e cinco e até já me disseram que eu pareço uma múmia, que eu me esqueci de morrer, e sabe quem é que me disse isso?, a minha última mulher. É uma história engraçada. Sabe, as coisas nunca são aquilo que nós achamos que elas são. Às vezes uma coisa má é uma coisa boa, e às vezes uma coisa boa é uma coisa má. A minha última mulher – eu nem consigo dizer o nome dela – sabe onde a conheci?, no casino, aqui ao lado no Casino do Estoril, isto foi há muitos anos, há mais de trinta, o meu amigo na altura nem devia ter nascido, e houve uma noite em que eu fui lá, ao casino, perdido de bêbado porque ainda estava a sofrer, a sofrer mesmo, pela minha terceira mulher, que me deixou porque eu era um bêbado e andava muito nas putas, eu era assim, éramos todos assim, eram outros tempos, e ela chorava e eu dizia,
– Francisquinha, não chores,
quando chegava a casa a cheirar a putas e a whisky – ia dizer, a cona e a whisky, veja lá como eu estou – e lhe fazia uma festa na cara e dizia,
– Francisquinha, não chores, eu estou aqui,
mas mesmo assim ela foi-se embora um dia, levou os filhos com ela e deixou-me sozinho sem saber para onde ir, e houve um dia em que vim aqui, vim aqui parar, aqui mesmo onde estamos agora, eu estava sentado neste banco onde estou agora sentado, lembro-me perfeitamente, ao balcão deste bar, sem saber para onde ir, sem saber o que fazer a não ser pedir mais whisky, e acabei por ir para o casino onde perdi quinhentos contos, quinhentos contos era dinheiro na altura, ainda é, mas na altura era muito dinheiro, e eu pensei que a minha vida ia acabar nesse dia, que tudo estava perdido, que não havia mais nada a fazer a não ser pegar no carro e ir até à Boca do Inferno, na altura fazia-se muito isso, era moda, não sei, mas à saída do casino ela pegou-me no braço, vinda não sei de onde, e eu olhei para ela e percebi que estava perdido quando ela disse,
– onde é que vai?, paga-me um copo?, perdi tudo,
e voltámos para aqui, para este mesmo balcão de um bar, e bebemos um copo e um mês depois pedi-lhe em casamento. E ela disse,
– sim.
E eu fui o homem mais feliz do mundo durante muito tempo – ainda estivemos juntos vinte anos, mais de vinte anos. E, na altura, quando contava esta história às pessoas, com ela ao meu lado, dizia sempre,
– perdi quinhentos contos mas ganhei o jackpot,
sim, era isso que eu dizia,
– perdi quinhentos contos mas ganhei o jackpot.
Depois aconteceu qualquer coisa. Alguma coisa que não sei o que foi. Talvez tenha sido eu. Talvez tenha sido qualquer coisa que não compreendo. E agora olho para mim, a viver num hotel, e não há nada mais triste do que viver num hotel. Garanto-lhe isso, meu amigo, que não há nada mais triste do que acabar os dias sozinho num quarto de hotel a lembrar-me que quando ela se foi embora me disse,
– o teu problema é que te esqueceste de morrer, porque é que não pegas no carro e vais dar um passeio até à Boca do Inferno?,
e eu sem sequer saber o que é que eu tinha feito,
– era um favor que fazias a toda a gente, era um favor que me fazias,
se calhar era só existir. Ela levou o meu Alfa Romeo que eu adorava e metade do dinheiro e eu fiquei sozinho com o meu cão, velho como eu, os dois sozinhos e ela, vim a saber mais tarde, juntou-se com um desses fulanos da pândega que põem música em discotecas.
Por isso, tudo o que é bom acaba por ser mau, e tudo o que é mau, acaba por ser bom. Quando olho para trás, só penso que aqueles quinhentos contos que perdi podiam ter sido uma bênção, mas não, foram a minha maldição, percebe o que estou a dizer?. O meu amigo tem de perceber que essa tristeza profunda não o vai levar a lado nenhum, que isso é passageiro, que talvez seja até o princípio da felicidade, que se calhar tem tudo à sua frente, é jovem, é educado, sei que é um homem culto, falaram-me sobre si no outro dia, que escreve umas coisas, e como eu tenho um computador em casa fui ver aquilo que escreve. E tenho de agradecer-lhe aquilo que escreveu sobre mim, achei muito simpático, com alguma elegância, não é nenhum Eça e está longe de um Garrett, mas gostei, só lhe peço uma coisa, que não volte a escrever sobre mim, escreva sobre si, escreva sobre ela, mas não escreva sobre mim. Eu sou só um homem a quem fizeram mal a vida inteira, só isso.

