pergunta ela,
– porque é que me odeias? É
porque eu sou assim? Porque eu sou mesmo assim, isto sou eu e eu sei que me
odeias porque eu sou assim, mas é assim que eu sou, não posso mudar o que eu
sou, sou assim, gostava que não me odiasses, gostava que gostasses de mim, só
um pouco, não era preciso ser muito, só o suficiente para eu poder continuar a
ser assim, para eu poder ser como sou sem que me odiasses, porque eu não quero
que tu me odeies mas sei que me odeias, que me odeias mesmo só porque eu sou
assim.
Eu estou a olhar para ela
e em vez de a beijar digo,
– não é isso,
e rio-me e acendo o
cigarro que estava a enrolar e penso que se isto fosse um filme era uma boa
altura para um fade out e umas letras a branco surgirem sobre um fundo
negro a dizer,
– 72 hours earlier,
porque ia ser um filme
americano.
Não sei. Acho que tenho
vivido uma vida estranha desde que nasci. Estou cada vez melhor a lidar com
isso. Ainda hoje, há bocado, enquanto estava a regar as plantas, ouvi um,
– obrigada,
e nem liguei, achei que
fosse uma vizinha de janela aberta a agradecer qualquer coisa ao marido, um
eco, uma confusão auditiva na minha cabeça, não me vou espantar com o que vier,
com o que continuar a aparecer, mas não deixa de ser estranho que há três dias,
sentado ao balcão de um bar, quando ela disse,
– então?,
eu me tenha sentido a
desaparecer, como se o chão se abrisse debaixo de mim e eu caísse por ali
abaixo sem me conseguir agarrar a nada,
– não é isso,
e rio-me e acendo o
cigarro que estava a enrolar,
– não é isso?,
diz ela,
– não é isso, o quê?,
e eu enfio a testa na
palma da mão e penso,
– há quanto tempo não
estavas assim? Olha para as tuas mãos, mal podes segurar no copo, mal consegues
pegar no cigarro, tens de fazer qualquer coisa, ela vai reparar, tens de dizer
qualquer coisa, diz o primeiro disparate que te vier à cabeça, não olhes para
ela de frente, não sorrias dessa maneira, ela vai perceber, diz qualquer coisa
e pronto, não sei, qualquer coisa que faça sentido, diz que te sentes sozinho,
que às vezes, à noite, vais até à varanda e ficas muito tempo a olhar para o
mar, que gostas de olhar para o mar, que te imaginas um dia a comprar um
veleiro e a dar a volta ao mundo no veleiro que compraste, inventa qualquer
coisa, conta-lhe aquela anedota do homem sem coração que morreu de priapismo, não,
não faças isso, isso é uma péssima ideia, diz-lhe que estás cansado, que estás
cansado das pessoas, que apenas queres que não te chateiem, que apenas queres que
não te chateiem com merdas, que queres que as pessoas te deixem em paz, que se
metam na vida delas e que te deixem em paz, diz-lhe isso, que queres ficar
sossegado a olhar para ela porque gostas do sorriso dela, diz-lhe que quando
ela se ri nem tudo parece mau, ou diz apenas qualquer coisa antes que ela
pergunte o que é que se passa,
– o que é que se passa?,
pergunta ela,
– estou nervoso,
digo eu.
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