quinta-feira, 15 de novembro de 2018

QUARTO CRESCENTE

Acho que a última coisa que te ouvi dizer (não é verdade, mas é assim que gosto de me lembrar das coisas) foi,
– vai ficar tudo bem,
e eu olhei para ti e perguntei,
– quando?,
e já não me lembro se disseste,
– não sei,
(claro que me lembro) ou se apenas abriste a porta do carro e te foste embora, nem sequer me estavas a segurar na mão, lembrei-me agora disso, que nem sequer estavas a segurar na minha mão.
O tempo passa e as coisas continuam na mesma, ou continuam a piorar, olho para a frente para o tempo à minha frente e penso que daqui a dois ou três meses vou estar sentado a esta mesma hora, nesta mesma cadeira, como o mesmo ecrã à minha frente a escrever qualquer coisa como,
– quem me dera estar como eu estava há dois ou três meses, na altura nem sabia mas estava muito melhor do que estou agora,
mas o pior é que sei e por isso tento aproveitar os dias, tento sair à rua, falar com as pessoas, rir-me do que os outros dizem, mas acabo sempre sozinho encostado a qualquer coisa, uma parede de um prédio, um candeeiro de rua, o umbral de uma porta que dá para um jardim, enquanto acendo um cigarro, olho para cima e digo depois de te ver,
porque na verdade não digo nada, apenas fico a olhar para ti, à espera que tu fales comigo. E se calhar não dizes nada porque também estás à espera que seja eu a falar contigo. Depois acendo um cigarro, e depois, como eu não gosto de silêncios, atiro o cigarro para o meio da rua e vou para casa.
Às vezes acho que estou a perder a cabeça, que não estou bem, que há qualquer coisa de errado a crescer dentro de mim. Há bocado, por exemplo, à porta do meu prédio, olhei para os números do código de entrada e não me conseguia lembrar de nada, de nada mesmo. Era um vazio total. Nem sequer uma vaga recordação. Nem o primeiro número, nem quantos eram, e enquanto tentava sequências aleatórias que resultavam sempre num,
– bzzzzzt,
em que a porta se matinha fechada, só pensava,
– mas o que é que eu vou fazer à minha vida?, vou ficar aqui sem conseguir entrar?, será que nunca mais vou conseguir lembrar-me de como posso entrar em casa?, será que vou ficar para sempre na rua, a dormir ao relento ou sentado no carro porque pelo menos não perdi a chave do carro?,
enquanto procurava a chave do carro e a encontrava no bolso e pensava,
– pelo menos tenho a chave do carro, mesmo que não saiba onde ele está, mas não pode estar longe, é uma questão de o encontrar.
Depois pensei que se calhar estava num sonho e que nos sonhos as coisas não têm de fazer sentido, e por isso depois de vinte tentativas a carregar em números ao calhas e no enter a ouvir sempre o mesmo,
– bzzzzzt,
decidi tocar à minha porta, tocar para mim mesmo na esperança que eu estivesse em casa e me abrisse a porta, ao mesmo tempo que chegou à porta do prédio um homem que disse,
– boa noite,
e eu,
– boa noite, esqueci-me do código, veja lá que estupidez, estou aqui há uns dez minutos e não consigo entrar em casa, não me consigo lembrar mesmo, há um vazio na minha cabeça, não sei o que se passa, é como se me tivessem tirado uma parte do cérebro e estou aqui, com frio, à espera de uma solução para um problema que não sei resolver, até toquei à campainha de minha casa na esperança que esteja lá alguém, já viu que estupidez?, deve ser da noite, desta hora da noite ou do cansaço disto tudo,
– pois,
disse o homem enquanto carregava nos botões e uma voz feminina dizia,
– quem é?,
e eu,
– sou eu,
e a porta se abria ao mesmo tempo que o homem carregava no enter, e eu sem saber se eras tu que estavas em minha casa, se eu tinha tocado para o andar errado ou se o homem apenas tinha aberto a porta,
– e sabe ao menos onde vive?,
perguntou ele enquanto olhava para mim,
– sim,
disse eu,
– eu sei onde vivo.
Partilhámos o elevador em silêncio.  Ele saiu antes de mim, eu vivo no último andar, não disse nada ao sair, mesmo depois de eu ter dito,
– obrigado.
Depois abri a porta do elevador e antes de abrir a de casa pensei que talvez estivesse noutro universo, noutro universo em que me abrisses tu a porta em vez de ser eu a abri-la, e me perguntasses,
– porque é que só chegaste a esta hora, já viste que horas são?,
e tivéssemos uma discussão por causa disso.
Mas não, abri a porta e a casa estava vazia, estava escura e em silêncio, não havia nenhuma voz feminina que me perguntasse,
– quem é?,
à minha espera, e eu lembrei-me, lembrei-me de ti a dizeres,
– as coisas vão melhorar,
e eu a olhar para cima, para ti, a atirar o cigarro para a rua e a perguntar,
– quando?

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