terça-feira, 28 de agosto de 2018

QUINTO ANDAR, DIREITO

Só houve duas vezes na minha vida em que me ajoelhei e pedi ajuda a Deus. Em nenhuma delas Ele me respondeu, em nenhuma delas me senti preenchido, reconfortado, cheio de qualquer coisa, se calhar em ambas me senti ainda mais vazio do que me sentia, mas só numa delas, que é agora, isto, no dia a seguir, Lhe escrevi o nome com maiúscula.
É engraçado porque eu estou a olhar para cima e tu estás a olhar para baixo. Já passa da meia-noite e eu não te consigo ver, há um candeeiro que te ofusca, vejo só uma silhueta, pouco mais do que isso. Estamos a cinco andares de distância, eu cá em baixo e tu lá em cima, eu pergunto-te se me consegues ver e tu responde ao telefone,
– sabes que eu sem lentes não consigo ver nada.
E eu fico a olhar para cima, os olhos postos em ti, sem saber se isto é uma metáfora, uma piada ou apenas qualquer coisa que vivemos há muitos anos, numa outra vida, quando pessoas como eu se punham a olhar para cima para pessoas como tu, e elas, as pessoas como tu, diziam,
– escreve,
e eles, as pessoas como eu, iam para casa e escreviam sobre elas, e escreviam sobre o amor.
Se calhar não mudou muita coisa, se calhar continua tudo na mesma,
– se calhar a história do mundo são só duas pessoas apaixonadas, é só um grande amor,
penso eu enquanto olho para cima, para ti, e pergunto-te ao telefone,
– no que é que estás a pensar?,
e tu dizes,
– não sei, estou a pensar em ti, estou a pensar em mim, estou a pensar em nós os dois. Estou a pensar em tudo o que passou, estou a pensar em ti aí em baixo e em mim aqui em cima, achas que é uma coincidência?, achas que já vivemos isso?  Disseste-me isso uma vez. Não acreditei em ti. Disseste que achavas que já me conhecias, que me conhecias de outra vida, disseste que achavas que o meu nome não é o meu nome, que eu tinha outro nome, já te lembraste disso?, já te lembraste desse nome?, já te lembraste de mim? Não sei. É difícil acreditar em ti. Percebes que é difícil acreditar em ti? Percebes que me sinto vazia, que a minha vida até agora não foi fácil, que a maior parte das vezes quero morrer? Percebes isso? Não sei. Não sei se tenho mais medo que fiques ou que vás embora. Porque não sei. Eu quero que fiques, eu quero mesmo que fiques. Mas também quero que vás embora, quero mesmo. Desculpa. Isto não é justo. Não é justo para ti, não é justo para mim. Isto só não é justo. Vivemos e vivemos  e parece que fazemos tudo mal, que tudo nos sai ao contrário, e estou aqui, a falar contigo, e nem sequer posso descer, nem sequer posso ir ter contigo e dizer-te estas coisas, e eu não acho que isso seja justo, nem para ti nem para mim, não acho que seja justo eu estar a dizer estas coisas e eu estar aqui e tu estares aí e não podermos estar os dois, não podermos estar os dois como devíamos estar, porque eu não quero falar disto a cinco andares de distância, eu não quero dizer estas coisas sem conseguir ver-te, pareces uma mancha que se confunde com o asfalto, não quero isso. Quero-te ao meu lado, não sei, desculpa, talvez não te queira ao meu lado. Só não te quero a esta distância, só não te quero tão longe.
Depois ela calou-se. Eu não disse nada. Ela disse,
– estás a ouvir-me?, ainda estás a ouvir-me?,
e eu disse,
– sim, estou aqui.
Depois ela disse que eu devia ir para casa, que falávamos depois. Eu disse que devia começar a cantar, ao menos gritar o nome dela, mas ela disse que não, que não podia fazer isso e por isso não cantei nem gritei o nome dela.
E eu fui para casa.
Antes de me deitar, ao espelho, olho para mim e acho que estou gordo, acho que estou velho. Olho para o espelho e olho para mim. Penso no que me pode salvar. Penso em Deus a intervir na minha vida, penso no disparate que isso é, na mentira, no porquê?, mas,
mesmo assim
ajoelho-me
e digo
– tem misericórdia de mim,
enquanto olho para cima,
são só cinco andares.

quarta-feira, 22 de agosto de 2018

ELE

– Eu disse-te que estavas a sonhar, anormal de merda, estavas à espera de quê?,
diz o António, que é um gato.
Eu não tenho muito mais a fazer que não seja olhar para o António, que é um gato, e ouvi-lo dizer,
– eu disse-te para acordares, não acreditaste em mim porquê?, porque sou um gato?, olha para ti, não percebeste o quê, o que um mongolóide tinha percebido em dois minutos?, eu quando olhei para ela percebi logo que havia qualquer coisa que não estava bem, que havia qualquer coisa que estava mal, hahaha, até perguntei se ela era cega para estar com um trambolho como tu, não foi?, o que é que disse?,
e eu a lembrar-me do António, que é um gato, a dizer,
– desculpa, invisual,
enquanto ela lhe fazia festas na barriga e dizia,
– que lindo,
no dia em que foi lá a casa, e eu,
– o quê?
e o António, que é um gato, enquanto ela lhe fazia festas na barriga,
– foda-se, ela é um avião, o que é que está a fazer com um cabeça de caralho como tu?, ui, faz isso, baby,
e ela para mim,
– o quê, o quê?,
e eu,
– nada,
enquanto dava um pontapé no António, que é um gato, e dizia,
– ele tem pulgas,
e o António, que é um gato, fugia para a cozinha e dizia,
– vai-te foder, paneleiro, logo à noite arranco-te os olhos a meio do sono,
e eu,
– nem sequer tens unhas!,
e ela,
– estou a tentar parar de roê-las, porque é que estás a ser assim?,
e eu,
– desculpa.
Isto foi há uma semana.
Uma semana pode ser muito tempo.
A minha irmã foi para Tróia e por isso eu fiquei uma semana em casa dela, a tomar conta do António, que é um gato, que por alguma razão, não sei quando, começou a falar. Ele começou a falar e eu nem me dei ao trabalho de tentar perceber porque é que isso aconteceu, porque é que um gato começou a falar comigo enquanto a minha irmã decidiu ir para Tróia,
– se calhar é porque tens tanta sede,
diz o António, que é um gato, deitado na mesa à minha frente,
– vais morrer de sede, tu?,
e eu,
– não tens nada para fazer?, acho que vi um rato a passear na varanda, deixei a janela aberta,
e o António que é um gato,
– já dormi, já comi e já caguei, quando é que me vais limpar a merda da areia?, deixei-te lá uma poia, pode ser que te faça lembrar de alguma coisa, não sei se estás a perceber do que eu estou a falar,
e eu a estender o indicador em frente do focinho dele,
– tu tem cuidado,
digo eu,
– é bom que tenhas cuidado e que mordas a língua, outra dessas, faço-te em cabidela e dou-te ao cão do vizinho,
e o António, que é um gato, a levantar-se na mesa, a passear na mesa, a olhar para a mim e a rir-se na mesa,
– não serves para nada, nem para dar sangue.
Isto foi ontem.
Um dia pode ser muito tempo.
Hoje, quando cheguei a casa da minha irmã, o António, que é um gato, disse quando abri a porta e olhou para mim,
– o que é que se passa, palhaço?, estás com pior aspecto do que é costume,
e eu,
– há dias assim, António, há dias em que tudo nos sai ao contrário, em que nada faz sentido, há dias em que não nos sobra nada, há dias em que mesmo quando chegamos a casa nos sentimos tão sozinhos que quase parecemos ter enlouquecido,
isto foi agora mesmo, na minha varanda, ainda com a chave de casa na mão, a olhar para ela,
– devo ter deixado a porta aberta,
penso,
enquanto tu dormes, o sol se ergue e o António diz ao lado da minha irmã que não está em Tróia,
– desta vez fodeste tudo, fodeste mesmo tudo, estás satisfeito?, 
e eu,
– não sei, acho que estou a enlouquecer,
e o António, 
– porque é que achas que estás a falar com um gato?   