segunda-feira, 19 de novembro de 2018

4

E é isso, o tempo passa. E ela agora está quase com uma barriga de seis meses porque, de repente, já se passaram quase três desde que ela me disse,
– vais ser tio outra vez,
enquanto estávamos todos em casa do David.
Eu digo-lhe,
– estás tão bonita,
quando a vejo a sair de casa, com o Pedro ao lado, a abrir-lhe a porta
e damos abraços
somos pessoas de abraços, eu não, eu não sou uma pessoa de abraços, mas ao lado deles consigo ser, consigo olhar para eles e sorrir e pensar,
– ainda bem que tudo lhes correu bem.
O David está em Braga ou em Bragança, ninguém sabe ao certo, uma cidade qualquer que começa com B, talvez Beja, a fazer teatro infantil porque precisa de ganhar dinheiro para ter dinheiro ao fim do mês. O Pedro mandou embora os locatários e fala-me entusiasmado do escritório que está a montar num dos quartos vagos,
– agora tenho um escritório,
diz ele enquanto se agarra a ela e ela se ri para ele e depois se ri para mim,
– e tu,
pergunta ela,
– como estás tu?,
e eu olho para cima, para a Lua, e digo,
– no mesmo sítio, estou no mesmo sítio.
Vamos a um bar em Lisboa, eu fui buscá-los de carro a casa, damos abraços e vamos a um bar em Lisboa, não vinha a Lisboa há não sei quanto tempo, cada vez detesto mais Lisboa e quando começo a pensar que daqui a nada vou voltar a viver aqui começo a pensar que mais vale
mas ela diz,
– parece que rejuvenesceste dez anos, olha para ti, estás óptimo,
agora toda a gente acha que estou com óptimo aspecto, ela, a minha irmã, a minha sobrinha, as amigas da minha sobrinha,
– o tio tem de sair connosco,
que são as únicas pessoas que me tratam por “tio”, porque os meus sobrinhos continuam a tratar-me por,
– Miguel,
e a achar que eu sou uma espécie de irmão mais velho, o desmiolado da família,
parece que todas se juntaram em segredo e combinaram dizer,
– estás óptimo,
num espécie de plano maquiavélico para me levarem a acreditar que estou óptimo, quando na verdade,
– sinto-me péssimo,
digo eu,
– sinto-me como nunca me senti, por dentro estou como nunca estive, já me senti um cadáver deitado numa morgue, já me senti um morto que continuava a andar pela rua, já me senti como alguém a quem o coração deixou de bater e continuava a viver a vida que todos vivemos, mas nunca me senti assim, nunca estive assim, como se me tivessem arrancado a alma e eu fosse só um corpo que vai dar aulas, que vai almoçar e ao supermercado e isso tudo, e depois chega a casa e faz o jantar e a seguir ao jantar vai beber um copo, um café e um copo, e depois volta para casa e antes de adormecer fica muito tempo a olhar em redor a pensar,
– foi isto que te aconteceu,
enquanto o passado começa a ganhar forma e eu continuo a desaparecer.
– É uma boa frase,
digo eu,
– é a única coisa que tenho,
digo eu,
– sim,
digo eu.
Estamos num bar em Lisboa, e está muita gente no bar, é uma festa. Isto foi há uns dias, estamos a pedir mais um copo de vinho, o vinho não presta mas estamos a pedir mais um, eu estou a ficar cansado, eu quero ir para casa, quero sair dali, quero ir-me embora, e enquanto estamos ali, enquanto estamos ali à espera de mais uma bebida, ela pega na minha mão e diz,
– olha para mim, já viste como estou?,
e eu olho para ela com uma barriga de quase seis meses,
– já viste como a nossa vida mudou?, achas estranho estar aqui?, achas estranho tudo ter mudado menos tu?,
diz ela,
– olha para ti,
diz ela,
– o tempo passa,
diz ela,
– quando é que vais mudar?

quinta-feira, 15 de novembro de 2018

QUARTO CRESCENTE

Acho que a última coisa que te ouvi dizer (não é verdade, mas é assim que gosto de me lembrar das coisas) foi,
– vai ficar tudo bem,
e eu olhei para ti e perguntei,
– quando?,
e já não me lembro se disseste,
– não sei,
(claro que me lembro) ou se apenas abriste a porta do carro e te foste embora, nem sequer me estavas a segurar na mão, lembrei-me agora disso, que nem sequer estavas a segurar na minha mão.
O tempo passa e as coisas continuam na mesma, ou continuam a piorar, olho para a frente para o tempo à minha frente e penso que daqui a dois ou três meses vou estar sentado a esta mesma hora, nesta mesma cadeira, como o mesmo ecrã à minha frente a escrever qualquer coisa como,
– quem me dera estar como eu estava há dois ou três meses, na altura nem sabia mas estava muito melhor do que estou agora,
mas o pior é que sei e por isso tento aproveitar os dias, tento sair à rua, falar com as pessoas, rir-me do que os outros dizem, mas acabo sempre sozinho encostado a qualquer coisa, uma parede de um prédio, um candeeiro de rua, o umbral de uma porta que dá para um jardim, enquanto acendo um cigarro, olho para cima e digo depois de te ver,
porque na verdade não digo nada, apenas fico a olhar para ti, à espera que tu fales comigo. E se calhar não dizes nada porque também estás à espera que seja eu a falar contigo. Depois acendo um cigarro, e depois, como eu não gosto de silêncios, atiro o cigarro para o meio da rua e vou para casa.
Às vezes acho que estou a perder a cabeça, que não estou bem, que há qualquer coisa de errado a crescer dentro de mim. Há bocado, por exemplo, à porta do meu prédio, olhei para os números do código de entrada e não me conseguia lembrar de nada, de nada mesmo. Era um vazio total. Nem sequer uma vaga recordação. Nem o primeiro número, nem quantos eram, e enquanto tentava sequências aleatórias que resultavam sempre num,
– bzzzzzt,
em que a porta se matinha fechada, só pensava,
– mas o que é que eu vou fazer à minha vida?, vou ficar aqui sem conseguir entrar?, será que nunca mais vou conseguir lembrar-me de como posso entrar em casa?, será que vou ficar para sempre na rua, a dormir ao relento ou sentado no carro porque pelo menos não perdi a chave do carro?,
enquanto procurava a chave do carro e a encontrava no bolso e pensava,
– pelo menos tenho a chave do carro, mesmo que não saiba onde ele está, mas não pode estar longe, é uma questão de o encontrar.
Depois pensei que se calhar estava num sonho e que nos sonhos as coisas não têm de fazer sentido, e por isso depois de vinte tentativas a carregar em números ao calhas e no enter a ouvir sempre o mesmo,
– bzzzzzt,
decidi tocar à minha porta, tocar para mim mesmo na esperança que eu estivesse em casa e me abrisse a porta, ao mesmo tempo que chegou à porta do prédio um homem que disse,
– boa noite,
e eu,
– boa noite, esqueci-me do código, veja lá que estupidez, estou aqui há uns dez minutos e não consigo entrar em casa, não me consigo lembrar mesmo, há um vazio na minha cabeça, não sei o que se passa, é como se me tivessem tirado uma parte do cérebro e estou aqui, com frio, à espera de uma solução para um problema que não sei resolver, até toquei à campainha de minha casa na esperança que esteja lá alguém, já viu que estupidez?, deve ser da noite, desta hora da noite ou do cansaço disto tudo,
– pois,
disse o homem enquanto carregava nos botões e uma voz feminina dizia,
– quem é?,
e eu,
– sou eu,
e a porta se abria ao mesmo tempo que o homem carregava no enter, e eu sem saber se eras tu que estavas em minha casa, se eu tinha tocado para o andar errado ou se o homem apenas tinha aberto a porta,
– e sabe ao menos onde vive?,
perguntou ele enquanto olhava para mim,
– sim,
disse eu,
– eu sei onde vivo.
Partilhámos o elevador em silêncio.  Ele saiu antes de mim, eu vivo no último andar, não disse nada ao sair, mesmo depois de eu ter dito,
– obrigado.
Depois abri a porta do elevador e antes de abrir a de casa pensei que talvez estivesse noutro universo, noutro universo em que me abrisses tu a porta em vez de ser eu a abri-la, e me perguntasses,
– porque é que só chegaste a esta hora, já viste que horas são?,
e tivéssemos uma discussão por causa disso.
Mas não, abri a porta e a casa estava vazia, estava escura e em silêncio, não havia nenhuma voz feminina que me perguntasse,
– quem é?,
à minha espera, e eu lembrei-me, lembrei-me de ti a dizeres,
– as coisas vão melhorar,
e eu a olhar para cima, para ti, a atirar o cigarro para a rua e a perguntar,
– quando?

