domingo, 12 de agosto de 2018

ELA

Ela diz que é estranho. Ela vira a cabeça e diz,
– é estranho.
Ela diz,
– estas coisas não acontecem tão cedo, estas coisas que estão a acontecer agora, este conforto, este conforto entre nós não é suposto acontecer agora. Porque é que isto está a acontecer agora? Não sei se quero que isto aconteça agora. Tenho medo disto.
Ela desvia o olhar, ela olha lá para fora.
– Não sei,
diz ela,
– é como se te conhecesse, é como se te tivesse conhecido noutra vida, como se já soubesse o que vais fazer, como se isto já tivesse acontecido. As pessoas acham que o amor é uma coisa aleatória, que o amor é uma coisa que acontece por um acaso, um sorriso, um toque, uma palavra. As pessoas apaixonam-se porque se encontram umas com as outras, vão a um sítio juntas olham uma para a outra, dizem umas coisas, sorriem e depois apaixonam-se, dizem que estão apaixonadas e beijam-se, como se fosse assim, como se fosse assim tão simples. Eu detesto as pessoas. Acho que é isso que mais gosto em ti, tu detestas as pessoas, não detestas as pessoas todas, e eu também não detesto as pessoas todas, só um bocadinho, só quando elas são assim, só quando elas se esquecem que isto é uma merda, que isto é tudo uma enorme merda e que nada vale a pena.
Eu quero dizer qualquer estúpida como,
– nem eu?,
ou,
– como é que és capaz de dizer isso, meu amor?,
mas fico calado a olhar em frente. Estamos sentados na cama, um ao lado do outro. Ela não começa a chorar. Ela segura-me na mão e diz,
– desculpa,
ela olha para mim e diz,
– é tão difícil ser feliz.
Isto foi há uma semana. Uns dias antes ela tinha-me dito que lhe tinham dito que alguém tinha dito,
– isso é conversa de mulheres,
disse eu,
que estavam preocupados com ela, que muitas me tinham tentado mudar mas que nenhuma tinha conseguido.
– Estás a tentar mudar-me?,
perguntei eu enquanto ela dizia que não com a cabeça e eu pensava,
– vou morrer aqui.
Entretanto o tempo passa e um ano depois estou exactamente onde estava no ano passado. E é estranho conviver com todas as coisas que aconteceram e estão a acontecer. É estranho porque não parecem reais, como se a qualquer altura fosse acordar e pensasse,
– que raio de noite, que raio de pesadelo, que raio de sonho, nunca mais durmo,
assim que acordasse.
Passaram-se muitos dias e muitos meses e um ano depois, de alguma maneira, comecei a conviver com o medo. Todos os dias a todos os momentos tenho de conviver com o medo. Começou com ela, quando ela apareceu, mas o único medo é que ela desapareça. Um ano depois, aqui sentado no mesmo sítio, na mesma cadeira, olho para mim e percebo que a minha vida está tão distante do que estava que sou capaz de dizer,
– o medo faz-me dizer coisas estranhas e fazer coisas estranhas e também faz com que eu escreva com medo, com que eu combata contra isso, com o medo de escrever, com o medo de escrever coisas a mais ou a menos. Ela não está aqui, e por isso não olha para mim e diz à distância,
– és doido,
e eu volto ao mesmo, volto a dizer coisas estranhas, a fazer coisas estranhas e a escrever coisas estranhas, e ela continua a dizer,
– és doido,
enquanto o meu medo continua a crescer e depois recomeça tudo outra vez. Olho em volta e penso que daqui a um ano vou estar aqui outra vez, a olhar para trás e a pensar em tudo outra vez. Um dia esta casa que não é minha, onde passo em Agosto uma semana, sempre com uma peça por acabar, vai ser um cemitério de memórias que todos os anos vão ser diferentes.
O António, que é um gato, que é a razão de eu aqui estar, está deitado em cima da mesa, ao lado do computador, enquanto eu escrevo isto. Está a olhar para mim. Gosto de gatos. Gostava de saber no que ele está a pensar, no que ele pensa disto tudo. Digo alto,
– o que é que achas disto tudo, António? Achas que daqui a um ano ainda vou ter este medo, que daqui a um ano vou ter medo dela, da ausência dela, de ela me trocar por um garoto ou de deixar de me amar, ou de nunca me ter amado, de só gostar do que escrevo, de só gostar que eu escreva para ela?
E o António, que é um gato, olha para mim e diz,
– mesmo que me limpes a areia e me dês aquela meia lata de uma cena que eu gosto mas que não sei o que é todos os dias, quero que te fodas.
– O quê?,
digo eu,
– acorda,
diz o António, que é um gato.

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