domingo, 29 de julho de 2018

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Ela já se está a rir quando eu abro a porta, ela olha para mim e diz,
– porque é que estás tão feliz?,
e quando eu não consigo responder outra coisa que não seja um sorriso e um encolher de ombros ela diz,
– a sério, é mesmo verdade?
Não sei ao certo quanto tempo se passou e quando percebo que se passaram menos de dois meses fico com aquela sensação de que tudo à nossa volta é apenas uma perspectiva de tudo o que está à nossa volta, como se coisas diferentes ou coisas iguais tivessem um valor diferente ou igual consoante a forma como as vivemos e não como elas são semelhantes ou distantes.
O cenário é mais ou menos o mesmo, continuamos numa varanda e ela continua a fazer-me perguntas e eu a contar coisas que me acontecem. A minha vida está cheia de varandas. Mudamos de cidade, mudamos de tempo, de histórias, mas continuamos os três sentados numa varanda com ela a fazer-me perguntas e o Pedro a dizer,
– não andas bem.
Ela diz que eu não consigo escrever nada quando estou assim, que eu quando estou assim pareço um pateta, que estou sempre a sorrir, que pareço outra pessoa, que não vou conseguir escrever o Ariadne, que devia falar com a Madalena e dizer-lhe para ela arranjar qualquer coisa para fazer em Setembro, que o Ariadne não vai estrear de certeza, que eu vou ficar parado o resto do Verão a olhar como um pateta para as coisas, a dizer bem delas, a sorrir para quem passa por mim na rua, a dizer,
– bom dia,
porque até me vou levantar cedo,
– qualquer dia até vai à praia,
diz o Pedro,
– guru da merda,
diz o Pedro, qualquer dia dizes que te vais casar.
E depois rimos e falamos do David, que está quase a ser pai, que talvez seja para a semana. O tempo continua a ser uma coisa estranha. Há um ano, há mais ou menos um ano, o Pedro e o David estavam à espera que eu acabasse um texto para eles, eu ia dizendo,
– está quase,
e depois não saía nada, ou saiam coisas a mais. Há mais ou menos um ano estávamos os três a ir para o Douro, eu com meio texto escrito, eles a acharem que eu me ia matar por causa do que me estava a acontecer, por tudo o que me tinham feito, por todo o mal que me tinham feito.
Foram outros tempos.
Apetecia-me escrever,
– LOL,
como dizem os miúdos,
porque, de certa maneira, as coisas não mudaram assim tanto, por isto e por aquilo, por este e por aquele.
Mas não quero falar de coisas más, quero falar de coisas boas. Na altura não havia o Manel no ventre da Sofia, nem ela ao lado do Pedro, eu a vê-los da varanda, a saírem do carro, ele à espera dela, a dar-lhe a mão, a pararem no meio da estrada enquanto se beijam. Estamos a oito andares de distância e consigo vê-los a rir, alheados do mundo, alheados dos meus olhos que os vêem do alto dos oito andares da minha varanda. Há um ano também não existias, tu.
Tudo isso é estranho. Queríamos construir uma casa, apenas queríamos construir uma casa. E passou-se um ano, mais ou menos um ano, e cada um de nós está todos os dias mais longe do que estava na altura. E acho que isso é bom. Acho que todos achamos que é bom, e por isso mesmo que o David não esteja aqui continuamos a rir e jantamos e brindamos, e falamos sobre as coisas boas e más que nos têm acontecido. Os amigos são isso, são coisas boas e más que dizemos aos outros sem que eles nos julguem, mesmo que o Pedro tenha dito,
– tem cuidado,
e eu,
– como assim?
Houve um silêncio. Eu acendi um cigarro e voltei a dizer,
– como assim?
O Pedro estava a olhar lá para fora, para a varanda, para o sol que se estava a pôr. Não houve nenhum silêncio porque ela disse logo a seguir,
– sabes, é engraçado como escreves sobre mim e estás a escrever sobre outra pessoa, não sei como consegues fazer isso. A verdade é que és um pateta e não estás a conseguir escrever, e eu gosto de ti assim, eu gosto que não escrevas, por mim não escrevias nunca mais, nem uma palavra, que se foda o teatro, que se fodam as peças, as crónicas que nem sequer gostas, que se foda isso tudo, mas ouve, ouve mesmo porque isto é importante, eu espero que isso não aconteça, mas, se acontecer, seja daqui a uma semana, um mês ou um ano, nem que seja daqui a dez, pensa em ti, pensa no que és e lembra-te,
– ela não te partiu o coração.

