quinta-feira, 8 de novembro de 2018

A NOITE PASSA ATÉ SER MANHÃ ENQUANTO TU NÃO DESAPARECES

Foi porque eu disse,
– eu amo-te,
foi só por causa disso?.
Foi esse momento em que eu olhei para ti e disse,
– eu amo-te,
e tu te assustaste e disseste,
– o quê?,
e eu,
– nada, não disse nada,
e tu,
– eu ouvi o que disseste, porque é que disseste isso?, não devias ter dito isso, devias ter ficado calado, não devias ter aberto a boca para dizer isso, não estava preparada para ouvir isso, não estava mesmo preparada para ouvir isso e agora que o ouvi gostava que não o tivesses dito.
Foi isso?
Foi aí que tudo acabou?, quando eu disse que te amava. Como se o amor fosse uma coisa má, como se amar alguém fosse uma catástrofe.
Foi isso? Porque se foi isso eu posso só gostar de ti, ou gostar muito de ti, ou adorar-te, é só uma questão de semântica.
Mas não é só isso, e eu penso,
– estou agora acordado e tu estás a dormir, somos como dois contrários que se querem encontrar, porque quem está a dormir quer acordar, e quem está acordado quer adormecer.
Eu paro. Eu paro de mentir, eu paro de escrever. Eu olho para o lado. Já não marco o tempo na parede, já me deixei disso. Há apenas uma citação de Strindberg que diz,
– Detesto a humanidade e não consigo estar sozinho. E por isso, é só isso, noites longas, pessoas más, álcool a mais, desespero. Acima de tudo, paralisia.
ao lado de um trevo de quatro folhas que me foi dado há uns anos enquanto me diziam,
– agora vais ter toda a sorte do mundo,
colados na parede. Acho que é uma forma de eu dizer a mim próprio que a sorte vai estar sempre contra mim.
Isto sou eu, a esta hora, a dizer mentiras a mim próprio. Devia ser verdadeiro, devíamos ser todos verdadeiros, como há bocado, sentado ao balcão de um bar, quando um homem com quem simpatizo mas que toda a gente detesta se virou para mim a meio de uma discussão e disse,
– o senhor que é lá dos teatros diga-nos lá se eu não tenho razão, o que é uma tragédia?
Eu estava a jogar o meu jogo no telemóvel, a minha vida agora é assim, dou aulas dois dias por semana e depois jogo o meu jogo no telemóvel e bebo demais, às vezes estou com pessoas, falo com elas, mas é raro, a maior parte das vezes apenas jogo o meu jogo no telemóvel e bebo demais. Eu paro outra vez. Pergunto-me,
– tens a certeza que queres escrever isso?,
e depois continuo,
– bem, Aristóteles,
mas o homem interrompe-me,
– quero lá saber  do Aristóteles, bardamerda para o Aristóteles, falo-lhe de tragédia e ele vem-me com o Aristóteles,
não sei que idade ele tem, dizem-me que parece mais velho do que é, talvez sessenta e tal, setenta anos. Utiliza a palavra,
– bardamerda,
quando quer mesmo ofender alguém,
– vá bardamerda,
ou
– você é um bardamerda,
são frases que este homem diz com frequência ao balcão de um bar, talvez seja por isso que ninguém gosta dele.
– Eu estou a falar da vida, da vida real,
diz ele,
– quero lá saber do Aristóteles, quero lá saber da filosofia, quero lá saber de palavras escritas num papel. O senhor sabe quantas vezes eu fui casado?,
e eu olho para ele depois de desligar o meu jogo,
– não,
digo eu,
– quatro,
diz ele,
– fui casado quatro vezes com quatro mulheres que amei e sabe o que é que elas me deram, sabe?
– não,
digo eu,
– abandono e desilusão,
diz ele,
– foi isso que elas me deram, abandono e desilusão, e por isso estou sozinho, vendi a minha casa, felizmente tenho dinheiro, o meu cão morreu e por isso vendi a minha casa, vendi a minha casa quando o meu cão morreu porque agora já não preciso de espaço, já não preciso de espaço para o meu cão correr mesmo que ele já não corresse porque estava velho como eu, estou a viver num hotel porque assim, pelo menos, não tenho de fazer a cama, nem tenho nada colado na parede, qualquer coisa que eu diga que é meu, vivo num quarto e limpam-me o quarto e dão-me o pequeno-almoço se eu acordar cedo, mas a maior parte das vezes não acordo cedo, e não há nada meu naquele quarto, sou só eu e o quarto, eu e as paredes do quarto e eu a pensar que a tragédia, caro senhor, é isto, é um homem sozinho num quarto de hotel a pensar no abandono e na desilusão, a pensar que a tragédia, a verdadeira tragédia, é dar a felicidade a quem é infeliz e depois retirarem-lhe a felicidade só porque sim, só porque lhes apeteceu, como nos meus quatro casamentos, e depois acabamos a viver num hotel, acabamos sozinhos a viver num hotel, não concorda?, não me venha com o Aristóteles, olho para si ao balcão de um bar a jogar o seu jogo no telemóvel e penso em mim deitado na cama no meu quarto de hotel com a tragédia da minha vida deitada ao meu lado, com esta ideia idiota de que podemos encontrar alguém, alguém que não nos abandone nem nos desiluda, alguém que não nos traga a felicidade para depois a retirar,
– sim,
digo eu,
– tenho de ir,
digo eu,
– boa noite,
digo eu.  

Sem comentários: