– Eu disse-te que estavas a sonhar, anormal de merda, estavas à
espera de quê?,
diz o António, que é um gato.
Eu não tenho muito mais a fazer que não seja olhar para o António,
que é um gato, e ouvi-lo dizer,
– eu disse-te para acordares, não acreditaste em mim porquê?,
porque sou um gato?, olha para ti, não percebeste o quê, o que um mongolóide
tinha percebido em dois minutos?, eu quando olhei para ela percebi logo que
havia qualquer coisa que não estava bem, que havia qualquer coisa que estava
mal, hahaha, até perguntei se ela era cega para estar com um trambolho como tu,
não foi?, o que é que disse?,
e eu a lembrar-me do António, que é um gato, a dizer,
– desculpa, invisual,
enquanto ela lhe fazia festas na barriga e dizia,
– que lindo,
no dia em que foi lá a casa, e eu,
– o quê?
e o António, que é um gato, enquanto ela lhe fazia festas na
barriga,
– foda-se, ela é um avião, o que é que está a fazer com um cabeça
de caralho como tu?, ui, faz isso, baby,
e ela para mim,
– o quê, o quê?,
e eu,
– nada,
enquanto dava um pontapé no António, que é um gato, e dizia,
– ele tem pulgas,
e o António, que é um gato, fugia para a cozinha e dizia,
– vai-te foder, paneleiro, logo à noite arranco-te os olhos a meio
do sono,
e eu,
– nem sequer tens unhas!,
e ela,
– estou a tentar parar de roê-las, porque é que estás a ser assim?,
e eu,
– desculpa.
Isto foi há uma semana.
Uma semana pode ser muito tempo.
A minha irmã foi para Tróia e por isso eu fiquei uma semana em
casa dela, a tomar conta do António, que é um gato, que por alguma razão, não
sei quando, começou a falar. Ele começou a falar e eu nem me dei ao trabalho de
tentar perceber porque é que isso aconteceu, porque é que um gato começou a
falar comigo enquanto a minha irmã decidiu ir para Tróia,
– se calhar é porque tens tanta sede,
diz o António, que é um gato, deitado na mesa à minha frente,
– vais morrer de sede, tu?,
e eu,
– não tens nada para fazer?, acho que vi um rato a passear na
varanda, deixei a janela aberta,
e o António que é um gato,
– já dormi, já comi e já caguei, quando é que me vais limpar a
merda da areia?, deixei-te lá uma poia, pode ser que te faça lembrar de alguma
coisa, não sei se estás a perceber do que eu estou a falar,
e eu a estender o indicador em frente do focinho dele,
– tu tem cuidado,
digo eu,
– é bom que tenhas cuidado e que mordas a língua, outra dessas,
faço-te em cabidela e dou-te ao cão do vizinho,
e o António, que é um gato, a levantar-se na mesa, a passear na
mesa, a olhar para a mim e a rir-se na mesa,
– não serves para nada, nem para dar sangue.
Isto foi ontem.
Um dia pode ser muito tempo.
Hoje, quando cheguei a casa da minha irmã, o António, que é um
gato, disse quando abri a porta e olhou para mim,
– o que é que se passa, palhaço?, estás com pior aspecto do que é
costume,
e eu,
– há dias assim, António, há dias em que tudo nos sai ao
contrário, em que nada faz sentido, há dias em que não nos sobra nada, há dias
em que mesmo quando chegamos a casa nos sentimos tão sozinhos que quase
parecemos ter enlouquecido,
isto foi agora mesmo, na minha varanda, ainda com a chave de casa
na mão, a olhar para ela,
– devo ter deixado a porta aberta,
penso,
enquanto tu dormes, o sol se ergue e o António diz ao lado da
minha irmã que não está em Tróia,
– desta vez fodeste tudo,
fodeste mesmo tudo, estás satisfeito?,
e eu,
– não sei, acho que estou a
enlouquecer,
e o António,
– porque é que achas
que estás a falar com um gato?
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