quarta-feira, 22 de agosto de 2018

O PRIMEIRO DIA

Caro Manel,

pode parecer estranho escrever-te uma carta quando ainda mal consegues abrir os olhos, e talvez pareça ainda mais estranho porque durante muito tempo não a vais conseguir ler e depois durante muito tempo não a vais conseguir perceber, mas eu tenho este hábito, se calhar porque estou a escrever a mim próprio e não a ti, mas mesmo assim vou escrevê-la e esperar que daqui a vinte anos possas estar a lê-la e talvez a perceber-me, que se calhar é a única coisa que alguma vez quis das pessoas.
Quando tiveres 20 anos, quando estiveres a ler isto, é provável que eu já não exista, que talvez seja só uma memória que o teu pai recorde num Domingo à tarde depois de dois ou três copos de vinho ao almoço, ou talvez eu esteja distante de ti porque a vida faz de nós pessoas que se afastam com muito mais facilidade do que se aproximam. Não sei. Não sei como vai ser daqui a vinte anos, o que vou estar a fazer ou o que tu vais estar a fazer, mas sei que na altura vais achar que vinte anos é muito tempo, que vinte anos nunca mais acabam. Eu também achava isso quando tinha a tua idade. Se calhar ainda acho. Vinte anos parece muito tempo e eu com a tua idade achava que aos 40, vinte anos depois, ia ser um velho. Olhava-me ao espelho e pensava,
– daqui a vinte anos vou estar velho,
e se calhar por isso não estou assim tão diferente do que era porque continuo a olhar para o espelho e a achar que vou estar velho daqui a mais vinte, e se calhar aos 60 vou achar que a velhice só vai chegar aos 80 e só não digo por aí em diante porque não devo lá chegar.
Se calhar não estou assim tão diferente do que era, continuo a gostar das mesmas músicas, continuo a ler os mesmos autores e continuo a gostar de fazer as mesmas coisas, claro que ouço outras músicas, claro que leio outros autores e claro que há outras coisas que gosto de fazer, mas parece que é tudo uma consequência, algo que apareceu do que já existia. Talvez a maior diferença esteja nas pessoas, na maneira como me afastei delas, na maneira como as reduzi para cada vez menos, como as fui deixando.
Não sei se estás a perceber onde quero chegar com isto, mas seja como for, nasceste hoje. Os teus pais vinham cá jantar mas depois decidiste nascer e por isso eles não vieram cá jantar. Deviam ser umas três e tal, quase quatro da manhã quando o teu pai me mandou uma fotografia tua com uma legenda que dizia,
– já nasceu.
Tive de me meter no carro a essa hora e conduzir até Lisboa para ir dar um abraço ao teu pai. Ele disse-me para não ir porque eu estava bêbado, mas fui na mesma. Na estrada não conseguia deixar de pensar que se eu morresse não ia fazer mal, que se me espatifasse contra os rails não ia fazer diferença, porque a única coisa que andamos cá a fazer é só isto, uns que morrem e outros que nascem. Mas não me espetei contra os rails e ainda bebi mais dois whiskys com o teu pai porque obrigámos o homem do café a abrir a porta enquanto ele dizia,
– estamos fechados, estamos fechados,
e eu,
– este homem acabou de ser pai,
e não me calei até ele nos servir.
Tens 20 anos agora, mas há vinte anos eu vi-te pela primeira no primeiro dia em que vieste a este mundo. Não há muita gente que eu tenha visto no primeiro dia em que vieram ao mundo e também não há muita gente que tenhas visto no teu primeiro dia neste mundo. Passaste a maior parte do dia a dormir ou de olhos fechados. Mas quando me aproximei de ti, quando olhei para ti, tu abriste os olhos e viste-me e não choraste, e eu também não chorei. Por isso temos isso em comum, és das poucas pessoas que eu vi no primeiro dia em que elas vieram ao mundo e eu sou das poucas pessoas que viste no primeiro dia em que vieste ao mundo, e não chorámos quando nos vimos.
Olho para ti, acabado de nascer há umas horas e começo a escrever o que estou agora a escrever e a pensar no que te quero dizer, no que te quero dizer daqui a vinte anos, alguns conselhos básicos para a vida e outras coisas que talvez agora aches inúteis, mas que talvez te ajudem um dia e que são verdade. Sabes, a tua mãe foi uma mulher muito corajosa no dia em que nasceste e o teu pai segurou-lhe a mão o tempo todo, lembra-te disso, isso é importante.
Eu sei que por esta altura já deves ter percebido que isto é uma merda, que isto não vale nada, mas é mesmo assim, e não melhora muito com o tempo, apenas nos habituamos a que tudo corra mal, ou que nada corra como queremos. Acho que o que te quero dizer é que mesmo que a maior parte das vezes tudo pareça só um enorme vazio cheio de pessoas, tudo pareça apenas um enorme desperdício de tudo, de tempo, de amor, de sofrimento, do que nós somos, do que nós queremos ser, a verdade é que não é assim tão difícil, a verdade é que é tudo mais ou menos simples, como o teu pai a apertar a mão da tua mãe enquanto nascias.
Por isso, estás a ver, sou um homem de 40 anos que nunca viveu o que eles viveram, e o tempo já deu cabo de mim o suficiente para eu olhar para o espelho, achar que estou velho e me tornar num cínico. Mas ainda não fiz isso. Ainda não fiz isso porque o mais surpreendente é que, não sei, às vezes as coisas mudam, às vezes nem tudo é assim tão mau, às vezes só temos de acreditar que merecemos mais e que temos de querer ter mais. E às vezes, a maior parte das vezes, só temos que olhar para o lado e ver o que temos, ver mesmo o que temos, sem pensar em nada a não ser nisso, sem pensar em rails da auto-estrada ou como vai ser daqui a vinte anos, às vezes basta mesmo olharmo-nos ao espelho e não termos medo.
E é isso.
Uma última coisa, quando hoje encostei a minha face à tua, na maternidade, enquanto a tua mãe, que achava que eu te ia dar um beijo, dizia,
– que querido,
e o teu pai para ela,
– ele está um homem diferente,
na verdade sussurrei-te ao ouvido,
– boa sorte,
porque neste mundo de merda precisamos de toda a ajuda que conseguirmos.

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