quarta-feira, 22 de agosto de 2018

ELE

– Eu disse-te que estavas a sonhar, anormal de merda, estavas à espera de quê?,
diz o António, que é um gato.
Eu não tenho muito mais a fazer que não seja olhar para o António, que é um gato, e ouvi-lo dizer,
– eu disse-te para acordares, não acreditaste em mim porquê?, porque sou um gato?, olha para ti, não percebeste o quê, o que um mongolóide tinha percebido em dois minutos?, eu quando olhei para ela percebi logo que havia qualquer coisa que não estava bem, que havia qualquer coisa que estava mal, hahaha, até perguntei se ela era cega para estar com um trambolho como tu, não foi?, o que é que disse?,
e eu a lembrar-me do António, que é um gato, a dizer,
– desculpa, invisual,
enquanto ela lhe fazia festas na barriga e dizia,
– que lindo,
no dia em que foi lá a casa, e eu,
– o quê?
e o António, que é um gato, enquanto ela lhe fazia festas na barriga,
– foda-se, ela é um avião, o que é que está a fazer com um cabeça de caralho como tu?, ui, faz isso, baby,
e ela para mim,
– o quê, o quê?,
e eu,
– nada,
enquanto dava um pontapé no António, que é um gato, e dizia,
– ele tem pulgas,
e o António, que é um gato, fugia para a cozinha e dizia,
– vai-te foder, paneleiro, logo à noite arranco-te os olhos a meio do sono,
e eu,
– nem sequer tens unhas!,
e ela,
– estou a tentar parar de roê-las, porque é que estás a ser assim?,
e eu,
– desculpa.
Isto foi há uma semana.
Uma semana pode ser muito tempo.
A minha irmã foi para Tróia e por isso eu fiquei uma semana em casa dela, a tomar conta do António, que é um gato, que por alguma razão, não sei quando, começou a falar. Ele começou a falar e eu nem me dei ao trabalho de tentar perceber porque é que isso aconteceu, porque é que um gato começou a falar comigo enquanto a minha irmã decidiu ir para Tróia,
– se calhar é porque tens tanta sede,
diz o António, que é um gato, deitado na mesa à minha frente,
– vais morrer de sede, tu?,
e eu,
– não tens nada para fazer?, acho que vi um rato a passear na varanda, deixei a janela aberta,
e o António que é um gato,
– já dormi, já comi e já caguei, quando é que me vais limpar a merda da areia?, deixei-te lá uma poia, pode ser que te faça lembrar de alguma coisa, não sei se estás a perceber do que eu estou a falar,
e eu a estender o indicador em frente do focinho dele,
– tu tem cuidado,
digo eu,
– é bom que tenhas cuidado e que mordas a língua, outra dessas, faço-te em cabidela e dou-te ao cão do vizinho,
e o António, que é um gato, a levantar-se na mesa, a passear na mesa, a olhar para a mim e a rir-se na mesa,
– não serves para nada, nem para dar sangue.
Isto foi ontem.
Um dia pode ser muito tempo.
Hoje, quando cheguei a casa da minha irmã, o António, que é um gato, disse quando abri a porta e olhou para mim,
– o que é que se passa, palhaço?, estás com pior aspecto do que é costume,
e eu,
– há dias assim, António, há dias em que tudo nos sai ao contrário, em que nada faz sentido, há dias em que não nos sobra nada, há dias em que mesmo quando chegamos a casa nos sentimos tão sozinhos que quase parecemos ter enlouquecido,
isto foi agora mesmo, na minha varanda, ainda com a chave de casa na mão, a olhar para ela,
– devo ter deixado a porta aberta,
penso,
enquanto tu dormes, o sol se ergue e o António diz ao lado da minha irmã que não está em Tróia,
– desta vez fodeste tudo, fodeste mesmo tudo, estás satisfeito?, 
e eu,
– não sei, acho que estou a enlouquecer,
e o António, 
– porque é que achas que estás a falar com um gato?   

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