– vais ser tio outra vez,
enquanto estávamos todos
em casa do David.
Eu digo-lhe,
– estás tão bonita,
quando a vejo a sair de
casa, com o Pedro ao lado, a abrir-lhe a porta
e damos abraços
somos pessoas de abraços,
eu não, eu não sou uma pessoa de abraços, mas ao lado deles consigo ser,
consigo olhar para eles e sorrir e pensar,
– ainda bem que tudo lhes
correu bem.
O David está em Braga ou
em Bragança, ninguém sabe ao certo, uma cidade qualquer que começa com B,
talvez Beja, a fazer teatro infantil porque precisa de ganhar dinheiro para ter
dinheiro ao fim do mês. O Pedro mandou embora os locatários e fala-me
entusiasmado do escritório que está a montar num dos quartos vagos,
– agora tenho um escritório,
diz ele enquanto se agarra
a ela e ela se ri para ele e depois se ri para mim,
– e tu,
pergunta ela,
– como estás tu?,
e eu olho para cima, para
a Lua, e digo,
– no mesmo sítio, estou no
mesmo sítio.
Vamos a um bar em Lisboa,
eu fui buscá-los de carro a casa, damos abraços e vamos a um bar em Lisboa, não
vinha a Lisboa há não sei quanto tempo, cada vez detesto mais Lisboa e quando
começo a pensar que daqui a nada vou voltar a viver aqui começo a pensar que
mais vale
mas ela diz,
– parece que
rejuvenesceste dez anos, olha para ti, estás óptimo,
agora toda a gente acha
que estou com óptimo aspecto, ela, a minha irmã, a minha sobrinha, as amigas da
minha sobrinha,
– o tio tem de sair connosco,
que são as únicas pessoas que
me tratam por “tio”, porque os meus sobrinhos continuam a tratar-me por,
– Miguel,
e a achar que eu sou uma
espécie de irmão mais velho, o desmiolado da família,
parece que todas se
juntaram em segredo e combinaram dizer,
– estás óptimo,
num espécie de plano
maquiavélico para me levarem a acreditar que estou óptimo, quando na verdade,
– sinto-me péssimo,
digo eu,
– sinto-me como nunca me
senti, por dentro estou como nunca estive, já me senti um cadáver deitado numa
morgue, já me senti um morto que continuava a andar pela rua, já me senti como
alguém a quem o coração deixou de bater e continuava a viver a vida que todos
vivemos, mas nunca me senti assim, nunca estive assim, como se me tivessem
arrancado a alma e eu fosse só um corpo que vai dar aulas, que vai almoçar e ao
supermercado e isso tudo, e depois chega a casa e faz o jantar e a seguir ao
jantar vai beber um copo, um café e um copo, e depois volta para casa e antes
de adormecer fica muito tempo a olhar em redor a pensar,
– foi isto que te
aconteceu,
enquanto o passado começa
a ganhar forma e eu continuo a desaparecer.
– É uma boa frase,
digo eu,
– é a única coisa que
tenho,
digo eu,
– sim,
digo eu.
Estamos num bar em Lisboa,
e está muita gente no bar, é uma festa. Isto foi há uns dias, estamos a pedir
mais um copo de vinho, o vinho não presta mas estamos a pedir mais um, eu estou
a ficar cansado, eu quero ir para casa, quero sair dali, quero ir-me embora, e
enquanto estamos ali, enquanto estamos ali à espera de mais uma bebida, ela
pega na minha mão e diz,
– olha para mim, já viste
como estou?,
e eu olho para ela com uma
barriga de quase seis meses,
– já viste como a nossa
vida mudou?, achas estranho estar aqui?, achas estranho tudo ter mudado menos
tu?,
diz ela,
– olha para ti,
diz ela,
– o tempo passa,
diz ela,
– quando é que vais mudar?
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