As pessoas preocupam-se,
as pessoas preocupam-se e por isso perguntam-me o que tenho feito, que nunca
mais disse nada, que ando muito distante que parece que desapareci. Eu
digo-lhes que estou a trabalhar. Às vezes, a meio da tarde ou no princípio da
noite, o telemóvel toca e um amigo ou a minha sobrinha depois de dizerem,
– então, nunca mais
apareceste,
perguntam-me,
– o que é que tens feito?,
e eu digo que estou a
trabalhar, que estou cheio de trabalho e que estou a trabalhar.
– Estou cheio de trabalho,
estou a trabalhar,
digo eu sentado enquanto
olho para a parede, e os meus amigos ou a minha sobrinha dizem que isso é bom,
que é bom eu estar a trabalhar, que é bom eu estar cheio de trabalho e estar a
trabalhar, mesmo que a verdade seja eu aqui sentado a olhar para a parede,
quieto, a pensar em ti, a pensar em ti e em mim deitados na cama, eu a olhar
para ti e tu de olhos fechados, eu a fumar um cigarro e tu com a cabeça
encostada ao meu peito, eu a dizer,
– tenho de ir buscar o
cinzeiro,
e tu,
– amo-te,
enquanto eu olho para ti e
penso nestes últimos dias, no que aconteceu nestes últimos dias, no estranho
disto tudo, na maneira como as coisas acontecem, na maneira estranha como as
coisas acontecem, como acabam por acontecer porque tudo eventualmente acaba
mesmo por acontecer.
A minha irmã, ao jantar,
depois de eu contar os últimos dias, depois de eu contar a toda a gente ao
jantar os últimos dias, disse preocupada a abanar a cabeça,
– sabes bem que a detesto,
e depois,
– mas estás feliz?,
enquanto eu me lembrava de
ti deitada a dizeres,
– amo-te,
com a cabeça encostada ao
meu peito, eu a procurar o cinzeiro com os olhos, eu preocupado com a cinza que
ia cair para cima dos lençóis e tu de olhos fechados a dizeres,
– amo-te,
e eu sorrir para a minha
irmã a dizer,
– sim.
Por isso, por muito trabalho
que tenha para fazer, nos últimos dias não tenho trabalhado, por muito que
tenha para fazer não tenho feito nada a não ser segurar-te na mão, tocar-te no
cabelo e olhar para os teus olhos. Sim, não tenho trabalhado porque tenho muito
que fazer, de manhã tenho de acordar com um beijo teu, à tarde tenho de te levar
a todos os sítios que queres ir e à noite tenho de ouvir música, sentado ao teu
lado no chão da sala enquanto falamos sobre deus, o destino ou o universo. E é
isso. A minha vida tem sido assim nos últimos dias, sem trabalho mesmo que eu
diga que tenho de trabalhar, sem ninguém a não ser eu, tu e a ausência do mundo
inteiro.
Ainda ontem estávamos a
falar sobre a vida, sobre estarmos vivos. Estávamos a ouvir o último álbum da Jasmine
Thompson quando tu disseste,
– tudo está na água,
e depois disseste que a
vida começou na água, que o planeta está coberto de água, que o nosso corpo é
constituído por água. Disseste que a energia do universo está na água e depois
perguntaste se eu já tinha ouvido falar do mestre Ravar Palash,
– já ouviste falar do
mestre Ravar Palash?
Eu disse que não.
– Toda a energia do
universo está na água,
disseste tu,
– e é verdade, é mesmo
verdade. Estava tão infeliz,
disseste tu,
– estava mesmo tão infeliz,
nem imaginas como, nada fazia sentido, acordava de manhã e apetecia-me morrer,
deitava-me à noite e não queria acordar, e então fiz aquilo que o mestre Ravar
Palash chama transmutação da energia pela água.
– A sério?,
disse eu.
E depois contaste-me a
teoria do mestre Ravar Palash e de como tinhas pegado num copo de água e tinhas
escrito no copo como era o teu presente,
– estou sozinha,
e de como tinhas escrito noutro
copo o que querias para o teu futuro,
– estou com o amor da
minha vida,
e de como tinhas despejado
a água de um copo para o outro e como tinhas depois bebido a água,
– e agora,
disseste tu,
– não é maravilhoso?, estou
aqui contigo.
Abraçaste-me e continuaste
a falar sobre a transmutação da energia pela água. Eu disse que não gostava da
palavra maravilhoso mas que agora que tinhas falado nisso me lembrava
perfeitamente do mestre Ravar Palash. Peguei numa daquelas canetas com que
escrevo no quadro nas aulas e que não sei por que razão trago para casa e escrevi
num copo,
– estou sóbrio,
depois deitei duas pedras
de gelo e whisky. Peguei noutro copo e depois de olhar para ti disse,
– agora repara bem,
enquanto escrevia,
– estou bêbado,
e tu te levantavas e
dizias,
– porque é que estás a
fazer isso?
E depois, a seguir.
Bem, acho que por muito
diferentes que elas sejam, o som da porta a bater é sempre o mesmo.
Isto foi ontem.
Fui a um bar onde me
conhecem. Era tarde mas abriram-me a porta. O Francisco atrás do balcão disse,
– então, nunca mais
apareceste,
enquanto eu me sentava,
– o costume?,
disse ele,
– sim,
disse eu,
– o costume.
3 comentários:
Acredito que quando escreves estás sóbrio, ou talvez não. Talvez estejas ligeiramente embriagado com laivos de lucidez. Ou então, talvez transpires álcool por todos os poros do teu corpo. Pouco importa, desde que escrevas assim...
Obrigado, Vera. E, só por curiosidade, nunca escrevo bêbado, apenas de ressaca.
Ainda bem! Eu quando escrevo estou sóbria, muito sóbria.
Obrigada pela resposta Miguel!
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