domingo, 24 de junho de 2018

TIAGO, QUEDA LIVRE

Não via o Tiago há não sei quanto tempo,
quer dizer,
encontrámo-nos num dia qualquer depois do Cassiopeia, no Bairro Alto, mas acho que demos um abraço e não falámos mais do que dois minutos. Ele disse-me que estava a trabalhar à noite no Pavilhão Chinês e que não conseguia ir ver o espectáculo, e eu disse-lhe que não fazia mal e que eu detestava o Pavilhão Chinês, que sempre fui um cliente do Procópio, que quando vivia em Lisboa era cliente do Procópio,
– conheces o Procópio?,
perguntei eu, e ele disse que não, que não conhecia o Procópio,
– vai lá um dia e diz que eu mando um abraço,
disse eu,
– já não devo lá ir há uns dez anos, mas acho que ainda se lembram de mim.
Depois perguntei-lhe como ele estava e ele perguntou-me como eu estava, e mesmo sendo mentira ambos dissemos,
– bem,
e seguimos a noite com quem a tínhamos começado.
Eu gosto do Tiago. Gostava de o ver mais vezes do que vejo. Gostava de estar com ele mais vezes do que estou. Mas a vida é mesmo assim, às vezes estamos no Pavilhão Chinês enquanto outros estão no Procópio.
O Tiago foi meu aluno durante três anos mas só comecei a reparar nele no final do último ano quando ele apresentou um monólogo sobre Lobo Antunes. Foi um ano estranho, esse. Qualquer pessoa que me conhece sabe o que quero dizer com isto. Uma dessas estranhezas foi o Tiago. Passaram-se alguns anos, e por isso já não sei o que ele disse nesse monólogo e nem sequer me consigo lembrar se fui eu que pensei,
– isto não é Lobo Antunes, isto sou eu,
ou se foi alguém ao meu lado que me sussurrou ao ouvido depois de perceber que eu ia começar a chorar,
– isto és tu, meu amigo,
enquanto o Tiago dizia,
– percebes, Zé?,
que é a única coisa que realmente tenho a certeza de ter acontecido, o Tiago olhar para o Zé que estava a assistir e a perguntar-lhe,
– percebes, Zé?,
mesmo que o Zé fosse a Maria José que foi casada com o Lobo Antunes e eu não tivesse começado a chorar e só tivesse percebido o real significado da pergunta alguns meses depois.
Eu e o Tiago temos muitas coisas em comum, mais do que gostaríamos de ter. Eu olho para ele e vejo-me quando era novo e ele olha para mim e espero que ele veja tudo o que não quer ser.
Os anos passam e talvez o pior não seja isso, talvez o pior seja perder
(ia escrever
– esperança
mas não é esperança)
a vontade, a vontade de fazer as coisas, a vontade de lutar por elas, a vontade de as conseguir.
Vi o Tiago há dois dias. Pareceu-me bem, o Tiago pareceu-me bem. Ele estava bem, orgulhoso. Eu também estava orgulhoso. Estávamos a caminhar pelo Príncipe Real. Falámos um pouco mais. Voltámos a perguntar,
– e tu, como é que estás?,
e eu voltei a mentir e a dizer,
– bem,
mas ele não mentiu. Ele olhou para mim e disse,
– eu estive mesmo na merda, Miguel. Eu tive uma corda nas mãos.
E essa é a grandeza da juventude, Tiago. É ter uma corda nas mãos e voltar a guardá-la na garagem ou na arrecadação. Porque, quando o tempo passa, és capaz de te levantar de manhã e de pegar no telemóvel. Porque é isso que fazemos, levantamo-nos, pegamos no telemóvel e vamos à casa-de-banho e mijamos para a sanita enquanto vemos se alguém nos disse alguma coisa durante a noite. E todos os dias, a mijar para a sanita, pensamos,
– um dia o telemóvel vai escorregar-me das mãos,
até que um dia ele nos cai das mãos, ele nos cai mesmo das mãos e eu digo
– foda-se,
enquanto ele me cai das mãos para o fundo da sanita, enquanto eu o vejo a cair e a mergulhar no mijo matinal no fundo da sanita e eu fico quieto, a olhar, e continuo a olhar e a rever o que aconteceu, e a pensar,
– que estúpido, que estúpido, que estúpido,
e carrego no autoclismo e depois outra vez, outra vez a carregar no autoclismo, e a ir buscar as luvas da louça e a secá-lo com papel absorvente e ele a deixar de funcionar e o homem da loja de reparações de telemóveis a dizer,
– tem seguro?
e eu,
– não.
E é isso. Mete as mãos no mijo, Tiago. Não hesites.

