– é estranho.
Ela diz,
– estas coisas não
acontecem tão cedo, estas coisas que estão a acontecer agora, este conforto,
este conforto entre nós não é suposto acontecer agora. Porque é que isto está a
acontecer agora? Não sei se quero que isto aconteça agora. Tenho medo disto.
Ela desvia o olhar, ela
olha lá para fora.
– Não sei,
diz ela,
– é como se te conhecesse,
é como se te tivesse conhecido noutra vida, como se já soubesse o que vais
fazer, como se isto já tivesse acontecido. As pessoas acham que o amor é uma
coisa aleatória, que o amor é uma coisa que acontece por um acaso, um sorriso,
um toque, uma palavra. As pessoas apaixonam-se porque se encontram umas com as
outras, vão a um sítio juntas olham uma para a outra, dizem umas coisas,
sorriem e depois apaixonam-se, dizem que estão apaixonadas e beijam-se, como se
fosse assim, como se fosse assim tão simples. Eu detesto as pessoas. Acho que é
isso que mais gosto em ti, tu detestas as pessoas, não detestas as pessoas
todas, e eu também não detesto as pessoas todas, só um bocadinho, só quando
elas são assim, só quando elas se esquecem que isto é uma merda, que isto é
tudo uma enorme merda e que nada vale a pena.
Eu quero dizer qualquer estúpida
como,
– nem eu?,
ou,
– como é que és capaz de
dizer isso, meu amor?,
mas fico calado a olhar em
frente. Estamos sentados na cama, um ao lado do outro. Ela não começa a chorar.
Ela segura-me na mão e diz,
– desculpa,
ela olha para mim e diz,
– é tão difícil ser feliz.
Isto foi há uma semana.
Uns dias antes ela tinha-me dito que lhe tinham dito que alguém tinha dito,
– isso é conversa de
mulheres,
disse eu,
que estavam preocupados
com ela, que muitas me tinham tentado mudar mas que nenhuma tinha conseguido.
– Estás a tentar
mudar-me?,
perguntei eu enquanto ela dizia
que não com a cabeça e eu pensava,
– vou morrer aqui.
Entretanto o tempo passa e
um ano depois estou exactamente onde estava no ano passado. E é estranho conviver
com todas as coisas que aconteceram e estão a acontecer. É estranho porque não parecem
reais, como se a qualquer altura fosse acordar e pensasse,
– que raio de noite, que
raio de pesadelo, que raio de sonho, nunca mais durmo,
assim que acordasse.
Passaram-se muitos dias e
muitos meses e um ano depois, de alguma maneira, comecei a conviver com o medo.
Todos os dias a todos os momentos tenho de conviver com o medo. Começou com ela,
quando ela apareceu, mas o único medo é que ela desapareça. Um ano depois, aqui
sentado no mesmo sítio, na mesma cadeira, olho para mim e percebo que a minha
vida está tão distante do que estava que sou capaz de dizer,
– o medo faz-me dizer
coisas estranhas e fazer coisas estranhas e também faz com que eu escreva com
medo, com que eu combata contra isso, com o medo de escrever, com o medo de escrever
coisas a mais ou a menos. Ela não está aqui, e por isso não olha para mim e diz
à distância,
– és doido,
e eu volto ao mesmo, volto
a dizer coisas estranhas, a fazer coisas estranhas e a escrever coisas
estranhas, e ela continua a dizer,
– és doido,
enquanto o meu medo
continua a crescer e depois recomeça tudo outra vez. Olho em volta e penso que
daqui a um ano vou estar aqui outra vez, a olhar para trás e a pensar em tudo
outra vez. Um dia esta casa que não é minha, onde passo em Agosto uma semana,
sempre com uma peça por acabar, vai ser um cemitério de memórias que todos os
anos vão ser diferentes.
O António, que é um gato, que
é a razão de eu aqui estar, está deitado em cima da mesa, ao lado do
computador, enquanto eu escrevo isto. Está a olhar para mim. Gosto de gatos. Gostava
de saber no que ele está a pensar, no que ele pensa disto tudo. Digo alto,
– o que é que achas disto
tudo, António? Achas que daqui a um ano ainda vou ter este medo, que daqui a um
ano vou ter medo dela, da ausência dela, de ela me trocar por um garoto ou de
deixar de me amar, ou de nunca me ter amado, de só gostar do que escrevo, de só
gostar que eu escreva para ela?
E o António, que é um
gato, olha para mim e diz,
– mesmo que me limpes a
areia e me dês aquela meia lata de uma cena que eu gosto mas que não sei o que é
todos os dias, quero que te fodas.
– O quê?,
digo eu,
– acorda,
diz o António, que é um gato.
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