– não me fazes rir,
e eu não conseguia dizer
nada – isso acontece-me nos sonhos, a maior parte das vezes fico quieto sem
dizer nada, incapaz de falar, incapaz de dizer o que quero dizer, incapaz de me
mexer – apenas te via a afastares-te de
mim, a andares de costas para mim, cada vez para mais longe, enquanto eu ficava
quieto a ver-te ir embora, sem conseguir fazer-te rir, a tentar lembrar-me
daquela anedota do surdo que era um DJ techno de sucesso porque sofria
de Síndrome de Tourette.
À tarde vou comprar
tabaco. Antes disso olhei para o saldo da minha conta no Multibanco e pensei,
– pelo menos ainda posso
comprar tabaco, vou queixar-me de quê?,
enquanto atirava o talão
para o meio da rua e uma senhora muito feia atrás de mim dizia,
– o senhor tem noção do
que está a fazer?,
e eu,
– sim.
Na tabacaria compro o
tabaco e olho para umas dezenas de “raspadinhas” cheias de prémios. Pergunto
quanto custam e dizem-me que há uma enorme variedade, que quanto mais gastar
mais posso receber,
– quero a mais cara,
o rapaz atrás do balcão dá-me
a mais cara e eu pergunto porque se chamam “raspadinhas”,
– “raspadinhas”, porquê?,
pergunto eu,
– isto é quase um A4,
porque é que não se chamam “raspadas” em vez de “raspadinhas”?
O rapaz atrás do balcão
diz que não sabe, uma senhora alta ri-se enquanto murmura,
– raspadas ia parecer
outra coisa,
e um velho de barba branca
dá-me uma palmada nas costas e diz,
– estão aí um milhão de
euros, meu amigo. Um milhão de euros. Já ajudava, hã?,
e eu,
– ajudava bastante,
e ele,
– é acreditar em mim, o
senhor acredita em mim? Se calhar não acredita e por isso quando chegar a casa
e pegar numa moeda e começar a raspar e a raspar em vez de um milhão de euros
vai sair-lhe nada, zero. Mas se acreditar, se acreditar em mim, é capaz de ganhar um milhão de euros, um milhão
de euros ajudavam, não acha?, é uma questão de acreditar.
Em casa, mais tarde, ao
princípio da noite, raspei a merda da “raspadinha” e nada, nem um euro. Fiquei
a olhar para aquilo, como se fosse um colete salva-vidas que se afastasse de
mim e pensei,
– fuck that,
(muitas vezes penso em inglês).
Vou mudar de assunto
agora. Vou dizer que andamos aqui à procura de uma redenção. Vou dizer que eu ando aqui à procura de uma
redenção. Vou dizer que não sei se quero salvar-te do buraco onde estás ou se
me quero salvar do buraco onde estou. Cada vez gosto menos das pessoas. Cada
dia que passa tenho mais dificuldade em falar com as pessoas, em estar com elas,
em falar com elas. Deixei-me disso. E estou bem assim. Desde que te tenha ao
meu lado não preciso de mais ninguém.
– És um romântico,
dizes tu,
e eu,
– sabes que sim,
e tu,
– se ao menos não tivéssemos
passado, se ao menos não tivéssemos passado podíamos ser felizes, podíamos
estar os dois, agora, a ser felizes, a viver a vida tal como ela é, apenas no
presente, apenas este momento em que eu estendo a mão para ti e tu me dás a mão,
apenas este momento em que eu fecho os olhos e me inclino na tua direcção e tu
me beijas.
À noite, sozinho, agora,
raspo a “raspadinha” e não me sai nada. Zero.
– E eu que pensei que o
velho de barba branca era Deus,
penso eu,
– e que por acaso Ele se
tinha lembrado de mim.
Vou dormir. Sonho contigo.
Sonho que me dizes,
– não me fazes rir,
e está tudo a correr tão
mal que, realmente, não há qualquer vontade de rir.
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