– ah,
e eu amaldiçoava o mar e
amaldiçoava o mundo que não deixava que castelos com fossos, muralhas e torreões
se mantivessem de pé por mais do que umas horas. E depois era tarde, o sol
quase que se estava a pôr e era altura de ir embora. Amanhã havia mais castelos
com fossos, muralhas e torreões. E no dia a seguir começava tudo outra vez e
acabava tudo da mesma maneira.
Isto foi há muito tempo.
É engraçado lembrar-me
disto e lembrar-me de ti. É engraçado porque não sei se és o castelo ou se és o
meu pai a dizer,
– ah,
como se não soubesses o
que ia acontecer, como se não soubesses que tudo ia desabar, que uma onda maior
ia destruir tudo, e que eu sou só um miúdo que deixou de ir à praia porque os
castelos caem, caem mesmo, e há um dia em que não há como reconstruí-los, há um
dia em que tudo à volta é uma onda que engole tudo, que devora tudo, e não há
ninguém que nos pegue na mão e diga,
– é tarde, o sol está a pôr-se,
está na altura de ir embora, amanhã tentamos outra vez.
Ao jantar, hoje,
passaram-se muitos anos.
O meu pai está velho,
estamos todos velhos, todos parecemos mais jovens do que somos mas todos somos
mais velhos do que parecemos. O meu pai está muito velho, está muito amargo, se
o pusessem agora à beira-mar, na maré baixa, seria incapaz de construir um
castelo com um fosso, muralhas e torreões, seria incapaz de construir o que
quer que fosse, não seria capaz de me enganar e dizer,
– ah,
numa surpresa fingida que me
convencia
(onde é que estava a minha
mãe?, sentada na toalha, metros acima, a olhar para nós?)
que ele não sabia que a
maré ia subir e que uma onda ia destruir o castelo,
– é tarde, o sol está a pôr-se,
está na altura de ir embora, amanhã tentamos outra vez.
Sim, o tempo passa, ele
está velho e eu estou velho. Envelhecemos. E hoje, ao jantar, quando estou
quase a chegar à idade que ele tinha quando eu nasci, e isso é estranho, isso é
muito estranho, não peguei na mão da minha irmã debaixo da mesa nem olhei para
o meu sobrinho à minha frente ou para a minha sobrinha à minha frente, apenas
pensei,
– tenho medo,
e calei-me como todos nos
calamos quando temos medo. E enrolei outro cigarro. E levantei-me da mesa e fui
até ao telemóvel ver se tinhas dito alguma coisa, se tinhas sentido o meu medo,
se me tinhas mandado uma mensagem a dizer,
– estou aqui, tu sabes que
estou aqui, vou estar sempre aqui, ao teu lado,
mas não tinhas dito nada.
Depois ele disse, o meu
pai disse,
– e tu?, quando é que vais
resolver a tua vida?,
hoje ao jantar,
– há quanto tempo não
dormes?, quando é que vais resolver a tua vida?,
perguntou ele outra vez,
– há coisas que tens de
perceber, e uma delas é que para cada problema há uma solução, só tens de saber
como, só tens de saber como chegar ao resultado final e, para isso, às vezes,
tens
– alguns problemas não têm
solução, pai,
disse eu,
(houve um silêncio)
– tu sabes disso,
disse eu,
– como o problema de ser o
Miguel Graça,
disse ele, o meu pai.
E eu disse,
– sim,
enquanto tu vais
desaparecendo como os castelos de areia que são levados pelas ondas, incapaz de
sobreviver, incapaz de me salvar.
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