sábado, 1 de dezembro de 2018

CRONOS

Quando eu era novo, quando eu era muito novo, talvez com quatro ou cinco anos – não sei, talvez antes dessa altura isso também acontecesse, mas para me lembrar das coisas já devia ter quatro ou cinco anos, talvez mais, o tempo passa e perdemos a noção real de quanto tempo passou, do que se passou, quando é que se passou – passava parte do Verão com os meus pais, acho que no Algarve, talvez uma semana, talvez um fim-de-semana, e grande parte desse tempo, pelo menos do que me lembro, mas tenho a certeza que isso não é verdade, era passado a construir castelos de areia com o meu pai. Quando a maré baixava e, não sei, tenho a ideia que a maré estava sempre baixa, começávamos a construir o castelo de areia, com torreões, fossos, e a areia meia molhada que segurávamos numa mão fechada e que deixávamos cair para o castelo que ia ficando com um estilo quase manuelino enquanto as gotas de água e areia misturadas se iam acumulando para formar janelas, portas e a imponência de um castelo que era ao mesmo tempo um palácio e uma fortaleza. Depois a maré começava a subir e de cada vez que se aproximava começávamos a construir um fosso maior que protegesse as muralhas do castelo, até que uma onda maior invadia o fosso, as muralhas e os torreões e tudo desabasse num momento, enquanto o meu pai dizia,
– ah,
e eu amaldiçoava o mar e amaldiçoava o mundo que não deixava que castelos com fossos, muralhas e torreões se mantivessem de pé por mais do que umas horas. E depois era tarde, o sol quase que se estava a pôr e era altura de ir embora. Amanhã havia mais castelos com fossos, muralhas e torreões. E no dia a seguir começava tudo outra vez e acabava tudo da mesma maneira.
Isto foi há muito tempo.
É engraçado lembrar-me disto e lembrar-me de ti. É engraçado porque não sei se és o castelo ou se és o meu pai a dizer,
– ah,
como se não soubesses o que ia acontecer, como se não soubesses que tudo ia desabar, que uma onda maior ia destruir tudo, e que eu sou só um miúdo que deixou de ir à praia porque os castelos caem, caem mesmo, e há um dia em que não há como reconstruí-los, há um dia em que tudo à volta é uma onda que engole tudo, que devora tudo, e não há ninguém que nos pegue na mão e diga,
– é tarde, o sol está a pôr-se, está na altura de ir embora, amanhã tentamos outra vez.
Ao jantar, hoje, passaram-se muitos anos.
O meu pai está velho, estamos todos velhos, todos parecemos mais jovens do que somos mas todos somos mais velhos do que parecemos. O meu pai está muito velho, está muito amargo, se o pusessem agora à beira-mar, na maré baixa, seria incapaz de construir um castelo com um fosso, muralhas e torreões, seria incapaz de construir o que quer que fosse, não seria capaz de me enganar e dizer,
– ah,
numa surpresa fingida que me convencia
(onde é que estava a minha mãe?, sentada na toalha, metros acima, a olhar para nós?)
que ele não sabia que a maré ia subir e que uma onda ia destruir o castelo,
– é tarde, o sol está a pôr-se, está na altura de ir embora, amanhã tentamos outra vez.
Sim, o tempo passa, ele está velho e eu estou velho. Envelhecemos. E hoje, ao jantar, quando estou quase a chegar à idade que ele tinha quando eu nasci, e isso é estranho, isso é muito estranho, não peguei na mão da minha irmã debaixo da mesa nem olhei para o meu sobrinho à minha frente ou para a minha sobrinha à minha frente, apenas pensei,
– tenho medo,
e calei-me como todos nos calamos quando temos medo. E enrolei outro cigarro. E levantei-me da mesa e fui até ao telemóvel ver se tinhas dito alguma coisa, se tinhas sentido o meu medo, se me tinhas mandado uma mensagem a dizer,
– estou aqui, tu sabes que estou aqui, vou estar sempre aqui, ao teu lado,
mas não tinhas dito nada.
Depois ele disse, o meu pai disse,
– e tu?, quando é que vais resolver a tua vida?,
 hoje ao jantar,
– há quanto tempo não dormes?, quando é que vais resolver a tua vida?,
perguntou ele outra vez,
– há coisas que tens de perceber, e uma delas é que para cada problema há uma solução, só tens de saber como, só tens de saber como chegar ao resultado final e, para isso, às vezes, tens
– alguns problemas não têm solução, pai,
disse eu,
(houve um silêncio)
– tu sabes disso,
disse eu,
– como o problema de ser o Miguel Graça,
disse ele, o meu pai.
E eu disse,
– sim,
enquanto tu vais desaparecendo como os castelos de areia que são levados pelas ondas, incapaz de sobreviver, incapaz de me salvar.

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