quinta-feira, 8 de novembro de 2018

A NOITE PASSA ATÉ SER MANHÃ ENQUANTO TU NÃO DESAPARECES

Foi porque eu disse,
– eu amo-te,
foi só por causa disso?.
Foi esse momento em que eu olhei para ti e disse,
– eu amo-te,
e tu te assustaste e disseste,
– o quê?,
e eu,
– nada, não disse nada,
e tu,
– eu ouvi o que disseste, porque é que disseste isso?, não devias ter dito isso, devias ter ficado calado, não devias ter aberto a boca para dizer isso, não estava preparada para ouvir isso, não estava mesmo preparada para ouvir isso e agora que o ouvi gostava que não o tivesses dito.
Foi isso?
Foi aí que tudo acabou?, quando eu disse que te amava. Como se o amor fosse uma coisa má, como se amar alguém fosse uma catástrofe.
Foi isso? Porque se foi isso eu posso só gostar de ti, ou gostar muito de ti, ou adorar-te, é só uma questão de semântica.
Mas não é só isso, e eu penso,
– estou agora acordado e tu estás a dormir, somos como dois contrários que se querem encontrar, porque quem está a dormir quer acordar, e quem está acordado quer adormecer.
Eu paro. Eu paro de mentir, eu paro de escrever. Eu olho para o lado. Já não marco o tempo na parede, já me deixei disso. Há apenas uma citação de Strindberg que diz,
– Detesto a humanidade e não consigo estar sozinho. E por isso, é só isso, noites longas, pessoas más, álcool a mais, desespero. Acima de tudo, paralisia.
ao lado de um trevo de quatro folhas que me foi dado há uns anos enquanto me diziam,
– agora vais ter toda a sorte do mundo,
colados na parede. Acho que é uma forma de eu dizer a mim próprio que a sorte vai estar sempre contra mim.
Isto sou eu, a esta hora, a dizer mentiras a mim próprio. Devia ser verdadeiro, devíamos ser todos verdadeiros, como há bocado, sentado ao balcão de um bar, quando um homem com quem simpatizo mas que toda a gente detesta se virou para mim a meio de uma discussão e disse,
– o senhor que é lá dos teatros diga-nos lá se eu não tenho razão, o que é uma tragédia?
Eu estava a jogar o meu jogo no telemóvel, a minha vida agora é assim, dou aulas dois dias por semana e depois jogo o meu jogo no telemóvel e bebo demais, às vezes estou com pessoas, falo com elas, mas é raro, a maior parte das vezes apenas jogo o meu jogo no telemóvel e bebo demais. Eu paro outra vez. Pergunto-me,
– tens a certeza que queres escrever isso?,
e depois continuo,
– bem, Aristóteles,
mas o homem interrompe-me,
– quero lá saber  do Aristóteles, bardamerda para o Aristóteles, falo-lhe de tragédia e ele vem-me com o Aristóteles,
não sei que idade ele tem, dizem-me que parece mais velho do que é, talvez sessenta e tal, setenta anos. Utiliza a palavra,
– bardamerda,
quando quer mesmo ofender alguém,
– vá bardamerda,
ou
– você é um bardamerda,
são frases que este homem diz com frequência ao balcão de um bar, talvez seja por isso que ninguém gosta dele.
– Eu estou a falar da vida, da vida real,
diz ele,
– quero lá saber do Aristóteles, quero lá saber da filosofia, quero lá saber de palavras escritas num papel. O senhor sabe quantas vezes eu fui casado?,
e eu olho para ele depois de desligar o meu jogo,
– não,
digo eu,
– quatro,
diz ele,
– fui casado quatro vezes com quatro mulheres que amei e sabe o que é que elas me deram, sabe?
– não,
digo eu,
– abandono e desilusão,
diz ele,
– foi isso que elas me deram, abandono e desilusão, e por isso estou sozinho, vendi a minha casa, felizmente tenho dinheiro, o meu cão morreu e por isso vendi a minha casa, vendi a minha casa quando o meu cão morreu porque agora já não preciso de espaço, já não preciso de espaço para o meu cão correr mesmo que ele já não corresse porque estava velho como eu, estou a viver num hotel porque assim, pelo menos, não tenho de fazer a cama, nem tenho nada colado na parede, qualquer coisa que eu diga que é meu, vivo num quarto e limpam-me o quarto e dão-me o pequeno-almoço se eu acordar cedo, mas a maior parte das vezes não acordo cedo, e não há nada meu naquele quarto, sou só eu e o quarto, eu e as paredes do quarto e eu a pensar que a tragédia, caro senhor, é isto, é um homem sozinho num quarto de hotel a pensar no abandono e na desilusão, a pensar que a tragédia, a verdadeira tragédia, é dar a felicidade a quem é infeliz e depois retirarem-lhe a felicidade só porque sim, só porque lhes apeteceu, como nos meus quatro casamentos, e depois acabamos a viver num hotel, acabamos sozinhos a viver num hotel, não concorda?, não me venha com o Aristóteles, olho para si ao balcão de um bar a jogar o seu jogo no telemóvel e penso em mim deitado na cama no meu quarto de hotel com a tragédia da minha vida deitada ao meu lado, com esta ideia idiota de que podemos encontrar alguém, alguém que não nos abandone nem nos desiluda, alguém que não nos traga a felicidade para depois a retirar,
– sim,
digo eu,
– tenho de ir,
digo eu,
– boa noite,
digo eu.  

