sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

THE LAST MAN ON EARTH

Na morte dos outros vemos a nossa própria morte, não é a nossa morte individual, não somos nós fechados num caixão ou a empurrarem-nos para o fogo enquanto as pessoas, os vivos, se afastam e voltam para casa e continuam com a vida, não, na morte dos outros vemos a nossa própria morte, a nossa mortalidade, a perda de toda a dignidade quando se deixa de respirar, quando a cabeça cai para o lado e deixamos de existir, e depois, nós, os vivos, começamos a pensar no ridículo disto tudo, no absurdo disto tudo, no quanto sofremos, no quanto nos transformamos, no quanto perdemos, no quanto deixamos de ser, na quantidade de vezes que nos dizem,
– vai correr tudo bem,
quando sabemos que isso é mentira.
Na morte dos outros vemos também amigos que não víamos há muito tempo, há demasiado tempo porque são nossos amigos. E eles estão lá, na morte, mesmo que já não estejam na vida.
Quando somos novos, tudo é hoje e agora, e todos os dias há qualquer coisa para fazer,
– onde é que vamos hoje?,
ou,
– vamos beber um café?,
depois o tempo começa a passar e a rotina de todos os dias transforma-se na rotina do fim-de-semana, e depois sem se saber muito bem como passa-se para um encontro uma vez por mês, e depois vêm os jantares, de Natal ou de aniversário, e depois, de repente, encontramo-nos nos funerais, vemo-nos nos funerais e combinamos voltar a encontrar-nos todos os dias, ou pelo menos todos os aniversários, mesmo sabendo que isso é mentira, porque muita coisa aconteceu, porque a vida aconteceu.
Na consoada, perto da meia-noite, estou com a minha tia na cozinha, os dois de pé. Ela é irmã do meu pai e em tempos, quando eu era ainda criança tomou conta de mim em muitas ocasiões. Hoje estamos os dois a fumar cigarros na cozinha porque o cancro está na sala e não queremos alimentá-lo. E eu não lhe digo nada, e ela não sabe de nada, mas mesmo assim ela diz-me,
– sabes, filho, a vida é muita injusta, é mesmo muito injusta, as coisas acontecem e não há nada que possamos fazer. As coisas são muito injustas, a vida é muito injusta. As pessoas são más, as pessoas são muito más, fazemos coisas uns aos outros que não devíamos fazer. Tu sabes. A tia já te disse, é mesmo assim, há pessoas que não conseguem amar e há outras que não conseguem ser amadas, e depois há pessoas que não sabem amar nem ser amadas, e é só isso,
e eu,
– eu sei,
e ela,
– pelo menos voltaste a escrever, estás a escrever agora, já não escreves há quanto tempo?, disseste que não ias voltar a escrever, mas afinal estás a escrever, vês?, e agora vais começar do zero e isso é bom, é bom para ti,
– é?,
perguntei eu,
– a tia acha que sim, que isto tudo vai ser bom para ti, que tudo se há-de compor, é como se dizia no meu tempo,
– não há mal que não dê em fartura,
e rimo-nos.
Depois o Natal acabou. Abrimos os presentes, e depois fomos para casa porque ninguém tinha muita vontade de falar.
O tempo passou.
Pouco antes do final do ano telefonei ao Pedro, ao David e à Madalena para lhes dizer que gostava deles e que esperava que 2019 lhes corresse bem, só disse a segunda parte.
À meia-noite, enquanto o fogo-de-artifício reflecte na janela, eu digo,
– espero que as coisas melhorem,
e a minha irmã diz,
– tu bem mereces isso, Mike,
e
não sei
às vezes sinto-me tão distante de mim próprio que parece que só me vou encontrar no meu funeral.



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