O PRIMEIRO DIA

Caro Manel,

pode parecer estranho escrever-te uma carta quando ainda mal consegues abrir os olhos, e talvez pareça ainda mais estranho porque durante muito tempo não a vais conseguir ler e depois durante muito tempo não a vais conseguir perceber, mas eu tenho este hábito, se calhar porque estou a escrever a mim próprio e não a ti, mas mesmo assim vou escrevê-la e esperar que daqui a vinte anos possas estar a lê-la e talvez a perceber-me, que se calhar é a única coisa que alguma vez quis das pessoas.
Quando tiveres 20 anos, quando estiveres a ler isto, é provável que eu já não exista, que talvez seja só uma memória que o teu pai recorde num Domingo à tarde depois de dois ou três copos de vinho ao almoço, ou talvez eu esteja distante de ti porque a vida faz de nós pessoas que se afastam com muito mais facilidade do que se aproximam. Não sei. Não sei como vai ser daqui a vinte anos, o que vou estar a fazer ou o que tu vais estar a fazer, mas sei que na altura vais achar que vinte anos é muito tempo, que vinte anos nunca mais acabam. Eu também achava isso quando tinha a tua idade. Se calhar ainda acho. Vinte anos parece muito tempo e eu com a tua idade achava que aos 40, vinte anos depois, ia ser um velho. Olhava-me ao espelho e pensava,
– daqui a vinte anos vou estar velho,
e se calhar por isso não estou assim tão diferente do que era porque continuo a olhar para o espelho e a achar que vou estar velho daqui a mais vinte, e se calhar aos 60 vou achar que a velhice só vai chegar aos 80 e só não digo por aí em diante porque não devo lá chegar.
Se calhar não estou assim tão diferente do que era, continuo a gostar das mesmas músicas, continuo a ler os mesmos autores e continuo a gostar de fazer as mesmas coisas, claro que ouço outras músicas, claro que leio outros autores e claro que há outras coisas que gosto de fazer, mas parece que é tudo uma consequência, algo que apareceu do que já existia. Talvez a maior diferença esteja nas pessoas, na maneira como me afastei delas, na maneira como as reduzi para cada vez menos, como as fui deixando.
Não sei se estás a perceber onde quero chegar com isto, mas seja como for, nasceste hoje. Os teus pais vinham cá jantar mas depois decidiste nascer e por isso eles não vieram cá jantar. Deviam ser umas três e tal, quase quatro da manhã quando o teu pai me mandou uma fotografia tua com uma legenda que dizia,
– já nasceu.
Tive de me meter no carro a essa hora e conduzir até Lisboa para ir dar um abraço ao teu pai. Ele disse-me para não ir porque eu estava bêbado, mas fui na mesma. Na estrada não conseguia deixar de pensar que se eu morresse não ia fazer mal, que se me espatifasse contra os rails não ia fazer diferença, porque a única coisa que andamos cá a fazer é só isto, uns que morrem e outros que nascem. Mas não me espetei contra os rails e ainda bebi mais dois whiskys com o teu pai porque obrigámos o homem do café a abrir a porta enquanto ele dizia,
