domingo, 3 de junho de 2018

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Ela olha para mim e pergunta,
– quem é que te fez tanto mal?
E é assim que a história começa – e é uma história longa – numa varanda de Lisboa, à noite, com vista para as traseiras de um prédio cheio de imigrantes africanos e asiáticos e jovens actores que dividem as despesas porque ninguém tem dinheiro para viver sozinho, a olhar para um matagal onde se destaca um limoeiro com ela a perguntar,
– quem é que te fez tanto mal para seres assim?
Eu tinha acabado de contar uma história que me tinha acontecido na noite anterior, já não sei se era inventada ou não,
aliás,
já não sei se aconteceu ou não porque isto foi quase há um ano, mas sei que era com uma Francisca ou uma Maria
(a minha vida está cheia de Franciscas e de Marias)
e que a meio da noite, pela seis ou sete da manhã – portanto, já era de manhã – eu tinha dito à Francisca ou à Maria,
– sabes, Francisca Maria, gosto de ti, mas sou um homem simples, gosto de coisas simples, de silêncios que se prolongam – isto é de uma peça minha, não viste, pois não?, pois… – enfim, de frases que não são ditas, de ouvir a mesma música até à exaustão, de a ouvir vezes sem conta até deixar de a poder ouvir, até a deitar para o lixo porque já não a suporto, não sei se entendes o que quero dizer, mas são seis da manhã e daqui a nada vou dar aulas e lamento dizer isto, mas a verdade é que falas demais, Francisca Maria, falas demais, gemes demais, tudo em ti é a mais, eu tenho aulas daqui a nada e preciso de dormir, se quiseres toma lá cinco euros e vai de táxi para casa, se não quiseres ir de táxi vai a pé e leva os cinco euros na mesma, não julgues que te estou a pagar como se fosses uma puta, não, são só cinco euros, onde é que eu ia às putas com cinco euros?, podes comprar qualquer coisa, sei lá, há livros baratos nas estações de comboios ou então tomas o pequeno-almoço numa dessas pastelarias que abrem cedo, eu não quero cá pequenos-almoços, não quero nada disso, não como o pequeno-almoço desde os meus 15 anos, o meu médico diz que isso me faz mal. Estás a chorar?,
perguntei eu,
– estás a chorar porquê?,
perguntei eu,
– aomenosdizomeunomebemcabrãodemerdaaomenosacertanomeunomefilhodaputa,
disse ela aos gritos enquanto se vestia à pressa, a enfiar as cuecas pelos braços e o soutien pelas pernas,
e eu a enrolar um cigarro,
– detesto gritarias,
e ela a partir coisas, a atirar a minha orquídea para o chão, a rasgar os cartazes de peças antigas na parede,
– filhodaputafilhodaputa, espero que morras, só espero que morras,
e eu sentado no sofá a enrolar um cigarro,
– com essa atitude, nenhum homem te pega.
Ela a pegar no meu copo de whisky e a atirá-lo contra a parede,
e eu sentado no sofá a acender o cigarro,
– a tua irmã ao menos nunca fez isso,
e ela a ir-se embora como todas se vão embora, a bater com a porta como todas batem com a porta. E eu a pensar,
– amanhã, passa-lhe,
e passa mesmo.
– E nem é amanhã, é hoje,
é já hoje.
Isto foi há um ano. Ela está a ouvir esta história e está a ouvir-me a rir a contar esta história. E depois pergunta-me quem é que me fez tanto mal para eu ser assim. Ela pergunta-me,
– quem é que te fez tanto mal?,
e eu olho para ela.
Ela é muito bonita e muito jovem – tem vinte anos, tem vinte anos de beleza e de juventude. E eu estou a olhar para ela e a pensar que eu já não tenho nem aquela beleza nem aquela juventude. E depois ela volta a perguntar,
– quem é que te fez tanto mal para seres assim?,
e eu deixo de rir.

2 comentários:

Unknown disse...

1o-"...a tua irmã, ao menos, nunca me disse isso..." é capaz de ser um pouco pesado!
2o-nunca tiveste a beleza de uma miúda gira de 20 anos (nem de uma de 30, 40 ou 50...)
3o-e é que nunca ninguém te fez tanto mal...!
É bom ler-te de novo - wellcome back bro.

Vera Gonçalves disse...

Que bom ler isto!
E que bom descobrir um novo blogue cheio de coisas mórbidas ou não. Parabéns!