pergunta ela,
e mesmo sabendo a resposta
continua a perguntar,
– estás bem?,
às vezes todos os dias, às
vezes de dois em dois, às vezes uma vez por semana.
Não sei por que razão ela
faz isso, ela continua a fazer isso, a perguntar-me,
– estás bem?,
como se não soubesse a
resposta ou como se tivesse a esperança que eu dissesse,
– eu?, nem imaginas, tenho
estado como ninguém, os dias passam com a leveza de uma folha que cai do topo de
uma árvore, todo eu sou harmonia, todo eu flutuo pelo ar que são os dias e
repouso no chão que é a existência, sou todo eu a quintessência da humanidade,
quando acordo, quando me deito e quando o tempo passa entre essas duas fronteiras,
que são os limites entre a realidade e o sonho, toda uma perfeição, todo um
nirvana que eu abraço desde o primeiro ao último momento.
Mas eu não digo isso. Eu
olho para ti, mesmo sem olhar, e digo,
– estou como estou,
e tu dizes,
– está bem, Miguel.
E depois vais dormir, às
vezes dizes,
– adeus,
outras vezes apenas dizes,
– está bem, Miguel,
e vais dormir sem dizer
mais nada.
Quando olho para trás, para
tudo o que eu fiz, para tudo o que eu fiz às outras pessoas, às vezes acho que
mereço isto, que mereço o que está a acontecer, que és apenas um instrumento
divino para me castigar, uma hybris ou um pathos ou uma hamartia
ou qualquer coisa grega que ainda me dê uma hipótese de redenção. Não sei. Olho
para isto tudo, para tudo à minha volta e houve muita gente que me disse isso,
quando eu contava histórias, quando eu dizia,
–
nem sei o que dizia, era
apenas triste, o que eu dizia era apenas triste, e as pessoas mais próximas
riam-se e abanavam a cabeça e olhavam para mim com um sorriso e diziam,
– ainda hás-de morder
essas palavras,
ou
– um dia vais encontrar
alguém que te vai fazer o mesmo, e tu vais ficar como estás agora, vais ficar
assim, sem saber o que fazer porque não há nada a fazer, e ela vai rir-se de ti
e vai perguntar se estás bem só porque tem pena de ti, só porque de vez em
quando se lembra, com alguns poucos problemas de consciência, que talvez seja, em
parte, responsável por estares assim.
O tempo passa. As coisas
acabam por acontecer.
Daqui a exactamente 20
dias vou deixar esta casa e vou passar a viver com o meu pai. As coisas mudam, às
vezes sabemos quando elas vão acontecer, outras vezes ficamos à espera que elas
aconteçam, e outras vezes elas nunca acontecem. E é isso. A maior parte das
vezes as coisas não acontecem, somos só nós, sozinhos, a tentar qualquer coisa
que não sejas tu a dizer,
– estás bem?,
quando está tudo ao contrário,
quando nada pode estar bem, quando a única resposta é, como o Bukowsky,
– estás a provocar-me uma
tristeza enorme,
que mesmo assim não diz
metade, não diz menos de metade do que sinto.
E é isso.
Talvez sejas a mulher mais
bonita da cidade, mas talvez sejas também a mais cruel.
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