terça-feira, 3 de julho de 2018

A SOLIDÃO INVOLUNTÁRIA DOS HOMENS SOLTEIROS

– Talvez no final disto tudo possamos ir beber um café os dois, sossegados numa esplanada, sem ninguém que nos veja, sem ninguém que olhe para nós, não sei, se calhar é má ideia, o que é que achas?, não sei, achas que é uma má ideia?, eu não acho que seja uma má ideia, se calhar podíamos jantar, eu gostava, não tem mal nenhum, se calhar podíamos ir jantar os dois no final disto tudo, podíamos jantar num sítio sossegado, não tem de ser à beira mar, pode ser num sítio qualquer, eu gosto de sushi mas não tem de ser sushi, pode ser outra coisa qualquer, pode ser mexicano ou um bitoque, não sei, só um sítio onde possamos estar os dois a conversar, a falar um bocado um com o outro, a conhecermo-nos melhor, porque,
disse ela,
– tenho essa sensação, de que não te conheço, de que não sei bem quem és e de que tu não sabes bem quem eu sou, de que não sabemos quem somos, como se estivéssemos agora aqui a olhar um para o outro e, apesar de tudo, fôssemos dois desconhecidos, apesar de eu te conhecer há não sei quanto tempo e tu me conheceres há não sei quanto tempo,
disse ela,
– porque isso é estranho, é estranho eu olhar para ti e sentir que te conheço e sinto que tu olhas para mim e que sentes que me conheces, mas a verdade é que não nos conhecemos, a verdade é que não sabemos nada um sobre o outro, eu não sei qual é a tua banda preferida nem como é que és, como é que és na tua vida, no teu quotidiano, no dia-a-dia, como  é que dormes quando adormeces na cama,
– tu de certeza que é de barriga para cima,
disse eu enquanto lhe media o decote,
– o quê?,
disse ela,
– não, nada, estava a pensar noutra coisa,
disse eu.
Ela calou-se. 
Ela disse,
– está bem.
Houve um silêncio. 
Depois ela olhou para a parede, ela disse,
– se calhar vou-me embora, já é tarde.
Eu disse,
– tens a certeza?, é tarde, já bebeste demais, preferes vinho branco?, não te queres pôr mais à vontade, posso mudar a música, ainda é cedo, está-se bem na varanda, posso pôr a música lá fora,
e ela,
– não, deixa estar. É tarde. Tenho de me ir embora.
E eu depois de olhar para ela e depois de olhar para o relógio ao lado da cama,
– faz isso,
enquanto ela se levanta e atravessa a casa e abre a porta da rua e fecha a porta da rua e eu me encosto no sofá a pensar,
– se estás à espera que eu vá lá fora, à varanda, à tua procura, a procurar por ti enquanto te vais embora, a olhar para baixo a ver-te partir, estás muito enganada, bem que podes olhar para cima à minha procura, não vais encontrar ninguém, a não ser um pombo ou uma gaivota que talvez tenham poisado por acaso aqui em cima.
Adormeci e sonhei contigo.
Escrevo, “contigo” e as pessoas acham que estou a falar de ti. Não estou.
Adormeci e sonhei contigo, sonhei que me davas a mão e que te começavas a rir quando eu te perguntava,
– talvez no final disto tudo possamos ir beber um café os dois, sossegados numa esplanada, sem ninguém que nos veja, etc.
Levantei-me, tomei banho, fiz aquilo que faço todos os dias, a higiene diária, é isso que lhe chamam. Fiz o almoço, comi o almoço. Lavei a louça. À tarde pensei no sonho que tive, pensei em ti, na tua mão a segurar a minha. Pensei que era estranho começar a dizer que estava a pensar em ti sem estar a pensar em ti. Fiz o jantar, comi o jantar. Lavei a louça. Fiquei parado a olhar para a louça lavada. Saio de casa. Vou a um bar onde me conhecem, peço um whisky. Aparece uma amiga, alguém que conheço. Ela sorri, ela diz,
– posso sentar-me ao teu lado?
Baralhar e voltar a dar, penso eu. 
Daqui a nada adormeço no sofá, daqui a nada está ela a olhar para cima à minha procura depois de dizer que talvez no final disto tudo possamos ir beber um café os dois, sossegados, enquanto eu me pergunto a olhar para ti, mas mesmo a olhar para ti, eu a olhar de frente para ti, sem saber bem se hei-de apenas sorrir ou talvez desviar o olhar e o sorriso,
– o que é que estás a fazer no meu sonho?

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