sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

THE MOST BEAUTIFUL WOMAN IN TOWN

– Estás bem?,
pergunta ela,
e mesmo sabendo a resposta continua a perguntar,
– estás bem?,
às vezes todos os dias, às vezes de dois em dois, às vezes uma vez por semana.
Não sei por que razão ela faz isso, ela continua a fazer isso, a perguntar-me,
– estás bem?,
como se não soubesse a resposta ou como se tivesse a esperança que eu dissesse,
– eu?, nem imaginas, tenho estado como ninguém, os dias passam com a leveza de uma folha que cai do topo de uma árvore, todo eu sou harmonia, todo eu flutuo pelo ar que são os dias e repouso no chão que é a existência, sou todo eu a quintessência da humanidade, quando acordo, quando me deito e quando o tempo passa entre essas duas fronteiras, que são os limites entre a realidade e o sonho, toda uma perfeição, todo um nirvana que eu abraço desde o primeiro ao último momento.
Mas eu não digo isso. Eu olho para ti, mesmo sem olhar, e digo,
– estou como estou,
e tu dizes,
– está bem, Miguel.
E depois vais dormir, às vezes dizes,
– adeus,
outras vezes apenas dizes,
– está bem, Miguel,
e vais dormir sem dizer mais nada.
Quando olho para trás, para tudo o que eu fiz, para tudo o que eu fiz às outras pessoas, às vezes acho que mereço isto, que mereço o que está a acontecer, que és apenas um instrumento divino para me castigar, uma hybris ou um pathos ou uma hamartia ou qualquer coisa grega que ainda me dê uma hipótese de redenção. Não sei. Olho para isto tudo, para tudo à minha volta e houve muita gente que me disse isso, quando eu contava histórias, quando eu dizia,
 
nem sei o que dizia, era apenas triste, o que eu dizia era apenas triste, e as pessoas mais próximas riam-se e abanavam a cabeça e olhavam para mim com um sorriso e diziam,
– ainda hás-de morder essas palavras,
ou
– um dia vais encontrar alguém que te vai fazer o mesmo, e tu vais ficar como estás agora, vais ficar assim, sem saber o que fazer porque não há nada a fazer, e ela vai rir-se de ti e vai perguntar se estás bem só porque tem pena de ti, só porque de vez em quando se lembra, com alguns poucos problemas de consciência, que talvez seja, em parte, responsável por estares assim.
O tempo passa. As coisas acabam por acontecer.
Daqui a exactamente 20 dias vou deixar esta casa e vou passar a viver com o meu pai. As coisas mudam, às vezes sabemos quando elas vão acontecer, outras vezes ficamos à espera que elas aconteçam, e outras vezes elas nunca acontecem. E é isso. A maior parte das vezes as coisas não acontecem, somos só nós, sozinhos, a tentar qualquer coisa que não sejas tu a dizer,
– estás bem?,
quando está tudo ao contrário, quando nada pode estar bem, quando a única resposta é, como o Bukowsky,
– estás a provocar-me uma tristeza enorme,
que mesmo assim não diz metade, não diz menos de metade do que sinto.
E é isso.
Talvez sejas a mulher mais bonita da cidade, mas talvez sejas também a mais cruel.



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