domingo, 2 de setembro de 2018

BULLETPROOF

Não me lembro do dia em que perdi tudo, a alegria, a vontade de viver. Não foi um dia, não deve ter sido um dia, mas um conjunto de coisas que aconteceram e que foram acontecendo, ou talvez um conjunto de ideias que se foram formando na minha cabeça e que ou aconteceram ou não aconteceram. Seja como for, a partir do momento em que perdi toda a alegria e a vontade de viver, quando passei a achar que o meu objectivo para o dia a seguir era apenas acordar, estranhamente, passei a dormir bem, a viver bem, a comer bem, a falar bem com as pessoas e a fazer planos que conseguia concretizar, uma peça daqui a um ano, uma viagem daqui a seis meses. Se calhar as coisas são mais fáceis quando apenas lidamos com a infelicidade, quando aceitamos que vamos estar assim o resto da vida, sem ninguém que nos pergunte,
– então, como correu o teu dia?,
ou que adormeça ao nosso lado no sofá porque ambos estamos cansados. Se calhar tudo é melhor quando não esperamos o que quer que seja, quando a expectativa é a de conseguir adormecer e de conseguir acordar.
Porque quando as coisas mudam, quando tudo isso muda, quando,
– sei lá,
digo eu ao balcão de um bar,
– não sei, apenas aconteceu, tenho de explicar o quê?, o que é que há para explicar?, as coisas acontecem, as coisas são assim, porque é que tenho de as explicar?, não há como as explicar, elas apenas acontecem e eu sou assim, não sou capaz de ser de outra maneira, ou não sinto nada ou sinto tudo, e eu agora estou a sentir tudo e não é fácil sentir tudo, e não é fácil sentir tudo e sentir que estás a fugir de mim,
digo eu. Depois olho para o lado, para ti, e lembro-me que já te foste embora, que estou sozinho, que não há ninguém ao meu lado.
E é isso. As pessoas dizem para eu ir ter com os meus amigos,
– vai ter com os teus amigos,
mas eu não gosto de falar e já sei o que eles vão dizer, e não quero voltar para casa e encontrá-la tão vazia como a deixei. Prefiro ficar em casa e por isso fico em casa. Fico em casa sem saber o que devo fazer e por isso faço só faço aquilo que sei fazer, mas a dobrar, a triplicar e por isso às vezes tenho medo, tenho medo já não conseguir ser infeliz, de já nem sequer conseguir ser infeliz.
Mas os amigos preocupam-se e à tarde a Madalena telefonou-me, ela disse,
– às vezes acho que as pessoas te tratam como se fosses à prova de bala e tu não és à prova de bala,
e talvez por isso à noite, quando me viu, a minha irmã se agarrou a mim e disse,
– o que é que aconteceu?,
enquanto me abraça e me dá um beijo na testa,
– o que é que aconteceu?,
diz ela,
e como eu não quero começar a chorar, como eu não quero começar a chorar à frente dos meus sobrinhos, como eu já sou um homem crescido e não quero começar a chorar à frente da minha sobrinha nem à frente do meu sobrinho, apenas fecho os olhos e digo,
– nada,
mesmo que dentro dos olhos fechados só te veja a ti.  

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