quarta-feira, 11 de julho de 2018

LÁZARO

– Porque é que me odeias?,
pergunta ela,
– porque é que me odeias? É porque eu sou assim? Porque eu sou mesmo assim, isto sou eu e eu sei que me odeias porque eu sou assim, mas é assim que eu sou, não posso mudar o que eu sou, sou assim, gostava que não me odiasses, gostava que gostasses de mim, só um pouco, não era preciso ser muito, só o suficiente para eu poder continuar a ser assim, para eu poder ser como sou sem que me odiasses, porque eu não quero que tu me odeies mas sei que me odeias, que me odeias mesmo só porque eu sou assim.
Eu estou a olhar para ela e em vez de a beijar digo,
– não é isso,
e rio-me e acendo o cigarro que estava a enrolar e penso que se isto fosse um filme era uma boa altura para um fade out e umas letras a branco surgirem sobre um fundo negro a dizer,
– 72 hours earlier,
porque ia ser um filme americano.
Não sei. Acho que tenho vivido uma vida estranha desde que nasci. Estou cada vez melhor a lidar com isso. Ainda hoje, há bocado, enquanto estava a regar as plantas, ouvi um,
– obrigada,
e nem liguei, achei que fosse uma vizinha de janela aberta a agradecer qualquer coisa ao marido, um eco, uma confusão auditiva na minha cabeça, não me vou espantar com o que vier, com o que continuar a aparecer, mas não deixa de ser estranho que há três dias, sentado ao balcão de um bar, quando ela disse,
– então?,
eu me tenha sentido a desaparecer, como se o chão se abrisse debaixo de mim e eu caísse por ali abaixo sem me conseguir agarrar a nada,
– não é isso,
e rio-me e acendo o cigarro que estava a enrolar,
– não é isso?,
diz ela,
– não é isso, o quê?,
e eu enfio a testa na palma da mão e penso,
– há quanto tempo não estavas assim? Olha para as tuas mãos, mal podes segurar no copo, mal consegues pegar no cigarro, tens de fazer qualquer coisa, ela vai reparar, tens de dizer qualquer coisa, diz o primeiro disparate que te vier à cabeça, não olhes para ela de frente, não sorrias dessa maneira, ela vai perceber, diz qualquer coisa e pronto, não sei, qualquer coisa que faça sentido, diz que te sentes sozinho, que às vezes, à noite, vais até à varanda e ficas muito tempo a olhar para o mar, que gostas de olhar para o mar, que te imaginas um dia a comprar um veleiro e a dar a volta ao mundo no veleiro que compraste, inventa qualquer coisa, conta-lhe aquela anedota do homem sem coração que morreu de priapismo, não, não faças isso, isso é uma péssima ideia, diz-lhe que estás cansado, que estás cansado das pessoas, que apenas queres que não te chateiem, que apenas queres que não te chateiem com merdas, que queres que as pessoas te deixem em paz, que se metam na vida delas e que te deixem em paz, diz-lhe isso, que queres ficar sossegado a olhar para ela porque gostas do sorriso dela, diz-lhe que quando ela se ri nem tudo parece mau, ou diz apenas qualquer coisa antes que ela pergunte o que é que se passa,
– o que é que se passa?,
pergunta ela,
– estou nervoso,
digo eu.  

