quinta-feira, 4 de outubro de 2018

A NOITE ESCURECE QUANDO AS ESTRELAS SE APAGAM

Meu amor,
quantos são os dias que nos separam? Há quanto tempo não te vejo, não te toco? Há quanto tempo não te dou a mão ou passeamos ao lado um do outro sem olharmos para trás? Há quanto tempo não somos felizes? Há quanto tempo não nos sentamos ao lado um do outro?, contigo a dizeres,
– Migueeeeeeeeel,
com as tuas pernas sobre as minhas enquanto te encostas no sofá e eu acendo um cigarro e olho para ti e tu dizes,
– vou adormecer,
e eu te dou a mão e um beijo e digo,
– eu estou aqui, não me vou embora, não me vou embora para lado algum.
À noite é mais difícil. Agora que deixei de beber é mais difícil. Fico acordado muitas horas, deitado na cama, sozinho, a olhar para a parede que não vejo porque a luz está apagada, a imaginar que se acender a luz tu vais materializar-te ao meu lado. De maneira que é isso que faço, acendo a luz e apago a luz à espera que apareças, à espera que numa das vezes em que a luz se acenda te veja ao meu lado, outra vez, a dizeres,
– Migueeeeeeeeel, tenho sono,
ou,
– Migueeeeeeeeel, deita-te ao meu lado.
É estranho esses dias terem desaparecido, é estranho terem sido tão poucos, e é estranho acordar de manhã e não ter nada que fazer, não ter alguém a quem eu diga,
– bom dia,
ou alguém a quem fazer o pequeno-almoço,
(nunca te fiz o pequeno-almoço)
ou apenas,
– tenho de ir dar aulas e não me apetece, não me apetece porque quero ficar aqui, ao teu lado, que se fodam as aulas, que se foda a vida, só quero ficar aqui, abraçado a ti.
Os dias passam devagar. À noite é mais difícil, principalmente quando chego a casa. Lembro-me demasiado de ti e não tenho como escapar disso, da memória, da tua imagem ali sentada, ou ali de pé, ou aqui abraçada a mim a dizer,
– tens de dançar,
e eu,
– eu não danço,
e tu a olhares para mim,
e eu,
– a não ser que seja contigo.
Estou a escrever uma peça para ti mas ainda não escrevi nada. Encomendaram-me há uns três meses um texto para teatro,
– dois actores, um homem e uma mulher, sobre o Amor, faz como quiseres, escreve o que quiseres.
Tenho pensado nisso, no Amor, tenho pensado na distância, no que nos separa uns dos outros, no que me separa de ti.
O Lobão disse às seis da tarde,
– o ensaio é às oito e meia, bebemos café aqui, antes?,
e eu,
– sim, vou precisar de um café,
(eu e o Lobão voltámos a ser amigos)
e eu ,
 vou precisar de um café, estou a beber desde as onze da manhã, estou a beber desde que acordei,
e o Lobão olha para mim e diz,
– estás todo fodido,
que é o que a Madalena me diz ao ouvido antes de começarmos o ensaio, ela diz assim,
– estás todo fodido, Mike, olha para ti, achas que isso é normal?, achas que estás bem?.
Eu paro,
eu olho em frente, para a minha catástrofe, para ti, mas mesmo assim eu digo,
– meu amor.

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