quantos são os dias que
nos separam? Há quanto tempo não te vejo, não te toco? Há quanto tempo não te
dou a mão ou passeamos ao lado um do outro sem olharmos para trás? Há quanto
tempo não somos felizes? Há quanto tempo não nos sentamos ao lado um do outro?,
contigo a dizeres,
– Migueeeeeeeeel,
com as tuas pernas sobre
as minhas enquanto te encostas no sofá e eu acendo um cigarro e olho para ti e
tu dizes,
– vou adormecer,
e eu te dou a mão e um
beijo e digo,
– eu estou aqui, não me
vou embora, não me vou embora para lado algum.
À noite é mais difícil.
Agora que deixei de beber é mais difícil. Fico acordado muitas horas, deitado
na cama, sozinho, a olhar para a parede que não vejo porque a luz está apagada,
a imaginar que se acender a luz tu vais materializar-te ao meu lado. De maneira
que é isso que faço, acendo a luz e apago a luz à espera que apareças, à espera
que numa das vezes em que a luz se acenda te veja ao meu lado, outra vez, a
dizeres,
– Migueeeeeeeeel, tenho
sono,
ou,
– Migueeeeeeeeel, deita-te
ao meu lado.
É estranho esses dias
terem desaparecido, é estranho terem sido tão poucos, e é estranho acordar de
manhã e não ter nada que fazer, não ter alguém a quem eu diga,
– bom dia,
ou alguém a quem fazer o
pequeno-almoço,
(nunca te fiz o
pequeno-almoço)
ou apenas,
– tenho de ir dar aulas e
não me apetece, não me apetece porque quero ficar aqui, ao teu lado, que se
fodam as aulas, que se foda a vida, só quero ficar aqui, abraçado a ti.
Os dias passam devagar. À noite
é mais difícil, principalmente quando chego a casa. Lembro-me demasiado de ti e
não tenho como escapar disso, da memória, da tua imagem ali sentada, ou ali de
pé, ou aqui abraçada a mim a dizer,
– tens de dançar,
e eu,
– eu não danço,
e tu a olhares para mim,
e eu,
– a não ser que seja
contigo.
Estou a escrever uma peça
para ti mas ainda não escrevi nada. Encomendaram-me há uns três meses um texto
para teatro,
– dois actores, um homem e
uma mulher, sobre o Amor, faz como quiseres, escreve o que quiseres.
Tenho pensado nisso, no
Amor, tenho pensado na distância, no que nos separa uns dos outros, no que me
separa de ti.
O Lobão disse às seis da
tarde,
– o ensaio é às oito e
meia, bebemos café aqui, antes?,
e eu,
– sim, vou precisar de um
café,
(eu e o Lobão voltámos a
ser amigos)
e eu ,
– vou precisar de um café, estou a beber desde
as onze da manhã, estou a beber desde que acordei,
e o Lobão olha para mim e
diz,
– estás todo fodido,
que é o que a Madalena me
diz ao ouvido antes de começarmos o ensaio, ela diz assim,
– estás todo fodido, Mike,
olha para ti, achas que isso é normal?, achas que estás bem?.
Eu paro,
eu olho em frente, para a
minha catástrofe, para ti, mas mesmo assim eu digo,
– meu amor.
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