quer dizer,
encontrámo-nos num dia
qualquer depois do Cassiopeia, no Bairro Alto, mas acho que demos um
abraço e não falámos mais do que dois minutos. Ele disse-me que estava a
trabalhar à noite no Pavilhão Chinês e que não conseguia ir ver o espectáculo,
e eu disse-lhe que não fazia mal e que eu detestava o Pavilhão Chinês, que
sempre fui um cliente do Procópio, que quando vivia em Lisboa era cliente do
Procópio,
– conheces o Procópio?,
perguntei eu, e ele disse
que não, que não conhecia o Procópio,
– vai lá um dia e diz que
eu mando um abraço,
disse eu,
– já não devo lá ir há uns
dez anos, mas acho que ainda se lembram de mim.
Depois perguntei-lhe como
ele estava e ele perguntou-me como eu estava, e mesmo sendo mentira ambos
dissemos,
– bem,
e seguimos a noite com
quem a tínhamos começado.
Eu gosto do Tiago. Gostava
de o ver mais vezes do que vejo. Gostava de estar com ele mais vezes do que
estou. Mas a vida é mesmo assim, às vezes estamos no Pavilhão Chinês enquanto outros
estão no Procópio.
O Tiago foi meu aluno
durante três anos mas só comecei a reparar nele no final do último ano quando
ele apresentou um monólogo sobre Lobo Antunes. Foi um ano estranho, esse.
Qualquer pessoa que me conhece sabe o que quero dizer com isto. Uma dessas
estranhezas foi o Tiago. Passaram-se alguns anos, e por isso já não sei o que
ele disse nesse monólogo e nem sequer me consigo lembrar se fui eu que pensei,
– isto não é Lobo Antunes,
isto sou eu,
ou se foi alguém ao meu
lado que me sussurrou ao ouvido depois de perceber que eu ia começar a chorar,
– isto és tu, meu amigo,
enquanto o Tiago dizia,
– percebes, Zé?,
que é a única coisa que
realmente tenho a certeza de ter acontecido, o Tiago olhar para o Zé que estava
a assistir e a perguntar-lhe,
– percebes, Zé?,
mesmo que o Zé fosse a
Maria José que foi casada com o Lobo Antunes e eu não tivesse começado a chorar
e só tivesse percebido o real significado da pergunta alguns meses
depois.
Eu e o Tiago temos muitas
coisas em comum, mais do que gostaríamos de ter. Eu olho para ele e vejo-me
quando era novo e ele olha para mim e espero que ele veja tudo o que não quer
ser.
Os anos passam e talvez o
pior não seja isso, talvez o pior seja perder
(ia escrever
– esperança
mas não é esperança)
a vontade, a vontade de
fazer as coisas, a vontade de lutar por elas, a vontade de as conseguir.
Vi o Tiago há dois dias.
Pareceu-me bem, o Tiago pareceu-me bem. Ele estava bem, orgulhoso. Eu também
estava orgulhoso. Estávamos a caminhar pelo Príncipe Real. Falámos um pouco
mais. Voltámos a perguntar,
– e tu, como é que estás?,
e eu voltei a mentir e a
dizer,
– bem,
mas ele não mentiu. Ele
olhou para mim e disse,
– eu estive mesmo na
merda, Miguel. Eu tive uma corda nas mãos.
E essa é a grandeza da
juventude, Tiago. É ter uma corda nas mãos e voltar a guardá-la na garagem ou
na arrecadação. Porque, quando o tempo passa, és capaz de te levantar de manhã
e de pegar no telemóvel. Porque é isso que fazemos, levantamo-nos, pegamos no
telemóvel e vamos à casa-de-banho e mijamos para a sanita enquanto vemos se alguém
nos disse alguma coisa durante a noite. E todos os dias, a mijar para a sanita,
pensamos,
– um dia o telemóvel vai
escorregar-me das mãos,
até que um dia ele nos cai
das mãos, ele nos cai mesmo das mãos e eu digo
– foda-se,
enquanto ele me cai das mãos
para o fundo da sanita, enquanto eu o vejo a cair e a mergulhar no mijo matinal
no fundo da sanita e eu fico quieto, a olhar, e continuo a olhar e a rever o
que aconteceu, e a pensar,
– que estúpido, que estúpido, que estúpido,
e carrego no autoclismo e
depois outra vez, outra vez a carregar no autoclismo, e a ir buscar as luvas da
louça e a secá-lo com papel absorvente e ele a deixar de funcionar e o homem da
loja de reparações de telemóveis a dizer,
– tem seguro?
e eu,
– não.
E é isso. Mete as mãos no
mijo, Tiago. Não hesites.
1 comentário:
"...ter uma corda nas mãos e voltar a guardá-la..." adorei! Vou guardar comigo esta imagem. Obrigada Miguel!
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