quinta-feira, 1 de novembro de 2018

ESTOCOLMO

Pelo menos está frio outra vez e pelo menos voltou a chover outra vez. Nem tudo é mau. Voltou a estar frio e voltou a chover e por isso agora em vez de me perder em explicações, quando me perguntam,
– o que é que se passa?,
ou
– o que é que tens?,
posso dizer apenas,
– nada, este tempo deita-me abaixo, é este tempo que me deixa com este ar de suicídio. Um tipo olha para cima, para as nuvens, na varanda, para a chuva a cair, num oitavo andar, e o vento e tudo cinzento, tudo cinzento-escuro para onde quer que se olhe, e tem vontade de se atirar dali para baixo ou então de ir dar um passeio ao lado da linha do comboio,
e as pessoas,
– ah, pois, comigo é a mesma coisa, que saudades do Verão,
e eu,
– sim, que saudades do Verão.
Acho que devia viver num país nórdico onde não houvesse sol, ou onde houvesse pouco sol, assim não tinha de dar explicações a ninguém, bastava dizer,
– é este tempo,
e deixava de ouvir dizer as pessoas a dizer,
– este está sempre com ar infeliz,
ou,
– a vida são dois dias.
E nem sequer tem a ver contigo, tem a ver comigo. Não me preocupa nem entristece onde estás ou com quem estás porque, seja como for, não estás aqui nem estás comigo. Preocupa-me e entristece-me onde estou e com quem estou, ou com quem não estou. Preocupa-me e entristece-me chegar a casa e pousar a carteira, a chave do carro, o tabaco e os óculos. Preocupa-me e entristece-me fazer isso, essa única rotina que me resta, a de pousar as coisas no sítio certo, para não as perder, para não perder a carteira, a chave do carro, o tabaco e os óculos, que são as únicas coisas que ainda não perdi.
Devia mudar-me para um país nórdico, com menos sol, onde eu pudesse apenas dizer,
– é o tempo,
em vez de ter de explicar que estou bem, que só quero que me deixem em paz, que só quero estar sossegado, a pensar no que quer que a minha cabeça queira pensar, um país onde eu pudesse dizer,
– este frio dá cabo de mim,
em vez de ter de explicar que te foste embora, que não vais voltar, que sinto a tua falta e que gostava que uma vez houvesse uma coisa que me corresse bem, uma coisa importante, que fizesse a diferença, que mudasse a minha vida, que fizesse com que eu chegasse a casa e pousasse a carteira, a chave do carro, o tabaco e os óculos onde calhasse, porque mesmo que os perdesse isso não faria diferença nenhuma. E por isso devia mudar-me para um país nórdico, para a Suécia, onde está sempre frio mesmo quando está calor.
Estive uma vez na Suécia, era miúdo, e acho que gostei. Lembro-me que estava frio e não parou de chover durante uma semana. E é isso, gostava de ir para a Suécia, ou para qualquer lado onde não haja sol. Se calhar lembrei-me disso porque hoje à tarde, enquanto chovia lá fora, estava deitado no sofá a ver uma série, uma série sueca, e eu deitado no sofá a ver uma série sueca não sou eu deitado no sofá a ver uma série sueca, sou eu a pensar em como é que de repente estou sozinho deitado num sofá a ver uma série sueca, sou eu a pensar na minha vida toda e em como é que tudo acabou assim, comigo a olhar para a televisão e a ver uma mulher sueca a dizer ao marido sueco,
– desculpa, já não te amo,
e ele a olhar para ela um segundo e depois a ir-se embora, a virar as costas e a ir-se embora, sem gritos, sem dor, sem argumentos, ele apenas a ir-se embora e eu a pensar,
– devia ter nascido na Suécia, devia ser sueco.
Entretanto, alguém chega e pergunta o que é que se passa comigo, que estou com ar de quem vai morrer daqui a nada,
– não,
diz outro alguém,
– é só o tempo, ele está assim por causa do tempo, tem saudades do sol,
e eu digo,
– não, tenho saudades da Lua.