Vejo-te a ir embora, a
olhares para mim enquanto te vais embora, a olhares para trás, para mim,
enquanto te vais embora, e de alguma maneira, eu tento sorrir enquanto te vejo
a ir embora e na minha cabeça pergunto-me outra vez depois de desapareceres,
– E agora? O que é que
vais fazer agora? O que é que vais fazer agora?,
porque eu não sei mesmo o
que fazer, não sei mesmo como continuar.
Isto foi de manhã. Tu a
ires embora foi de manhã. À tarde mantive-me vivo e à noite a minha irmã disse-me
depois do jantar,
– não tens uma única
asneira na tua última peça, reparaste?, chama-se crescer,
e é engraçado a minha irmã
dizer isso porque nunca me senti velho até tu dizeres,
– és velho,
e eu para ti,
– porque é que estás a
dizer isso?,
e tu para mim,
– porque és velho,
desculpa dizer-te isto, mas é a verdade, és velho,
e eu sei que não sou
velho, eu sei que hoje ninguém é velho aos 40 anos, mas, mesmo assim, se calhar,
muita coisa mudou desde que te foste embora, porque na verdade não te foste
embora hoje de manhã, na verdade foste-te embora há não sei quanto tempo, e eu
apenas fingi este tempo todo que não te tinhas ido embora, ou, pelo menos, que
ias voltar, e se calhar envelheci, se calhar envelheci desde que te foste embora.
Se calhar aconteceu de uma
vez muita coisa que já tinha acontecido e que eu não tinha percebido que tinha
acontecido, se calhar comecei a entrar no elevador e a olhar-me ao espelho e a
dizer,
– estão a nascer-te demasiados
cabelos brancos, como é que não tinhas reparado nisso?, já não são só dois ou
três que arrancas às vezes quando à noite entras no elevador e te vês ao
espelho porque não há mais nada para onde olhar. Não. Desta vez vieram mesmo
para ficar. Desta vez elas chamam-te velho e vão-se embora porque estás sentado
em casa, porque já te custa sair à noite, porque já não te consegues rir do que
não tem piada, nem ir ter com pessoas que não conheces, nem conhecer pessoas
que não queres conhecer. Desta vez só querias ser feliz, só querias ser feliz
demasiado depressa porque estás farto de ser infeliz. E foi esse o teu erro,
querer ser feliz demasiado depressa, tens de dar tempo ao tempo, tens de deixar
que o quotidiano se instale, que as pessoas se habituem a uma determinada
rotina, a uma determinada dependência. Queres tudo demasiado depressa, Miguel,
e depois assustas as pessoas e elas vão-se embora, elas vão-se embora e ficas
sozinho,
disse eu a mim próprio em
voz alta no elevador, a olhar para o espelho, a ver os meus cabelos brancos a
crescer, eu a vê-lo a crescer sem os conseguir arrancar enquanto te ouço a
dizer,
– és velho.
Entro em casa, acendo a
luz e
desculpa
não consigo não pensar em
ti, não me lembrar de ti.
Acendo a luz e acho que não
tenho de pedir desculpa por me lembrar de ti, acho que não tenho de pedir
desculpa por me lembrar de ti e de mim, de me lembrar de nós. Acho que não
tenho de pedir desculpa por me lembrar de ter sido feliz e de tu teres sido
feliz.
Mas, pronto, que se foda,
não é isso?.
Entro em casa e sento-me
no sofá e vejo-te ao meu lado, e vejo os teus sinais, os sinais do teu corpo,
ou o teu corpo como constelações enquanto dizes,
– escreve sobre os meus sinais,
sobre os sinais do meu corpo.
E a escrever que o teu
corpo é como uma galáxia cheia de constelações, ou então um mapa que eu não
consigo decifrar, um mapa cheio de segredos que
enquanto a minha irmã,
depois de abrir a porta olha para mim e diz,
– o que é que aconteceu?,
que cara é essa?, quem é que morreu?,
e eu digo,
– eu, fui eu que morri
outra vez, mas não tem mal, sabes como sou, eu morro e está tudo bem, escrevi
uma peça e está tudo bem, valeu a pena, valeu a pena morrer outra vez, queria
ser feliz, que estupidez, não é?, mas escrevi uma peça, que é muito melhor do
que ser feliz, escrevi uma peça e descobri que sou velho, que estou a começar a
ter cabelos brancos e que nunca mais me vou entregar a alguém,
– disseste-me que desta
vez era a sério, que desta vez era mesmo a sério,
disse a minha irmã,
– enganei-me,
disse eu.
1 comentário:
Um "foda-se" anónimo para o crescimento e a velhice.
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