quarta-feira, 1 de agosto de 2018

O ÚLTIMO DIA

É estranha esta sensação, esta sensação de entrar em casa e me sentir sozinho, vazio, estive demasiado tempo habituado a isso para agora conseguir voltar a habituar-me ao mesmo, a voltar para casa, a abrir a porta e a sentir que me falta alguma coisa, de sentir que mesmo que digas,
– estou aqui,
eu continuo a entrar em casa sozinho, a sentar-me sozinho quando almoço ou quando janto, a adormecer e a acordar sozinho, porque mesmo que digas,
– estou aqui,
não estás aqui, estás noutro sítio, longe de mim.
Hoje foi um dia curto. Ontem foi um dia longo. À noite fui a uma festa. Não gosto de festas mas fui a uma festa, um aniversário. Estou sempre à tua procura, a estender a mão para o vazio e a olhar para o lado, a pensar que não devia ter vindo, que não devia ter vindo sem ti. Mas estás em casa, acho que estás em casa, na tua casa, enquanto eu estou aqui.
Encontro os meus amigos e mal ela me vê diz-me,
– ela não te partiu o coração, hã?,
e ela ri-se,
– ainda não,
digo eu,
– nem vai partir, porque o teu coração não se parte,
diz ela enquanto nos desviamos dos fotógrafos e eu aproveito para ir buscar um copo de vinho.
A Eunice, que faz 90 anos, está a um metro de mim, de costas para mim, mas eu não consigo falar com ela, há demasiadas pessoas à volta dela, demasiados fotógrafos e demasiados flashes. Tenho o copo de vinho na mão e os meus amigos perguntam-me por ti, perguntam-me se é verdade. Depois perguntam-me por mim, se eu estou bem, se eu estou feliz. Eu digo que sim e vou buscar outro copo de vinho.
Vamos para a sala de jantar e, não sei, devem estar umas sessenta pessoas, estamos a procurar num papel afixado numa porta em que mesa nos sentamos quando alguém que eu não conheço me agarra no braço e me diz como se me conhecesse,
– há aqui mais talento do que estrelas no universo.
Estive para dizer,
– não me parece,
mas lembrei-me de ti, lembrei-me de ti a dizeres,
– não sejas assim,
e por isso calei-me, limitei-me a sorrir, a acenar que sim com a cabeça e a sentar-me no meu lugar.
Depois comemos e fumamos cigarros no intervalo dos pratos. Há uma varanda para fumarmos. No cigarro entre o primeiro e o segundo prato o Pedro diz que eu pareço cansado. Eu pergunto pelo David, se ele sabe se ele está bem, se a criança nasce esta semana ou na próxima. Ele diz que sim, que deve estar quase. Depois pergunta-me onde é que há cinzeiros, eu olho para baixo e digo,
– são turistas,
ele ri-se e diz,
– esqueceste-te dela?.
No cigarro entre o segundo e o terceiro prato estou sozinho a olhar para a rua, a pensar na hybris, a pensar que não devia estar aqui, que devia estar contigo, a segurar-te na mão, a pensar que alguém ao meu lado me diz,
– a merda da hybris, Miguel, foi isso que te trouxe até aqui,
enquanto olho para baixo, para os turistas, e atiro mais um cigarro contra eles.
No final do terceiro prato chega o Presidente da República. Toda a gente pega no telemóvel, mesmo aqueles que não pegaram, mas quando ele se levanta para discursar toda a gente se levanta, mesmo que não saibam porquê, e eu fico contente apesar de ele pedir para todos nos sentarmos. A seguir houve muitos discursos e elogios. E toda a gente falou bem, toda a gente disse coisas boas e agradáveis. Toda a gente foi sincera sem ser verdadeira.
Depois a Eunice quis falar e toda gente se calou, toda a gente se calou mesmo. Houve um silêncio. Ela disse, ela disse assim,
– são 90 anos e sinto-me muito grata por todo este carinho. São 90 anos e não sei quando vou partir – ninguém sabe – mas acho que quando partir me vou juntar a todas as pessoas que eu amei,
– a  todas as pessoas que eu amei,
disse ela.
Não disse,
– a todas as pessoas que me amaram,
não, ela disse,
– a  todas as pessoas que eu amei.
Lembrei-me do dia anterior, de mim a explicar-lhes que com o tempo perdemos o amor. Que primeiro sofremos e vivemos tudo como se fosse a última coisa, e que depois vamos sentindo cada vez menos, relação atrás de relação, ano após ano, até não sentirmos nada, até ser tudo falso, até ser apenas uma conveniência, uma coisa qualquer que fingimos que existe porque não queremos estar sozinhos,
– até ser tudo uma mentira,
disse eu à Maria, que me tinha perguntado o que é que eu sentia realmente por ti,
– e se voltamos a sentir alguma coisa, se voltamos a sentir que estamos vivos, que há um lugar no mundo para duas pessoas, não fazemos muitas perguntas, apenas lutamos para que isso aconteça,
disse eu,
– porque talvez seja a última vez, a última oportunidade,
disse eu.
Entretanto metade das pessoas já se foram embora e eu consigo finalmente chegar ao pé dela e dizer,
– finalmente,
enquanto ela se ri e damos um abraço, e depois ela faz o que faz sempre quando me vê, põe as duas mãos nos meus ombros e pergunta-me,
– como vai a tua vida?,
e como eu não lhe consigo mentir, porque nunca lhe consegui mentir, digo,
– bem,
e ela parece surpresa, ela pergunta,
– encontraste o teu equilíbrio?,
com as mãos nos meus ombros e os olhos nos meus, e eu digo a olhar para ela,
– acho que sim.
E então, a maior actriz de todos os tempos, no dia em que faz 90 anos, olha para mim e diz sincera,
– que bom, que bom,
enquanto eu penso em ti.

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