– estamos fechados, estamos fechados,
e eu,
– este homem acabou de ser pai,
e não me calei até ele nos servir.
Tens 20 anos agora, mas há vinte anos eu vi-te pela primeira no primeiro dia em que vieste a este mundo. Não há muita gente que eu tenha visto no primeiro dia em que vieram ao mundo e também não há muita gente que tenhas visto no teu primeiro dia neste mundo. Passaste a maior parte do dia a dormir ou de olhos fechados. Mas quando me aproximei de ti, quando olhei para ti, tu abriste os olhos e viste-me e não choraste, e eu também não chorei. Por isso temos isso em comum, és das poucas pessoas que eu vi no primeiro dia em que elas vieram ao mundo e eu sou das poucas pessoas que viste no primeiro dia em que vieste ao mundo, e não chorámos quando nos vimos.
Olho para ti, acabado de nascer há umas horas e começo a escrever o que estou agora a escrever e a pensar no que te quero dizer, no que te quero dizer daqui a vinte anos, alguns conselhos básicos para a vida e outras coisas que talvez agora aches inúteis, mas que talvez te ajudem um dia e que são verdade. Sabes, a tua mãe foi uma mulher muito corajosa no dia em que nasceste e o teu pai segurou-lhe a mão o tempo todo, lembra-te disso, isso é importante.
Eu sei que por esta altura já deves ter percebido que isto é uma merda, que isto não vale nada, mas é mesmo assim, e não melhora muito com o tempo, apenas nos habituamos a que tudo corra mal, ou que nada corra como queremos. Acho que o que te quero dizer é que mesmo que a maior parte das vezes tudo pareça só um enorme vazio cheio de pessoas, tudo pareça apenas um enorme desperdício de tudo, de tempo, de amor, de sofrimento, do que nós somos, do que nós queremos ser, a verdade é que não é assim tão difícil, a verdade é que é tudo mais ou menos simples, como o teu pai a apertar a mão da tua mãe enquanto nascias.
Por isso, estás a ver, sou um homem de 40 anos que nunca viveu o que eles viveram, e o tempo já deu cabo de mim o suficiente para eu olhar para o espelho, achar que estou velho e me tornar num cínico. Mas ainda não fiz isso. Ainda não fiz isso porque o mais surpreendente é que, não sei, às vezes as coisas mudam, às vezes nem tudo é assim tão mau, às vezes só temos de acreditar que merecemos mais e que temos de querer ter mais. E às vezes, a maior parte das vezes, só temos que olhar para o lado e ver o que temos, ver mesmo o que temos, sem pensar em nada a não ser nisso, sem pensar em rails da auto-estrada ou como vai ser daqui a vinte anos, às vezes basta mesmo olharmo-nos ao espelho e não termos medo.
E é isso.
Uma última coisa, quando hoje encostei a minha face à tua, na maternidade, enquanto a tua mãe, que achava que eu te ia dar um beijo, dizia,
– que querido,
e o teu pai para ela,
– ele está um homem diferente,
na verdade sussurrei-te ao ouvido,
– boa sorte,
porque neste mundo de merda precisamos de toda a ajuda que conseguirmos.