terça-feira, 19 de junho de 2018

ALGUNS MOMENTOS DE INTIMIDADE

As pessoas preocupam-se, as pessoas preocupam-se e por isso perguntam-me o que tenho feito, que nunca mais disse nada, que ando muito distante que parece que desapareci. Eu digo-lhes que estou a trabalhar. Às vezes, a meio da tarde ou no princípio da noite, o telemóvel toca e um amigo ou a minha sobrinha depois de dizerem,
– então, nunca mais apareceste,
perguntam-me,
– o que é que tens feito?,
e eu digo que estou a trabalhar, que estou cheio de trabalho e que estou a trabalhar.
– Estou cheio de trabalho, estou a trabalhar,
digo eu sentado enquanto olho para a parede, e os meus amigos ou a minha sobrinha dizem que isso é bom, que é bom eu estar a trabalhar, que é bom eu estar cheio de trabalho e estar a trabalhar, mesmo que a verdade seja eu aqui sentado a olhar para a parede, quieto, a pensar em ti, a pensar em ti e em mim deitados na cama, eu a olhar para ti e tu de olhos fechados, eu a fumar um cigarro e tu com a cabeça encostada ao meu peito, eu a dizer,
– tenho de ir buscar o cinzeiro,
e tu,
– amo-te,
enquanto eu olho para ti e penso nestes últimos dias, no que aconteceu nestes últimos dias, no estranho disto tudo, na maneira como as coisas acontecem, na maneira estranha como as coisas acontecem, como acabam por acontecer porque tudo eventualmente acaba mesmo por acontecer.
A minha irmã, ao jantar, depois de eu contar os últimos dias, depois de eu contar a toda a gente ao jantar os últimos dias, disse preocupada a abanar a cabeça,
– sabes bem que a detesto,
e depois,
– mas estás feliz?,
enquanto eu me lembrava de ti deitada a dizeres,
– amo-te,
com a cabeça encostada ao meu peito, eu a procurar o cinzeiro com os olhos, eu preocupado com a cinza que ia cair para cima dos lençóis e tu de olhos fechados a dizeres,
– amo-te,
e eu sorrir para a minha irmã a dizer,
– sim.
Por isso, por muito trabalho que tenha para fazer, nos últimos dias não tenho trabalhado, por muito que tenha para fazer não tenho feito nada a não ser segurar-te na mão, tocar-te no cabelo e olhar para os teus olhos. Sim, não tenho trabalhado porque tenho muito que fazer, de manhã tenho de acordar com um beijo teu, à tarde tenho de te levar a todos os sítios que queres ir e à noite tenho de ouvir música, sentado ao teu lado no chão da sala enquanto falamos sobre deus, o destino ou o universo. E é isso. A minha vida tem sido assim nos últimos dias, sem trabalho mesmo que eu diga que tenho de trabalhar, sem ninguém a não ser eu, tu e a ausência do mundo inteiro.
Ainda ontem estávamos a falar sobre a vida, sobre estarmos vivos. Estávamos a ouvir o último álbum da Jasmine Thompson quando tu disseste,
– tudo está na água,
e depois disseste que a vida começou na água, que o planeta está coberto de água, que o nosso corpo é constituído por água. Disseste que a energia do universo está na água e depois perguntaste se eu já tinha ouvido falar do mestre Ravar Palash,
– já ouviste falar do mestre Ravar Palash?
Eu disse que não.
– Toda a energia do universo está na água,
disseste tu,
– e é verdade, é mesmo verdade. Estava tão infeliz,
disseste tu,
– estava mesmo tão infeliz, nem imaginas como, nada fazia sentido, acordava de manhã e apetecia-me morrer, deitava-me à noite e não queria acordar, e então fiz aquilo que o mestre Ravar Palash chama transmutação da energia pela água.
– A sério?,
disse eu.
E depois contaste-me a teoria do mestre Ravar Palash e de como tinhas pegado num copo de água e tinhas escrito no copo como era o teu presente,
– estou sozinha,
e de como tinhas escrito noutro copo o que querias para o teu futuro,
– estou com o amor da minha  vida,
e de como tinhas despejado a água de um copo para o outro e como tinhas depois bebido a água,
– e agora,
disseste tu,
– não é maravilhoso?, estou aqui contigo.
Abraçaste-me e continuaste a falar sobre a transmutação da energia pela água. Eu disse que não gostava da palavra maravilhoso mas que agora que tinhas falado nisso me lembrava perfeitamente do mestre Ravar Palash. Peguei numa daquelas canetas com que escrevo no quadro nas aulas e que não sei por que razão trago para casa e escrevi num copo,
– estou sóbrio,
depois deitei duas pedras de gelo e whisky. Peguei noutro copo e depois de olhar para ti disse,
– agora repara bem,
enquanto escrevia,
– estou bêbado,
e tu te levantavas e dizias,
– porque é que estás a fazer isso?

