disse ela,
– tenho essa sensação, de
que não te conheço, de que não sei bem quem és e de que tu não sabes bem quem
eu sou, de que não sabemos quem somos, como se estivéssemos agora aqui a olhar
um para o outro e, apesar de tudo, fôssemos dois desconhecidos, apesar de eu te
conhecer há não sei quanto tempo e tu me conheceres há não sei quanto tempo,
disse ela,
– porque isso é estranho, é
estranho eu olhar para ti e sentir que te conheço e sinto que tu olhas para mim
e que sentes que me conheces, mas a verdade é que não nos conhecemos, a verdade é
que não sabemos nada um sobre o outro, eu não sei qual é a tua banda preferida
nem como é que és, como é que és na tua vida, no teu quotidiano, no dia-a-dia,
como é que dormes quando adormeces na
cama,
– tu de certeza que é de
barriga para cima,
disse eu enquanto lhe
media o decote,
– o quê?,
disse ela,
– não, nada, estava a
pensar noutra coisa,
disse eu.
Ela calou-se.
Ela disse,
Ela disse,
– está bem.
Houve um silêncio.
Depois ela olhou para a parede, ela disse,
Depois ela olhou para a parede, ela disse,
– se calhar vou-me embora,
já é tarde.
Eu disse,
– tens a certeza?, é
tarde, já bebeste demais, preferes vinho branco?, não te queres pôr mais à
vontade, posso mudar a música, ainda é cedo, está-se bem na varanda, posso pôr
a música lá fora,
e ela,
– não, deixa estar. É
tarde. Tenho de me ir embora.
E eu depois de olhar para
ela e depois de olhar para o relógio ao lado da cama,
– faz isso,
enquanto ela se levanta e
atravessa a casa e abre a porta da rua e fecha a porta da rua e eu me encosto
no sofá a pensar,
– se estás à espera que eu
vá lá fora, à varanda, à tua procura, a procurar por ti enquanto te vais
embora, a olhar para baixo a ver-te partir, estás muito enganada, bem que podes
olhar para cima à minha procura, não vais encontrar ninguém, a não ser um pombo
ou uma gaivota que talvez tenham poisado por acaso aqui em cima.
Adormeci e sonhei contigo.
Escrevo, “contigo” e as
pessoas acham que estou a falar de ti. Não estou.
Adormeci e sonhei contigo,
sonhei que me davas a mão e que te começavas a rir quando eu te perguntava,
– talvez no final disto tudo
possamos ir beber um café os dois, sossegados numa esplanada, sem ninguém que
nos veja, etc.
Levantei-me, tomei banho,
fiz aquilo que faço todos os dias, a higiene diária, é isso que lhe chamam. Fiz
o almoço, comi o almoço. Lavei a louça. À tarde pensei no sonho que tive,
pensei em ti, na tua mão a segurar a minha. Pensei que era estranho começar a
dizer que estava a pensar em ti sem estar a pensar em ti. Fiz o jantar, comi o
jantar. Lavei a louça. Fiquei parado a olhar para a louça lavada. Saio de casa.
Vou a um bar onde me conhecem, peço um whisky. Aparece uma amiga, alguém que
conheço. Ela sorri, ela diz,
– posso sentar-me ao teu
lado?
Baralhar e voltar a dar,
penso eu.
Daqui a nada adormeço no sofá, daqui a nada está ela a olhar para cima à minha procura depois de dizer que talvez no final disto tudo possamos ir beber um café os dois, sossegados, enquanto eu me pergunto a olhar para ti, mas mesmo a olhar para ti, eu a olhar de frente para ti, sem saber bem se hei-de apenas sorrir ou talvez desviar o olhar e o sorriso,
– o que é que estás a fazer no meu sonho?
Daqui a nada adormeço no sofá, daqui a nada está ela a olhar para cima à minha procura depois de dizer que talvez no final disto tudo possamos ir beber um café os dois, sossegados, enquanto eu me pergunto a olhar para ti, mas mesmo a olhar para ti, eu a olhar de frente para ti, sem saber bem se hei-de apenas sorrir ou talvez desviar o olhar e o sorriso,
– o que é que estás a fazer no meu sonho?
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