– o que é que se passa?,
ou
– o que é que tens?,
posso dizer apenas,
– nada, este tempo deita-me
abaixo, é este tempo que me deixa com este ar de suicídio. Um tipo olha para
cima, para as nuvens, na varanda, para a chuva a cair, num oitavo andar, e o
vento e tudo cinzento, tudo cinzento-escuro para onde quer que se olhe, e tem
vontade de se atirar dali para baixo ou então de ir dar um passeio ao lado da linha
do comboio,
e as pessoas,
– ah, pois, comigo é a
mesma coisa, que saudades do Verão,
e eu,
– sim, que saudades do Verão.
Acho que devia viver num
país nórdico onde não houvesse sol, ou onde houvesse pouco sol, assim não tinha
de dar explicações a ninguém, bastava dizer,
– é este tempo,
e deixava de ouvir dizer as
pessoas a dizer,
– este está sempre com ar
infeliz,
ou,
– a vida são dois dias.
E nem sequer tem a ver
contigo, tem a ver comigo. Não me preocupa nem entristece onde estás ou com
quem estás porque, seja como for, não estás aqui nem estás comigo. Preocupa-me
e entristece-me onde estou e com quem estou, ou com quem não estou. Preocupa-me
e entristece-me chegar a casa e pousar a carteira, a chave do carro, o tabaco e
os óculos. Preocupa-me e entristece-me fazer isso, essa única rotina que me
resta, a de pousar as coisas no sítio certo, para não as perder, para não
perder a carteira, a chave do carro, o tabaco e os óculos, que são as únicas
coisas que ainda não perdi.
Devia mudar-me para um
país nórdico, com menos sol, onde eu pudesse apenas dizer,
– é o tempo,
em vez de ter de explicar
que estou bem, que só quero que me deixem em paz, que só quero estar sossegado,
a pensar no que quer que a minha cabeça queira pensar, um país onde eu pudesse
dizer,
– este frio dá cabo de mim,
em vez de ter de explicar
que te foste embora, que não vais voltar, que sinto a tua falta e que gostava
que uma vez houvesse uma coisa que me corresse bem, uma coisa importante, que
fizesse a diferença, que mudasse a minha vida, que fizesse com que eu chegasse
a casa e pousasse a carteira, a chave do carro, o tabaco e os óculos onde calhasse,
porque mesmo que os perdesse isso não faria diferença nenhuma. E por isso devia
mudar-me para um país nórdico, para a Suécia, onde está sempre frio mesmo
quando está calor.
Estive uma vez na Suécia,
era miúdo, e acho que gostei. Lembro-me que estava frio e não parou de chover
durante uma semana. E é isso, gostava de ir para a Suécia, ou para qualquer
lado onde não haja sol. Se calhar lembrei-me disso porque hoje à tarde,
enquanto chovia lá fora, estava deitado no sofá a ver uma série, uma série
sueca, e eu deitado no sofá a ver uma série sueca não sou eu deitado no sofá a
ver uma série sueca, sou eu a pensar em como é que de repente estou sozinho
deitado num sofá a ver uma série sueca, sou eu a pensar na minha vida toda e em
como é que tudo acabou assim, comigo a olhar para a televisão e a ver uma
mulher sueca a dizer ao marido sueco,
– desculpa, já não te amo,
e ele a olhar para ela um
segundo e depois a ir-se embora, a virar as costas e a ir-se embora, sem
gritos, sem dor, sem argumentos, ele apenas a ir-se embora e eu a pensar,
– devia ter nascido na Suécia,
devia ser sueco.
Entretanto, alguém chega e
pergunta o que é que se passa comigo, que estou com ar de quem vai morrer daqui
a nada,
– não,
diz outro alguém,
– é só o tempo, ele está
assim por causa do tempo, tem saudades do sol,
e eu digo,
– não, tenho saudades da
Lua.
1 comentário:
Beijinhos
Enviar um comentário