domingo, 12 de agosto de 2018

ELA

Ela diz que é estranho. Ela vira a cabeça e diz,
– é estranho.
Ela diz,
– estas coisas não acontecem tão cedo, estas coisas que estão a acontecer agora, este conforto, este conforto entre nós não é suposto acontecer agora. Porque é que isto está a acontecer agora? Não sei se quero que isto aconteça agora. Tenho medo disto.
Ela desvia o olhar, ela olha lá para fora.
– Não sei,
diz ela,
– é como se te conhecesse, é como se te tivesse conhecido noutra vida, como se já soubesse o que vais fazer, como se isto já tivesse acontecido. As pessoas acham que o amor é uma coisa aleatória, que o amor é uma coisa que acontece por um acaso, um sorriso, um toque, uma palavra. As pessoas apaixonam-se porque se encontram umas com as outras, vão a um sítio juntas olham uma para a outra, dizem umas coisas, sorriem e depois apaixonam-se, dizem que estão apaixonadas e beijam-se, como se fosse assim, como se fosse assim tão simples. Eu detesto as pessoas. Acho que é isso que mais gosto em ti, tu detestas as pessoas, não detestas as pessoas todas, e eu também não detesto as pessoas todas, só um bocadinho, só quando elas são assim, só quando elas se esquecem que isto é uma merda, que isto é tudo uma enorme merda e que nada vale a pena.
Eu quero dizer qualquer estúpida como,
– nem eu?,
ou,
– como é que és capaz de dizer isso, meu amor?,
mas fico calado a olhar em frente. Estamos sentados na cama, um ao lado do outro. Ela não começa a chorar. Ela segura-me na mão e diz,
– desculpa,
ela olha para mim e diz,
– é tão difícil ser feliz.
Isto foi há uma semana. Uns dias antes ela tinha-me dito que lhe tinham dito que alguém tinha dito,
– isso é conversa de mulheres,
disse eu,
que estavam preocupados com ela, que muitas me tinham tentado mudar mas que nenhuma tinha conseguido.
– Estás a tentar mudar-me?,
perguntei eu enquanto ela dizia que não com a cabeça e eu pensava,
– vou morrer aqui.
Entretanto o tempo passa e um ano depois estou exactamente onde estava no ano passado. E é estranho conviver com todas as coisas que aconteceram e estão a acontecer. É estranho porque não parecem reais, como se a qualquer altura fosse acordar e pensasse,
– que raio de noite, que raio de pesadelo, que raio de sonho, nunca mais durmo,
assim que acordasse.
Passaram-se muitos dias e muitos meses e um ano depois, de alguma maneira, comecei a conviver com o medo. Todos os dias a todos os momentos tenho de conviver com o medo. Começou com ela, quando ela apareceu, mas o único medo é que ela desapareça. Um ano depois, aqui sentado no mesmo sítio, na mesma cadeira, olho para mim e percebo que a minha vida está tão distante do que estava que sou capaz de dizer,
– o medo faz-me dizer coisas estranhas e fazer coisas estranhas e também faz com que eu escreva com medo, com que eu combata contra isso, com o medo de escrever, com o medo de escrever coisas a mais ou a menos. Ela não está aqui, e por isso não olha para mim e diz à distância,
– és doido,
e eu volto ao mesmo, volto a dizer coisas estranhas, a fazer coisas estranhas e a escrever coisas estranhas, e ela continua a dizer,
– és doido,
enquanto o meu medo continua a crescer e depois recomeça tudo outra vez. Olho em volta e penso que daqui a um ano vou estar aqui outra vez, a olhar para trás e a pensar em tudo outra vez. Um dia esta casa que não é minha, onde passo em Agosto uma semana, sempre com uma peça por acabar, vai ser um cemitério de memórias que todos os anos vão ser diferentes.
O António, que é um gato, que é a razão de eu aqui estar, está deitado em cima da mesa, ao lado do computador, enquanto eu escrevo isto. Está a olhar para mim. Gosto de gatos. Gostava de saber no que ele está a pensar, no que ele pensa disto tudo. Digo alto,
– o que é que achas disto tudo, António? Achas que daqui a um ano ainda vou ter este medo, que daqui a um ano vou ter medo dela, da ausência dela, de ela me trocar por um garoto ou de deixar de me amar, ou de nunca me ter amado, de só gostar do que escrevo, de só gostar que eu escreva para ela?
E o António, que é um gato, olha para mim e diz,
– mesmo que me limpes a areia e me dês aquela meia lata de uma cena que eu gosto mas que não sei o que é todos os dias, quero que te fodas.
– O quê?,
digo eu,
– acorda,
diz o António, que é um gato.