sábado, 7 de julho de 2018

CONTEST OF CHAMPIONS

Às vezes, na quietude das duas da manhã, quando estou sozinho sentado ao balcão, alguém mais velho aparece e diz alto, porque não está a falar para mim, está a falar para o barman e para os outros que também estão ali sentados,
– não percebo o meu amigo Miguel, um homem de valor, um intelectual que ganha a toda a gente ao xadrez e está aqui, a esta hora, com os olhos enfiados nessa máquina diabólica, nesse telefone do séc. XXI, a jogar um jogo de porrada como se fosse um garoto de calções – olhem para isto – o mundo anda ao contrário,
diz ele enquanto me põe o braço à volta do ombro e ri, e eu carrego no pause e olho para ele e pouso o telemóvel no balcão e digo,
– é um bom jogo, tem um sentido de justiça, se formos bons o suficiente, se formos bons o suficiente a jogar com a personagem certa,  é possível ganhar o jogo, é difícil, mas é possível – é parecido com o xadrez, não há sorte, nem deus, o destino ou o universo.
E depois ele ri-se e diz,
– o que é que estás a beber?
e eu agradeço mas digo que tenho o copo cheio e ele diz,
– conta-me, novidades?
Isto,
claro,
era para começar de outra maneira. Ia começar assim,
o dia de hoje foi complicado,
ou,
o dia de hoje foi difícil,
e depois continuava com,
quando eu começo um texto a dizer que o dia foi
complicado
ou
difícil
isso quer na verdade dizer que deixei de querer perceber as pessoas, não são as pessoas à minha volta – não são as pessoas que me conhecem, nem que seja um pouco, não são sequer aquelas que me encontram na quietude das duas da manhã ao balcão de um bar – não, são as outras, aquelas com quem tenho de lidar mesmo não querendo, aquelas que me dizem,
– como estás?,
ou,
 tudo bem?,
mesmo que tudo isso seja o maior absurdo ou a maior hipocrisia,
como dizia Thomas Bernhard.
Agora estou bem, já passaram algumas horas. Estou sentado em minha casa, no sofá da minha casa.
– O dia foi assim tão mau?,
pergunta ela.
Eu olho para ela, sentada ao meu lado, o sol atrás dela, e, de repente, nada me parece assim tão mau. Eu pego-lhe na mão, digo,
– sabes, com o tempo aprendemos a lidar com as coisas, aprendemos a lidar com o facto de que as coisas nos vão ser tiradas, de que tudo nos vai ser tirado, às vezes por nada, às vezes só porque sim, como quando somos crianças e nos tiram alguma coisa da mão, um brinquedo que faz demasiado barulho, um parafuso que apanhámos do chão. E não percebemos por que razão isso aconteceu, por que razão ficámos sem aquilo que queríamos. E choramos. E por isso, na altura, às vezes devolvem-nos o brinquedo que faz demasiado barulho ou o parafuso que apanhámos do chão. Mas depois o tempo passa e percebemos que quanto mais o tempo passa mais ficamos sem elas, sem as coisas que queremos ter, percebemos que nos tiram as coisas, que as coisas nos são arrancadas das mãos e que não há nada que possamos fazer, que o barulho incomoda os outros, que os parafusos não têm onde se enroscar. E o tempo passa, e com o tempo começamos a perceber que o tempo é esta realidade que nos afasta das coisas, que ficamos com cada vez menos, sem amor, sem pessoas, sem sentimentos, sem vontade de olhar para os outros, sem vontade de continuar, sem nada que valha a pena porque, 
disse eu,
– há um dia em que percebemos que não há mesmo nada, há um dia em que percebemos que nem uma palmada nas costas ou um obrigado, nem uma merda de uma palmada nas costas ou de um obrigado. Nada a não ser um,
– como estás?,
como se nada fosse, como se depois de te tirarem tudo o que tens te dissessem,
–  tudo bem?,
e lhes devesses um sorriso porque a vida é mesmo assim. E é isso, é aprender a viver com isso. E é continuar, é continuar a continuar, sem pensar no que nos tiraram, mesmo que doa, mesmo que magoe, mesmo que não seja justo, mesmo que não seja justo como o meu jogo,
disse eu.
E depois percebi que não estavas ao meu lado, que eu estava a falar sozinho, sentado no sofá, com o sol atrás de ti, sem ti.

