É engraçado porque eu
estou a olhar para cima e tu estás a olhar para baixo. Já passa da meia-noite e
eu não te consigo ver, há um candeeiro que te ofusca, vejo só uma silhueta,
pouco mais do que isso. Estamos a cinco andares de distância, eu cá em baixo e
tu lá em cima, eu pergunto-te se me consegues ver e tu responde ao telefone,
– sabes que eu sem lentes não
consigo ver nada.
E eu fico a olhar para
cima, os olhos postos em ti, sem saber se isto é uma metáfora, uma piada ou
apenas qualquer coisa que vivemos há muitos anos, numa outra vida, quando
pessoas como eu se punham a olhar para cima para pessoas como tu, e elas, as pessoas como tu, diziam,
– escreve,
e eles, as pessoas como eu,
iam para casa e escreviam sobre elas, e escreviam sobre o amor.
Se calhar não mudou muita coisa, se calhar continua tudo na mesma,
– se calhar a história do mundo são só duas pessoas apaixonadas, é só um grande amor,
Se calhar não mudou muita coisa, se calhar continua tudo na mesma,
– se calhar a história do mundo são só duas pessoas apaixonadas, é só um grande amor,
penso eu enquanto olho
para cima, para ti, e pergunto-te ao telefone,
– no que é que estás a
pensar?,
e tu dizes,
– não sei, estou a pensar
em ti, estou a pensar em mim, estou a pensar em nós os dois. Estou a pensar em
tudo o que passou, estou a pensar em ti aí em baixo e em mim aqui em cima,
achas que é uma coincidência?, achas que já vivemos isso? Disseste-me isso uma vez. Não acreditei em ti.
Disseste que achavas que já me conhecias, que me conhecias de outra vida,
disseste que achavas que o meu nome não é o meu nome, que eu tinha outro nome,
já te lembraste disso?, já te lembraste desse nome?, já te lembraste de mim? Não
sei. É difícil acreditar em ti. Percebes que é difícil acreditar em ti?
Percebes que me sinto vazia, que a minha vida até agora não foi fácil, que a
maior parte das vezes quero morrer? Percebes isso? Não sei. Não sei se tenho
mais medo que fiques ou que vás embora. Porque não sei. Eu quero que fiques, eu
quero mesmo que fiques. Mas também quero que vás embora, quero mesmo. Desculpa.
Isto não é justo. Não é justo para ti, não é justo para mim. Isto só não é
justo. Vivemos e vivemos e parece que
fazemos tudo mal, que tudo nos sai ao contrário, e estou aqui, a falar contigo,
e nem sequer posso descer, nem sequer posso ir ter contigo e dizer-te estas
coisas, e eu não acho que isso seja justo, nem para ti nem para mim, não acho
que seja justo eu estar a dizer estas coisas e eu estar aqui e tu estares aí e
não podermos estar os dois, não podermos estar os dois como devíamos estar,
porque eu não quero falar disto a cinco andares de distância, eu não quero
dizer estas coisas sem conseguir ver-te, pareces uma mancha que se confunde com
o asfalto, não quero isso. Quero-te ao meu lado, não sei, desculpa, talvez não
te queira ao meu lado. Só não te quero a esta distância, só não te quero tão
longe.
Depois ela calou-se. Eu não
disse nada. Ela disse,
– estás a ouvir-me?, ainda
estás a ouvir-me?,
e eu disse,
– sim, estou aqui.
Depois ela disse que eu
devia ir para casa, que falávamos depois. Eu disse que devia começar a cantar,
ao menos gritar o nome dela, mas ela disse que não, que não podia fazer isso e
por isso não cantei nem gritei o nome dela.
E eu fui para casa.
Antes de me deitar, ao
espelho, olho para mim e acho que estou gordo, acho que estou velho. Olho para
o espelho e olho para mim. Penso no que me pode salvar. Penso em Deus a
intervir na minha vida, penso no disparate que isso é, na mentira, no porquê?,
mas,
mesmo assim
ajoelho-me
e digo
– tem misericórdia de mim,
enquanto olho para cima,
são só cinco andares.