pode parecer estranho
escrever-te uma carta quando ainda mal consegues abrir os olhos, e talvez
pareça ainda mais estranho porque durante muito tempo não a vais conseguir ler
e depois durante muito tempo não a vais conseguir perceber, mas eu tenho este hábito,
se calhar porque estou a escrever a mim próprio e não a ti, mas mesmo assim vou
escrevê-la e esperar que daqui a vinte anos possas estar a lê-la e talvez a perceber-me,
que se calhar é a única coisa que alguma vez quis das pessoas.
Quando tiveres 20 anos,
quando estiveres a ler isto, é provável que eu já não exista, que talvez seja só
uma memória que o teu pai recorde num Domingo à tarde depois de dois ou três
copos de vinho ao almoço, ou talvez eu esteja distante de ti porque a vida faz de
nós pessoas que se afastam com muito mais facilidade do que se aproximam. Não
sei. Não sei como vai ser daqui a vinte anos, o que vou estar a fazer ou o que
tu vais estar a fazer, mas sei que na altura vais achar que vinte anos é muito
tempo, que vinte anos nunca mais acabam. Eu também achava isso quando tinha a
tua idade. Se calhar ainda acho. Vinte anos parece muito tempo e eu com a tua
idade achava que aos 40, vinte anos depois, ia ser um velho. Olhava-me ao
espelho e pensava,
– daqui a vinte anos vou
estar velho,
e se calhar por isso não
estou assim tão diferente do que era porque continuo a olhar para o espelho e a
achar que vou estar velho daqui a mais vinte, e se calhar aos 60 vou achar que
a velhice só vai chegar aos 80 e só não digo por aí em diante porque não devo lá
chegar.
Se calhar não estou assim
tão diferente do que era, continuo a gostar das mesmas músicas, continuo a ler
os mesmos autores e continuo a gostar de fazer as mesmas coisas, claro que ouço
outras músicas, claro que leio outros autores e claro que há outras coisas que
gosto de fazer, mas parece que é tudo uma consequência, algo que apareceu do
que já existia. Talvez a maior diferença esteja nas pessoas, na maneira como me
afastei delas, na maneira como as reduzi para cada vez menos, como as fui
deixando.
Não sei se estás a
perceber onde quero chegar com isto, mas seja como for, nasceste hoje. Os teus
pais vinham cá jantar mas depois decidiste nascer e por isso eles não vieram cá
jantar. Deviam ser umas três e tal, quase quatro da manhã quando o teu pai me
mandou uma fotografia tua com uma legenda que dizia,
– já nasceu.
Tive de me meter no carro
a essa hora e conduzir até Lisboa para ir dar um abraço ao teu pai. Ele
disse-me para não ir porque eu estava bêbado, mas fui na mesma. Na estrada não
conseguia deixar de pensar que se eu morresse não ia fazer mal, que se me
espatifasse contra os rails não ia fazer diferença, porque a única coisa
que andamos cá a fazer é só isto, uns que morrem e outros que nascem. Mas não
me espetei contra os rails e ainda bebi mais dois whiskys com o teu pai
porque obrigámos o homem do café a abrir a porta enquanto ele dizia,
– estamos fechados,
estamos fechados,
e eu,
– este homem acabou de ser
pai,
e não me calei até ele nos
servir.
Tens 20 anos agora, mas há
vinte anos eu vi-te pela primeira no primeiro dia em que vieste a este mundo. Não
há muita gente que eu tenha visto no primeiro dia em que vieram ao mundo e também
não há muita gente que tenhas visto no teu primeiro dia neste mundo. Passaste a
maior parte do dia a dormir ou de olhos fechados. Mas quando me aproximei de
ti, quando olhei para ti, tu abriste os olhos e viste-me e não choraste, e eu
também não chorei. Por isso temos isso em comum, és das poucas pessoas que eu
vi no primeiro dia em que elas vieram ao mundo e eu sou das poucas pessoas que
viste no primeiro dia em que vieste ao mundo, e não chorámos quando nos vimos.
Olho para ti, acabado de nascer
há umas horas e começo a escrever o que estou agora a escrever e a pensar no que
te quero dizer, no que te quero dizer daqui a vinte anos, alguns conselhos básicos
para a vida e outras coisas que talvez agora aches inúteis, mas que talvez te
ajudem um dia e que são verdade. Sabes, a tua mãe foi uma mulher muito corajosa
no dia em que nasceste e o teu pai segurou-lhe a mão o tempo todo, lembra-te
disso, isso é importante.
Eu sei que por esta altura
já deves ter percebido que isto é uma merda, que isto não vale nada, mas é
mesmo assim, e não melhora muito com o tempo, apenas nos habituamos a que tudo
corra mal, ou que nada corra como queremos. Acho que o que te quero dizer é que
mesmo que a maior parte das vezes tudo pareça só um enorme vazio cheio de
pessoas, tudo pareça apenas um enorme desperdício de tudo, de tempo, de amor, de
sofrimento, do que nós somos, do que nós queremos ser, a verdade é que não é
assim tão difícil, a verdade é que é tudo mais ou menos simples, como o teu pai
a apertar a mão da tua mãe enquanto nascias.
Por isso, estás a ver, sou
um homem de 40 anos que nunca viveu o que eles viveram, e o tempo já deu cabo
de mim o suficiente para eu olhar para o espelho, achar que estou velho e me
tornar num cínico. Mas ainda não fiz isso. Ainda não fiz isso porque o mais
surpreendente é que, não sei, às vezes as coisas mudam, às vezes nem tudo é
assim tão mau, às vezes só temos de acreditar que merecemos mais e que temos de
querer ter mais. E às vezes, a maior parte das vezes, só temos que olhar para o
lado e ver o que temos, ver mesmo o que temos, sem pensar em nada a não ser
nisso, sem pensar em rails da auto-estrada ou como vai ser daqui a vinte
anos, às vezes basta mesmo olharmo-nos ao espelho e não termos medo.
E é isso.
Uma última coisa, quando
hoje encostei a minha face à tua, na maternidade, enquanto a tua mãe, que
achava que eu te ia dar um beijo, dizia,
– que querido,
e o teu pai para ela,
– ele está um homem
diferente,
na verdade sussurrei-te ao
ouvido,
– boa sorte,
porque neste mundo de
merda precisamos de toda a ajuda que conseguirmos.
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