quarta-feira, 1 de agosto de 2018

O ÚLTIMO DIA

É estranha esta sensação, esta sensação de entrar em casa e me sentir sozinho, vazio, estive demasiado tempo habituado a isso para agora conseguir voltar a habituar-me ao mesmo, a voltar para casa, a abrir a porta e a sentir que me falta alguma coisa, de sentir que mesmo que digas,
– estou aqui,
eu continuo a entrar em casa sozinho, a sentar-me sozinho quando almoço ou quando janto, a adormecer e a acordar sozinho, porque mesmo que digas,
– estou aqui,
não estás aqui, estás noutro sítio, longe de mim.
Hoje foi um dia curto. Ontem foi um dia longo. À noite fui a uma festa. Não gosto de festas mas fui a uma festa, um aniversário. Estou sempre à tua procura, a estender a mão para o vazio e a olhar para o lado, a pensar que não devia ter vindo, que não devia ter vindo sem ti. Mas estás em casa, acho que estás em casa, na tua casa, enquanto eu estou aqui.
Encontro os meus amigos e mal ela me vê diz-me,
– ela não te partiu o coração, hã?,
e ela ri-se,
– ainda não,
digo eu,
– nem vai partir, porque o teu coração não se parte,
diz ela enquanto nos desviamos dos fotógrafos e eu aproveito para ir buscar um copo de vinho.
A Eunice, que faz 90 anos, está a um metro de mim, de costas para mim, mas eu não consigo falar com ela, há demasiadas pessoas à volta dela, demasiados fotógrafos e demasiados flashes. Tenho o copo de vinho na mão e os meus amigos perguntam-me por ti, perguntam-me se é verdade. Depois perguntam-me por mim, se eu estou bem, se eu estou feliz. Eu digo que sim e vou buscar outro copo de vinho.
Vamos para a sala de jantar e, não sei, devem estar umas sessenta pessoas, estamos a procurar num papel afixado numa porta em que mesa nos sentamos quando alguém que eu não conheço me agarra no braço e me diz como se me conhecesse,
– há aqui mais talento do que estrelas no universo.
Estive para dizer,
– não me parece,
mas lembrei-me de ti, lembrei-me de ti a dizeres,
– não sejas assim,
e por isso calei-me, limitei-me a sorrir, a acenar que sim com a cabeça e a sentar-me no meu lugar.
Depois comemos e fumamos cigarros no intervalo dos pratos. Há uma varanda para fumarmos. No cigarro entre o primeiro e o segundo prato o Pedro diz que eu pareço cansado. Eu pergunto pelo David, se ele sabe se ele está bem, se a criança nasce esta semana ou na próxima. Ele diz que sim, que deve estar quase. Depois pergunta-me onde é que há cinzeiros, eu olho para baixo e digo,
– são turistas,
ele ri-se e diz,
– esqueceste-te dela?.
No cigarro entre o segundo e o terceiro prato estou sozinho a olhar para a rua, a pensar na hybris, a pensar que não devia estar aqui, que devia estar contigo, a segurar-te na mão, a pensar que alguém ao meu lado me diz,
– a merda da hybris, Miguel, foi isso que te trouxe até aqui,
enquanto olho para baixo, para os turistas, e atiro mais um cigarro contra eles.
No final do terceiro prato chega o Presidente da República. Toda a gente pega no telemóvel, mesmo aqueles que não pegaram, mas quando ele se levanta para discursar toda a gente se levanta, mesmo que não saibam porquê, e eu fico contente apesar de ele pedir para todos nos sentarmos. A seguir houve muitos discursos e elogios. E toda a gente falou bem, toda a gente disse coisas boas e agradáveis. Toda a gente foi sincera sem ser verdadeira.
Depois a Eunice quis falar e toda gente se calou, toda a gente se calou mesmo. Houve um silêncio. Ela disse, ela disse assim,
– são 90 anos e sinto-me muito grata por todo este carinho. São 90 anos e não sei quando vou partir – ninguém sabe – mas acho que quando partir me vou juntar a todas as pessoas que eu amei,
– a  todas as pessoas que eu amei,
disse ela.
Não disse,
– a todas as pessoas que me amaram,
não, ela disse,
– a  todas as pessoas que eu amei.
Lembrei-me do dia anterior, de mim a explicar-lhes que com o tempo perdemos o amor. Que primeiro sofremos e vivemos tudo como se fosse a última coisa, e que depois vamos sentindo cada vez menos, relação atrás de relação, ano após ano, até não sentirmos nada, até ser tudo falso, até ser apenas uma conveniência, uma coisa qualquer que fingimos que existe porque não queremos estar sozinhos,
– até ser tudo uma mentira,
disse eu à Maria, que me tinha perguntado o que é que eu sentia realmente por ti,
– e se voltamos a sentir alguma coisa, se voltamos a sentir que estamos vivos, que há um lugar no mundo para duas pessoas, não fazemos muitas perguntas, apenas lutamos para que isso aconteça,
disse eu,
– porque talvez seja a última vez, a última oportunidade,
disse eu.
Entretanto metade das pessoas já se foram embora e eu consigo finalmente chegar ao pé dela e dizer,
– finalmente,
enquanto ela se ri e damos um abraço, e depois ela faz o que faz sempre quando me vê, põe as duas mãos nos meus ombros e pergunta-me,
– como vai a tua vida?,
e como eu não lhe consigo mentir, porque nunca lhe consegui mentir, digo,
– bem,
e ela parece surpresa, ela pergunta,
– encontraste o teu equilíbrio?,
com as mãos nos meus ombros e os olhos nos meus, e eu digo a olhar para ela,
– acho que sim.
E então, a maior actriz de todos os tempos, no dia em que faz 90 anos, olha para mim e diz sincera,
– que bom, que bom,
enquanto eu penso em ti.