terça-feira, 3 de julho de 2018

A SOLIDÃO INVOLUNTÁRIA DOS HOMENS SOLTEIROS

– Talvez no final disto tudo possamos ir beber um café os dois, sossegados numa esplanada, sem ninguém que nos veja, sem ninguém que olhe para nós, não sei, se calhar é má ideia, o que é que achas?, não sei, achas que é uma má ideia?, eu não acho que seja uma má ideia, se calhar podíamos jantar, eu gostava, não tem mal nenhum, se calhar podíamos ir jantar os dois no final disto tudo, podíamos jantar num sítio sossegado, não tem de ser à beira mar, pode ser num sítio qualquer, eu gosto de sushi mas não tem de ser sushi, pode ser outra coisa qualquer, pode ser mexicano ou um bitoque, não sei, só um sítio onde possamos estar os dois a conversar, a falar um bocado um com o outro, a conhecermo-nos melhor, porque,
disse ela,
– tenho essa sensação, de que não te conheço, de que não sei bem quem és e de que tu não sabes bem quem eu sou, de que não sabemos quem somos, como se estivéssemos agora aqui a olhar um para o outro e, apesar de tudo, fôssemos dois desconhecidos, apesar de eu te conhecer há não sei quanto tempo e tu me conheceres há não sei quanto tempo,
disse ela,
– porque isso é estranho, é estranho eu olhar para ti e sentir que te conheço e sinto que tu olhas para mim e que sentes que me conheces, mas a verdade é que não nos conhecemos, a verdade é que não sabemos nada um sobre o outro, eu não sei qual é a tua banda preferida nem como é que és, como é que és na tua vida, no teu quotidiano, no dia-a-dia, como  é que dormes quando adormeces na cama,
– tu de certeza que é de barriga para cima,
disse eu enquanto lhe media o decote,
– o quê?,
disse ela,
– não, nada, estava a pensar noutra coisa,
disse eu.
Ela calou-se. 
Ela disse,
– está bem.
Houve um silêncio. 
Depois ela olhou para a parede, ela disse,
– se calhar vou-me embora, já é tarde.
Eu disse,
– tens a certeza?, é tarde, já bebeste demais, preferes vinho branco?, não te queres pôr mais à vontade, posso mudar a música, ainda é cedo, está-se bem na varanda, posso pôr a música lá fora,
e ela,
– não, deixa estar. É tarde. Tenho de me ir embora.
E eu depois de olhar para ela e depois de olhar para o relógio ao lado da cama,
– faz isso,
enquanto ela se levanta e atravessa a casa e abre a porta da rua e fecha a porta da rua e eu me encosto no sofá a pensar,
– se estás à espera que eu vá lá fora, à varanda, à tua procura, a procurar por ti enquanto te vais embora, a olhar para baixo a ver-te partir, estás muito enganada, bem que podes olhar para cima à minha procura, não vais encontrar ninguém, a não ser um pombo ou uma gaivota que talvez tenham poisado por acaso aqui em cima.
Adormeci e sonhei contigo.
Escrevo, “contigo” e as pessoas acham que estou a falar de ti. Não estou.
Adormeci e sonhei contigo, sonhei que me davas a mão e que te começavas a rir quando eu te perguntava,
– talvez no final disto tudo possamos ir beber um café os dois, sossegados numa esplanada, sem ninguém que nos veja, etc.
Levantei-me, tomei banho, fiz aquilo que faço todos os dias, a higiene diária, é isso que lhe chamam. Fiz o almoço, comi o almoço. Lavei a louça. À tarde pensei no sonho que tive, pensei em ti, na tua mão a segurar a minha. Pensei que era estranho começar a dizer que estava a pensar em ti sem estar a pensar em ti. Fiz o jantar, comi o jantar. Lavei a louça. Fiquei parado a olhar para a louça lavada. Saio de casa. Vou a um bar onde me conhecem, peço um whisky. Aparece uma amiga, alguém que conheço. Ela sorri, ela diz,
– posso sentar-me ao teu lado?
Baralhar e voltar a dar, penso eu. 
Daqui a nada adormeço no sofá, daqui a nada está ela a olhar para cima à minha procura depois de dizer que talvez no final disto tudo possamos ir beber um café os dois, sossegados, enquanto eu me pergunto a olhar para ti, mas mesmo a olhar para ti, eu a olhar de frente para ti, sem saber bem se hei-de apenas sorrir ou talvez desviar o olhar e o sorriso,
– o que é que estás a fazer no meu sonho?