– vai ficar tudo bem,
e eu olhei para ti e
perguntei,
– quando?,
e já não me lembro se
disseste,
– não sei,
(claro que me lembro) ou
se apenas abriste a porta do carro e te foste embora, nem sequer me estavas a
segurar na mão, lembrei-me agora disso, que nem sequer estavas a segurar na
minha mão.
O tempo passa e as coisas
continuam na mesma, ou continuam a piorar, olho para a frente para o tempo à
minha frente e penso que daqui a dois ou três meses vou estar sentado a esta
mesma hora, nesta mesma cadeira, como o mesmo ecrã à minha frente a escrever
qualquer coisa como,
– quem me dera estar como
eu estava há dois ou três meses, na altura nem sabia mas estava muito melhor do
que estou agora,
mas o pior é que sei e por
isso tento aproveitar os dias, tento sair à rua, falar com as pessoas, rir-me
do que os outros dizem, mas acabo sempre sozinho encostado a qualquer coisa,
uma parede de um prédio, um candeeiro de rua, o umbral de uma porta que dá para
um jardim, enquanto acendo um cigarro, olho para cima e digo depois de te ver,
–
porque na verdade não digo
nada, apenas fico a olhar para ti, à espera que tu fales comigo. E se calhar não
dizes nada porque também estás à espera que seja eu a falar contigo. Depois
acendo um cigarro, e depois, como eu não gosto de silêncios, atiro o cigarro
para o meio da rua e vou para casa.
Às vezes acho que estou a
perder a cabeça, que não estou bem, que há qualquer coisa de errado a crescer
dentro de mim. Há bocado, por exemplo, à porta do meu prédio, olhei para os números
do código de entrada e não me conseguia lembrar de nada, de nada mesmo. Era um
vazio total. Nem sequer uma vaga recordação. Nem o primeiro número, nem quantos
eram, e enquanto tentava sequências aleatórias que resultavam sempre num,
– bzzzzzt,
em que a porta se matinha
fechada, só pensava,
– mas o que é que eu vou
fazer à minha vida?, vou ficar aqui sem conseguir entrar?, será que nunca mais
vou conseguir lembrar-me de como posso entrar em casa?, será que vou ficar para
sempre na rua, a dormir ao relento ou sentado no carro porque pelo menos não
perdi a chave do carro?,
enquanto procurava a chave
do carro e a encontrava no bolso e pensava,
– pelo menos tenho a chave
do carro, mesmo que não saiba onde ele está, mas não pode estar longe, é uma
questão de o encontrar.
Depois pensei que se
calhar estava num sonho e que nos sonhos as coisas não têm de fazer sentido, e
por isso depois de vinte tentativas a carregar em números ao calhas e no enter
a ouvir sempre o mesmo,
– bzzzzzt,
decidi tocar à minha
porta, tocar para mim mesmo na esperança que eu estivesse em casa e me abrisse
a porta, ao mesmo tempo que chegou à porta do prédio um homem que disse,
– boa noite,
e eu,
– boa noite, esqueci-me do
código, veja lá que estupidez, estou aqui há uns dez minutos e não consigo
entrar em casa, não me consigo lembrar mesmo, há um vazio na minha cabeça, não
sei o que se passa, é como se me tivessem tirado uma parte do cérebro e estou
aqui, com frio, à espera de uma solução para um problema que não sei resolver,
até toquei à campainha de minha casa na esperança que esteja lá alguém, já viu
que estupidez?, deve ser da noite, desta hora da noite ou do cansaço disto
tudo,
– pois,
disse o homem enquanto
carregava nos botões e uma voz feminina dizia,
– quem é?,
e eu,
– sou eu,
e a porta se abria ao
mesmo tempo que o homem carregava no enter, e eu sem saber se eras tu
que estavas em minha casa, se eu tinha tocado para o andar errado ou se o homem
apenas tinha aberto a porta,
– e sabe ao menos onde
vive?,
perguntou ele enquanto
olhava para mim,
– sim,
disse eu,
– eu sei onde vivo.
Partilhámos o elevador em
silêncio. Ele saiu antes de mim, eu vivo
no último andar, não disse nada ao sair, mesmo depois de eu ter dito,
– obrigado.
Depois abri a porta do
elevador e antes de abrir a de casa pensei que talvez estivesse noutro
universo, noutro universo em que me abrisses tu a porta em vez de ser eu a abri-la, e me perguntasses,
– porque é que só chegaste
a esta hora, já viste que horas são?,
e tivéssemos uma discussão
por causa disso.
Mas não, abri a porta e a
casa estava vazia, estava escura e em silêncio, não havia nenhuma voz feminina
que me perguntasse,
– quem é?,
à minha espera, e eu
lembrei-me, lembrei-me de ti a dizeres,
– as coisas vão melhorar,
e eu a olhar para cima, para ti, a atirar o cigarro para a rua e a perguntar,
– quando?
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