quinta-feira, 1 de novembro de 2018

ESTOCOLMO

Pelo menos está frio outra vez e pelo menos voltou a chover outra vez. Nem tudo é mau. Voltou a estar frio e voltou a chover e por isso agora em vez de me perder em explicações, quando me perguntam,
– o que é que se passa?,
ou
– o que é que tens?,
posso dizer apenas,
– nada, este tempo deita-me abaixo, é este tempo que me deixa com este ar de suicídio. Um tipo olha para cima, para as nuvens, na varanda, para a chuva a cair, num oitavo andar, e o vento e tudo cinzento, tudo cinzento-escuro para onde quer que se olhe, e tem vontade de se atirar dali para baixo ou então de ir dar um passeio ao lado da linha do comboio,
e as pessoas,
– ah, pois, comigo é a mesma coisa, que saudades do Verão,
e eu,
– sim, que saudades do Verão.
Acho que devia viver num país nórdico onde não houvesse sol, ou onde houvesse pouco sol, assim não tinha de dar explicações a ninguém, bastava dizer,
– é este tempo,
e deixava de ouvir dizer as pessoas a dizer,
– este está sempre com ar infeliz,
ou,
– a vida são dois dias.
E nem sequer tem a ver contigo, tem a ver comigo. Não me preocupa nem entristece onde estás ou com quem estás porque, seja como for, não estás aqui nem estás comigo. Preocupa-me e entristece-me onde estou e com quem estou, ou com quem não estou. Preocupa-me e entristece-me chegar a casa e pousar a carteira, a chave do carro, o tabaco e os óculos. Preocupa-me e entristece-me fazer isso, essa única rotina que me resta, a de pousar as coisas no sítio certo, para não as perder, para não perder a carteira, a chave do carro, o tabaco e os óculos, que são as únicas coisas que ainda não perdi.
Devia mudar-me para um país nórdico, com menos sol, onde eu pudesse apenas dizer,
– é o tempo,
em vez de ter de explicar que estou bem, que só quero que me deixem em paz, que só quero estar sossegado, a pensar no que quer que a minha cabeça queira pensar, um país onde eu pudesse dizer,
– este frio dá cabo de mim,
em vez de ter de explicar que te foste embora, que não vais voltar, que sinto a tua falta e que gostava que uma vez houvesse uma coisa que me corresse bem, uma coisa importante, que fizesse a diferença, que mudasse a minha vida, que fizesse com que eu chegasse a casa e pousasse a carteira, a chave do carro, o tabaco e os óculos onde calhasse, porque mesmo que os perdesse isso não faria diferença nenhuma. E por isso devia mudar-me para um país nórdico, para a Suécia, onde está sempre frio mesmo quando está calor.
Estive uma vez na Suécia, era miúdo, e acho que gostei. Lembro-me que estava frio e não parou de chover durante uma semana. E é isso, gostava de ir para a Suécia, ou para qualquer lado onde não haja sol. Se calhar lembrei-me disso porque hoje à tarde, enquanto chovia lá fora, estava deitado no sofá a ver uma série, uma série sueca, e eu deitado no sofá a ver uma série sueca não sou eu deitado no sofá a ver uma série sueca, sou eu a pensar em como é que de repente estou sozinho deitado num sofá a ver uma série sueca, sou eu a pensar na minha vida toda e em como é que tudo acabou assim, comigo a olhar para a televisão e a ver uma mulher sueca a dizer ao marido sueco,
– desculpa, já não te amo,
e ele a olhar para ela um segundo e depois a ir-se embora, a virar as costas e a ir-se embora, sem gritos, sem dor, sem argumentos, ele apenas a ir-se embora e eu a pensar,
– devia ter nascido na Suécia, devia ser sueco.
Entretanto, alguém chega e pergunta o que é que se passa comigo, que estou com ar de quem vai morrer daqui a nada,
– não,
diz outro alguém,
– é só o tempo, ele está assim por causa do tempo, tem saudades do sol,
e eu digo,
– não, tenho saudades da Lua.