E depois, a seguir.

Bem, acho que por muito diferentes que elas sejam, o som da porta a bater é sempre o mesmo.
Isto foi ontem.
Fui a um bar onde me conhecem. Era tarde mas abriram-me a porta. O Francisco atrás do balcão disse,
– então, nunca mais apareceste,
enquanto eu me sentava,
– o costume?,
disse ele,
– sim,
disse eu,
– o costume.

domingo, 3 de junho de 2018

1

Ela olha para mim e pergunta,
– quem é que te fez tanto mal?
E é assim que a história começa – e é uma história longa – numa varanda de Lisboa, à noite, com vista para as traseiras de um prédio cheio de imigrantes africanos e asiáticos e jovens actores que dividem as despesas porque ninguém tem dinheiro para viver sozinho, a olhar para um matagal onde se destaca um limoeiro com ela a perguntar,
– quem é que te fez tanto mal para seres assim?
Eu tinha acabado de contar uma história que me tinha acontecido na noite anterior, já não sei se era inventada ou não,
aliás,
já não sei se aconteceu ou não porque isto foi quase há um ano, mas sei que era com uma Francisca ou uma Maria
(a minha vida está cheia de Franciscas e de Marias)
e que a meio da noite, pela seis ou sete da manhã – portanto, já era de manhã – eu tinha dito à Francisca ou à Maria,
– sabes, Francisca Maria, gosto de ti, mas sou um homem simples, gosto de coisas simples, de silêncios que se prolongam – isto é de uma peça minha, não viste, pois não?, pois… – enfim, de frases que não são ditas, de ouvir a mesma música até à exaustão, de a ouvir vezes sem conta até deixar de a poder ouvir, até a deitar para o lixo porque já não a suporto, não sei se entendes o que quero dizer, mas são seis da manhã e daqui a nada vou dar aulas e lamento dizer isto, mas a verdade é que falas demais, Francisca Maria, falas demais, gemes demais, tudo em ti é a mais, eu tenho aulas daqui a nada e preciso de dormir, se quiseres toma lá cinco euros e vai de táxi para casa, se não quiseres ir de táxi vai a pé e leva os cinco euros na mesma, não julgues que te estou a pagar como se fosses uma puta, não, são só cinco euros, onde é que eu ia às putas com cinco euros?, podes comprar qualquer coisa, sei lá, há livros baratos nas estações de comboios ou então tomas o pequeno-almoço numa dessas pastelarias que abrem cedo, eu não quero cá pequenos-almoços, não quero nada disso, não como o pequeno-almoço desde os meus 15 anos, o meu médico diz que isso me faz mal. Estás a chorar?,
perguntei eu,
– estás a chorar porquê?,
perguntei eu,
– aomenosdizomeunomebemcabrãodemerdaaomenosacertanomeunomefilhodaputa,
disse ela aos gritos enquanto se vestia à pressa, a enfiar as cuecas pelos braços e o soutien pelas pernas,
e eu a enrolar um cigarro,
– detesto gritarias,
e ela a partir coisas, a atirar a minha orquídea para o chão, a rasgar os cartazes de peças antigas na parede,
– filhodaputafilhodaputa, espero que morras, só espero que morras,
e eu sentado no sofá a enrolar um cigarro,
– com essa atitude, nenhum homem te pega.
Ela a pegar no meu copo de whisky e a atirá-lo contra a parede,
e eu sentado no sofá a acender o cigarro,
– a tua irmã ao menos nunca fez isso,
e ela a ir-se embora como todas se vão embora, a bater com a porta como todas batem com a porta. E eu a pensar,
– amanhã, passa-lhe,
e passa mesmo.
– E nem é amanhã, é hoje,
é já hoje.
Isto foi há um ano. Ela está a ouvir esta história e está a ouvir-me a rir a contar esta história. E depois pergunta-me quem é que me fez tanto mal para eu ser assim. Ela pergunta-me,
– quem é que te fez tanto mal?,
e eu olho para ela.
Ela é muito bonita e muito jovem – tem vinte anos, tem vinte anos de beleza e de juventude. E eu estou a olhar para ela e a pensar que eu já não tenho nem aquela beleza nem aquela juventude. E depois ela volta a perguntar,
– quem é que te fez tanto mal para seres assim?,
e eu deixo de rir.