– quem é que te fez tanto
mal?
E é assim que a história
começa – e é uma história longa – numa varanda de Lisboa, à noite, com vista para
as traseiras de um prédio cheio de imigrantes africanos e asiáticos e jovens
actores que dividem as despesas porque ninguém tem dinheiro para viver sozinho,
a olhar para um matagal onde se destaca um limoeiro com ela a perguntar,
– quem é que te fez tanto
mal para seres assim?
Eu tinha acabado de contar
uma história que me tinha acontecido na noite anterior, já não sei se era
inventada ou não,
aliás,
já não sei se aconteceu ou
não porque isto foi quase há um ano, mas sei que era com uma Francisca ou uma
Maria
(a minha vida está cheia
de Franciscas e de Marias)
e que a meio da noite,
pela seis ou sete da manhã – portanto, já era de manhã – eu tinha dito à
Francisca ou à Maria,
– sabes, Francisca Maria, gosto
de ti, mas sou um homem simples, gosto de coisas simples, de silêncios que se
prolongam – isto é de uma peça minha, não viste, pois não?, pois… – enfim, de frases
que não são ditas, de ouvir a mesma música até à exaustão, de a ouvir vezes sem
conta até deixar de a poder ouvir, até a deitar para o lixo porque já não a
suporto, não sei se entendes o que quero dizer, mas são seis da manhã e daqui a
nada vou dar aulas e lamento dizer isto, mas a verdade é que falas demais,
Francisca Maria, falas demais, gemes demais, tudo em ti é a mais, eu tenho
aulas daqui a nada e preciso de dormir, se quiseres toma lá cinco euros e vai de
táxi para casa, se não quiseres ir de táxi vai a pé e leva os cinco euros na
mesma, não julgues que te estou a pagar como se fosses uma puta, não, são só
cinco euros, onde é que eu ia às putas com cinco euros?, podes comprar qualquer
coisa, sei lá, há livros baratos nas estações de comboios ou então tomas o
pequeno-almoço numa dessas pastelarias que abrem cedo, eu não quero cá pequenos-almoços,
não quero nada disso, não como o pequeno-almoço desde os meus 15 anos, o meu médico
diz que isso me faz mal. Estás a chorar?,
perguntei eu,
– estás a chorar porquê?,
perguntei eu,
– aomenosdizomeunomebemcabrãodemerdaaomenosacertanomeunomefilhodaputa,
disse ela aos gritos enquanto
se vestia à pressa, a enfiar as cuecas pelos braços e o soutien pelas pernas,
e eu a enrolar um cigarro,
– detesto gritarias,
e ela a partir coisas, a
atirar a minha orquídea para o chão, a rasgar os cartazes de peças antigas na
parede,
– filhodaputafilhodaputa, espero
que morras, só espero que morras,
e eu sentado no sofá a
enrolar um cigarro,
– com essa atitude, nenhum
homem te pega.
Ela a pegar no meu copo de
whisky e a atirá-lo contra a parede,
e eu sentado no sofá a
acender o cigarro,
– a tua irmã ao menos nunca
fez isso,
e ela a ir-se embora como
todas se vão embora, a bater com a porta como todas batem com a porta. E eu a
pensar,
– amanhã, passa-lhe,
e passa mesmo.
– E nem é amanhã, é hoje,
é já hoje.
Isto foi há um ano. Ela
está a ouvir esta história e está a ouvir-me a rir a contar esta história. E
depois pergunta-me quem é que me fez tanto mal para eu ser assim. Ela
pergunta-me,
– quem é que te fez tanto
mal?,
e eu olho para ela.
Ela é muito bonita e muito
jovem – tem vinte anos, tem vinte anos de beleza e de juventude. E eu estou a
olhar para ela e a pensar que eu já não tenho nem aquela beleza nem aquela
juventude. E depois ela volta a perguntar,
– quem é que te fez tanto
mal para seres assim?,
e eu deixo de rir.
2 comentários:
1o-"...a tua irmã, ao menos, nunca me disse isso..." é capaz de ser um pouco pesado!
2o-nunca tiveste a beleza de uma miúda gira de 20 anos (nem de uma de 30, 40 ou 50...)
3o-e é que nunca ninguém te fez tanto mal...!
É bom ler-te de novo - wellcome back bro.
Que bom ler isto!
E que bom descobrir um novo blogue cheio de coisas mórbidas ou não. Parabéns!
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