sábado, 7 de julho de 2018

CONTEST OF CHAMPIONS

Às vezes, na quietude das duas da manhã, quando estou sozinho sentado ao balcão, alguém mais velho aparece e diz alto, porque não está a falar para mim, está a falar para o barman e para os outros que também estão ali sentados,
– não percebo o meu amigo Miguel, um homem de valor, um intelectual que ganha a toda a gente ao xadrez e está aqui, a esta hora, com os olhos enfiados nessa máquina diabólica, nesse telefone do séc. XXI, a jogar um jogo de porrada como se fosse um garoto de calções – olhem para isto – o mundo anda ao contrário,
diz ele enquanto me põe o braço à volta do ombro e ri, e eu carrego no pause e olho para ele e pouso o telemóvel no balcão e digo,
– é um bom jogo, tem um sentido de justiça, se formos bons o suficiente, se formos bons o suficiente a jogar com a personagem certa,  é possível ganhar o jogo, é difícil, mas é possível – é parecido com o xadrez, não há sorte, nem deus, o destino ou o universo.
E depois ele ri-se e diz,
– o que é que estás a beber?
e eu agradeço mas digo que tenho o copo cheio e ele diz,
– conta-me, novidades?
Isto,
claro,
era para começar de outra maneira. Ia começar assim,
o dia de hoje foi complicado,
ou,
o dia de hoje foi difícil,
e depois continuava com,
quando eu começo um texto a dizer que o dia foi
complicado
ou
difícil
isso quer na verdade dizer que deixei de querer perceber as pessoas, não são as pessoas à minha volta – não são as pessoas que me conhecem, nem que seja um pouco, não são sequer aquelas que me encontram na quietude das duas da manhã ao balcão de um bar – não, são as outras, aquelas com quem tenho de lidar mesmo não querendo, aquelas que me dizem,
– como estás?,
ou,
 tudo bem?,
mesmo que tudo isso seja o maior absurdo ou a maior hipocrisia,
como dizia Thomas Bernhard.
Agora estou bem, já passaram algumas horas. Estou sentado em minha casa, no sofá da minha casa.
– O dia foi assim tão mau?,
pergunta ela.
Eu olho para ela, sentada ao meu lado, o sol atrás dela, e, de repente, nada me parece assim tão mau. Eu pego-lhe na mão, digo,
– sabes, com o tempo aprendemos a lidar com as coisas, aprendemos a lidar com o facto de que as coisas nos vão ser tiradas, de que tudo nos vai ser tirado, às vezes por nada, às vezes só porque sim, como quando somos crianças e nos tiram alguma coisa da mão, um brinquedo que faz demasiado barulho, um parafuso que apanhámos do chão. E não percebemos por que razão isso aconteceu, por que razão ficámos sem aquilo que queríamos. E choramos. E por isso, na altura, às vezes devolvem-nos o brinquedo que faz demasiado barulho ou o parafuso que apanhámos do chão. Mas depois o tempo passa e percebemos que quanto mais o tempo passa mais ficamos sem elas, sem as coisas que queremos ter, percebemos que nos tiram as coisas, que as coisas nos são arrancadas das mãos e que não há nada que possamos fazer, que o barulho incomoda os outros, que os parafusos não têm onde se enroscar. E o tempo passa, e com o tempo começamos a perceber que o tempo é esta realidade que nos afasta das coisas, que ficamos com cada vez menos, sem amor, sem pessoas, sem sentimentos, sem vontade de olhar para os outros, sem vontade de continuar, sem nada que valha a pena porque, 
disse eu,
– há um dia em que percebemos que não há mesmo nada, há um dia em que percebemos que nem uma palmada nas costas ou um obrigado, nem uma merda de uma palmada nas costas ou de um obrigado. Nada a não ser um,
– como estás?,
como se nada fosse, como se depois de te tirarem tudo o que tens te dissessem,
–  tudo bem?,
e lhes devesses um sorriso porque a vida é mesmo assim. E é isso, é aprender a viver com isso. E é continuar, é continuar a continuar, sem pensar no que nos tiraram, mesmo que doa, mesmo que magoe, mesmo que não seja justo, mesmo que não seja justo como o meu jogo,
disse eu.
E depois percebi que não estavas ao meu lado, que eu estava a falar sozinho, sentado no sofá, com o sol atrás de ti, sem ti.

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