– vai correr tudo bem,
quando sabemos que isso é
mentira.
Na morte dos outros vemos também
amigos que não víamos há muito tempo, há demasiado tempo porque são nossos
amigos. E eles estão lá, na morte, mesmo que já não estejam na vida.
Quando somos novos, tudo é
hoje e agora, e todos os dias há qualquer coisa para fazer,
– onde é que vamos hoje?,
ou,
– vamos beber um café?,
depois o tempo começa a
passar e a rotina de todos os dias transforma-se na rotina do fim-de-semana, e
depois sem se saber muito bem como passa-se para um encontro uma vez por mês, e
depois vêm os jantares, de Natal ou de aniversário, e depois, de repente,
encontramo-nos nos funerais, vemo-nos nos funerais e combinamos voltar a
encontrar-nos todos os dias, ou pelo menos todos os aniversários, mesmo sabendo
que isso é mentira, porque muita coisa aconteceu, porque a vida aconteceu.
Na consoada, perto da
meia-noite, estou com a minha tia na cozinha, os dois de pé. Ela é irmã do meu
pai e em tempos, quando eu era ainda criança tomou conta de mim em muitas ocasiões.
Hoje estamos os dois a fumar cigarros na cozinha porque o cancro está na sala e
não queremos alimentá-lo. E eu não lhe digo nada, e ela não sabe de nada, mas
mesmo assim ela diz-me,
– sabes, filho, a vida é
muita injusta, é mesmo muito injusta, as coisas acontecem e não há nada que
possamos fazer. As coisas são muito injustas, a vida é muito injusta. As
pessoas são más, as pessoas são muito más, fazemos coisas uns aos outros que não
devíamos fazer. Tu sabes. A tia já te disse, é mesmo assim, há pessoas que não
conseguem amar e há outras que não conseguem ser amadas, e depois há pessoas
que não sabem amar nem ser amadas, e é só isso,
e eu,
– eu sei,
e ela,
– pelo menos voltaste a
escrever, estás a escrever agora, já não escreves há quanto tempo?, disseste
que não ias voltar a escrever, mas afinal estás a escrever, vês?, e agora vais
começar do zero e isso é bom, é bom para ti,
– é?,
perguntei eu,
– a tia acha que sim, que
isto tudo vai ser bom para ti, que tudo se há-de compor, é como se dizia no meu
tempo,
– não há mal que não dê em
fartura,
e rimo-nos.
Depois o Natal acabou.
Abrimos os presentes, e depois fomos para casa porque ninguém tinha muita
vontade de falar.
O tempo passou.
Pouco antes do final do
ano telefonei ao Pedro, ao David e à Madalena para lhes dizer que gostava deles
e que esperava que 2019 lhes corresse bem, só disse a segunda parte.
À meia-noite, enquanto o
fogo-de-artifício reflecte na janela, eu digo,
– espero que as coisas
melhorem,
e a minha irmã diz,
– tu bem mereces isso,
Mike,
e
não sei
às vezes sinto-me tão
distante de mim próprio que parece que só me vou encontrar no meu funeral.
Sem comentários:
Enviar um comentário